esquina

As descoladas

Quem elabora as sinopses dos filmes pornôs que passam na tevê

Renato Terra
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2013

Fernanda Pinheiro se ajeita na cadeira, coloca os fones de ouvido e aperta o play. “Ouvi dizer que é uma superprodução”, anuncia. No computador à sua frente, uma tela aberta no canto esquerdo mostra um navio sendo invadido por piratas. O protagonista, vestido como Jack Sparrow, anuncia o sequestro da embarcação.

Fernanda descreve tudo o que vê em uma planilha aberta no lado direito da mesma tela. Suas unhas pintadas de preto passeiam lépidas pelo teclado: “Cena em alto mar. Dentro de um navio, um casal conversa. Eles se pegam. Sexo oral nela.” Ela aperta o fast forward até o momento em que a moça retribui a carícia: “Nele também”, escreve. Fast forward. Pause. “De ladinho.”

Correm na tela as cenas quentes de Pirates, uma paródia pornô de Piratas do Caribe. Devido ao recurso do fast forward nas sequências mais, digamos, repetitivas, a avaliação demora cerca de quarenta minutos. “Eu acelero o filme nas cenas de sexo, mas vou parando para ver se a mulher não está sofrendo, se o áudio continua bom”, comenta Fernanda, uma carioca de 23 anos.

Ela estima ter visto mais de 74 mil horas de filmes eróticos em dois anos e dez meses de trabalho. “Quando conto para meus amigos que trabalho com filmes adultos, todo mundo fica supercurioso, quer saber se visitamos as filmagens, como é a nossa rotina. Quando eu explico que trabalho diante de uma planilha, eles ficam frustrados”, diz.

Fernanda, formada em jornalismo, e a colega Livia Ramos, que fez publicidade, ocupam baias abertas, sem divisórias. As duas e a chefe Marcela Leone cuidam dos filmes exibidos no Sexy Hot, o maior canal pago de conteúdo adulto – o jargão eufemístico para pornô – da televisão por assinatura brasileira. Na função há oito anos, Marcela, também jornalista de formação, é a veterana do trio. Ela explica que o domínio feminino na bancada é caso pensado: “As mulheres lidam com mais naturalidade com conteúdo adulto. A gente não se choca tanto, não fica nervosa vendo os filmes.”

As produções estrangeiras chegam em pacotes definidos pela Playboy Latin America, sócia do Sexy Hot, e cabe ao trio feminino cuidar do título e da sinopse em português. Entre os conhecimentos específicos exigidos está o domínio de siglas em inglês: Double D para designar seios fartos, AZN para asiáticas e LEZ para cenas de lesbianismo. A expressão POV [point of view] é usada para cenas de sexo gravadas a partir do ponto de vista de um dos atores, e Milf [mothers I’d like to fuck] se refere a filmes com mulheres mais velhas.

Produtoras brasileiras também mandam filmes. Nesses casos, as moças fazem uma triagem para ver se não têm cenas de violência, escatologia, consumo de drogas, sexo coagido ou temas ligados à religião. Marcela garante que os filmes brasileiros são os que fazem mais sucesso: “Porque eles trazem fetiches mais possíveis: a mulher parece a vizinha do espectador.” Livia vê diferença entre as cinematografias: “O filme estrangeiro tem historinha, roteiro. O nacional tem mais sexo.”

 

Quando os filmes decupados atingem um volume considerável, a trinca recebe o auxílio de Wilton Souza, responsável pela grade de programação. A equipe se reúne para criar os títulos e as sinopses dos estrangeiros. “Gostamos de fazer trocadilhos com filmes que já existem”, diz Fernanda, citando, com orgulho, De Quatro para o Futuro, de sua lavra. Na ponta da língua também está um filme, Toy Stories, cujo protagonista era um vibrador.

Nas reuniões, Fernanda lê os resumos que fez e informa o título da versão original. “Quando a gente traduz o fetiche que está exposto ali, conseguimos o êxito”, explica Marcela. “A gente tem a preocupação de colocar no título ou na sinopse quais são as práticas mostradas.” Como as chamadas ficam abertas para todos os clientes da operadora – e não apenas para os assinantes do canal – é preciso evitar palavrões.

Palavras como “latinas” e “bundas” costumam agradar ao público e servem como muletas quando ninguém está muito inspirado. O filme campeão de audiência do Sexy Hot, por exemplo, é brasileiro e atende pelo nome nada sutil de Show de Bundas. Casos como o de Pirates entram automaticamente numa gaveta menos criativa: a regra é dar o título Piratas do Caribe – A Paródia. A equipe tem a sensação de dever cumprido quando surgem grandes sacadas, como a de traduzir Fill her Young Holes como Metidinhas ou sugerir o título Quem Tem Medo do Escuro para batizar um filme de sexo inter-racial.

As sinopses, em seguida, também são feitas em conjunto. Para Aeromoças em Apuros, por exemplo, criou-se a descrição: “Próximo voo com destino ao prazer está pronto para o seu embarque. As aeromoças farão tudo o que pedirem.” Em seguida, enumeram-se as modalidades sexuais praticadas. O processo não impede o uso abundante de fórmulas requentadas: “Confira os Flintstones de um jeito que você nunca viu. Eles gostam de sacanagem e provam que são mestres do prazer.”

A pequena sala onde as programadoras trabalham fica na Barra da Tijuca, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, no conjunto de edifícios que abriga a Globosat, empresa com 60% de participação nos canais que funcionam sob a marca Playboy – isso inclui, além do Sexy Hot, Playboy TV, Private, Venus, Sextreme e For Man, este último para o público LGBT.

A decoração da sala é igual à de escritórios convencionais, com mesas e computadores individuais. A diferença é que as duas enormes tevês penduradas na parede estão ligadas em canais adultos (com o som desligado). “Quando chega um motoboy para entregar comida, ele costuma ficar sem graça”, conta Fernanda. Outro detalhe, mais discreto, jaz pendurado na parede de sua baia. É um singelo bilhetinho escrito a mão: “Fernanda, nunca desista dos seus sonhos. Um beijo da Bruna Surfistinha.”



Renato Terra

Ex-editor do site da piauí, é colunista da Folha de S.Paulo e dirigiu Narciso em Férias e Uma Noite em 67

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