questões diplomático-desportivas

As regras do jogo

Como a Fifa se tornou o novo FMI

Marcos de Azambuja
ILUSTRAÇÃO: NEGREIROS_2013

Abajo el Fondo!” A mensagem que vi rabiscada na parede de um banheiro público de Buenos Aires, nos idos de 1970, era compreendida por todos os usuários e só podia ter um destinatário. O Fundo alvo daquela ira era o Fundo Monetário Internacional – filho das históricas negociações de Bretton Woods, sediado em Washington e capitaneado, desde a sua criação, por uma sucessão de europeus então ditos “ocidentais”, como era costume nos tempos da Guerra Fria. Tinha como tarefa promover a cooperação monetária global, assegurar a ordem financeira, promover a estabilidade das taxas de câmbio e auxiliar seus membros a enfrentar dificuldades da balança de pagamentos. Finalmente, incumbia ainda ao Fundo estimular o comércio dentro de regras de aceitação mais ou menos geral. Essa declaração de missão era altissonante e virtuosa; a realidade, bem mais modesta e qualificada.

Seu irmão gêmeo era o Banco Mundial, também com sede em Washington, chefiado, desde então, por uma outra linha dinástica: a de eminentes financistas, banqueiros e homens públicos norte-americanos. Como primo dessas duas agências fundamentais, veio pouco depois, temporão, o GATT – hoje transformado na Organização Mundial do Comércio (OMC) e aberto, faz pouco tempo, a uma chefia que, agora pela segunda vez, não se origina em uma das duas margens do Atlântico Norte. Isso permitiu que Roberto Azevêdo, do Brasil, conduza hoje os seus destinos.

Antes, ainda no intervalo entre as duas grandes guerras, foi criado na Basileia o Banco de Compensações Internacionais, com o qual se completa o leque das grandes organizações que atuam no campo das finanças mundiais.

As Nações Unidas, elas também, foram o mais abrangente produto da mesma grande fornada que organizou o mundo naquele período de grande redesenho político e econômico das relações internacionais quando terminava a Segunda Guerra Mundial. Embora na ONU o poder resida em uns poucos setores-chave do Secretariado (essencialmente aqueles que decidem para onde vai o dinheiro e quem o controla) e nos cinco países que são membros permanentes e detêm o direito de veto no Conselho de Segurança, que é onde se resolvem as coisas sérias, sobrou do impulso democrático de Woodrow Wilson e da efêmera e malfadada Liga das Nações a paridade do peso dos votos de cada país na Assembleia Geral, sejam eles grandes, médios, pequenos ou minúsculos. Faço essa digressão porque vivemos ainda dentro da moldura do que foi feito no fim da Segunda Guerra Mundial. Mais uma vez, a violência foi a parteira da história e os quase setenta anos de paz desde então não permitiram que se construísse um edifício melhor e mais sólido. Deixo de lado a grande arquitetura diplomática de nosso tempo, hoje desgastada e enferrujada, e peço licença para voltar ao banheiro portenho onde o FMI era vilipendiado.

 

A pichação de banheiros públicos tem uma longa tradição e mesmo uma certa ortodoxia em sua temática – pornográfica ou não. E isso vem desde a Roma antiga, como se pode ver até hoje em Pompeia. Ataques a organizações financeiras internacionais não costumam enfeitar suas paredes. O sexo e sua oferta, gratuita ou remunerada, é o tema quase exclusivo dessa arte mural. A inscrição sobre o Fundo era o reconhecimento de como sua presença e ação eram influentes e incômodas, e atingiam o que havia de mais sensível à vida política de um país.

De alguma forma, a inscrição era uma forma paradoxal de homenagem. O FMI era visto como o instrumento por excelência de intervenção das grandes potências nas confusas e, em geral, mal administradas economias dos países que a ele recorriam em diferentes estágios de descrédito e aflição. Países que foram sendo promovidos, ao longo dos anos, pelo menos verbalmente, da categoria inicial de atrasados para a de subdesenvolvidos, elevados depois à condição de países em desenvolvimento. Agora, finalmente, vemos que uns poucos, inclusive nós, tiveram seu status transposto para a categoria bem mais prestigiosa de países emergentes. A realidade subjacente que separava e separa os pobres dos ricos não mudou tanto ao longo dos anos, mas os rótulos que descrevem os pobres foram ficando, com o tempo, cada vez mais politicamente corretos.

Naqueles idos, o FMI tinha preceitos categóricos e um conjunto de certezas que, no mais das vezes, ignorava circunstâncias e especificidades locais. Seus enviados (“fiscais” seria talvez a designação mais correta) costumavam ser burocratas de hierarquia intermediária, geralmente sem treinamento ou experiência relevante em negociações internacionais e sem maiores credenciais acadêmicas. Ao chegarem aos seus destinos, eram elevados (e isso é especialmente verdade no caso brasileiro), por uma atenção intensa da mídia local, a uma posição de visibilidade e pretendida influência que nunca imaginaram poder ter em suas bases de origem. Eram, muitos deles, ingenuamente arrogantes.

Naquele tempo costumava ser muito menos comum do que hoje desconfiar da sabedoria e da previdência que se imaginava existir nos países ricos. Aceitava-se, com naturalidade, que entre eles e nós havia um hiato que nos fazia, em qualquer controvérsia e de maneira quase que automática, a parte defeituosa ou culpada. Essa percepção foi se alterando com o passar dos anos, à medida que os países industrializados se metiam em sérias trapalhadas e, para sair delas, passaram a transferir boa parte do ônus de suas correções e o preço de seus desacertos para os ombros dos países mais fracos.

 

Ao lembrar os agentes do FMI entre nós naqueles dias, a lente reducionista do tempo me faz recordá-los, essencialmente, como burocratas de comportamento essencialmente discreto e, em alguma medida, homogêneo. Não mostravam traços próprios acentuados e eram, certamente, pouco frondosos e coloridos em sua aparência e em vestuário. Muito diferentes eram os representantes dos grandes bancos credores, alguns dos quais tinham exuberância no gesto e uma evidente autoconfiança na fala. Arquétipo foi Tony Gebauer, venezuelano de origem e nova-iorquino por escolha. Tinha nos charutos e nos suspensórios vistosos a marca registrada de sua autoconfiança e de sua autoestima. Foi, por um tempo, o responsável principal pela gerência da nossa dívida. Acabou condenado pela Justiça.

Os charutos estão, de fato e de direito, banidos dos lugares de trabalho e de convívio. Os suspensórios, enfeitados com símbolos do dólar e da libra esterlina, saíram de moda e não são mais parte do uniforme imaginário dos então donos da verdade e senhores do universo.

 

Foi em 1971 que os Estados Unidos, pressionados por enormes gastos e não menores derrotas no Vietnã, abandonaram a conversibilidade a taxas fixas entre o dólar e o ouro. Poucos anos depois, no contexto do chamado “choque do petróleo”, deu-se a elevação dramática das taxas de juros norte-americanas, levando o Brasil e vários outros países que haviam contraído grandes dívidas em dólares a ingressar num longo ciclo de turbulência e insolvência. As sucessivas crises de pagamento da dívida se estenderam por quase três décadas e deixaram traumatizada mais de uma geração de brasileiros.

O FMI tinha um receituário de aplicação geral. Enganou-se várias vezes não só sobre o remédio a ser empregado, como sobre a dose a ser prescrita. Produziu bons resultados, em alguns casos, menos pelo talento de seus agentes e pela sabedoria de suas receitas do que pelo constrangimento que criava, induzindo os governos monitorados a fazer finalmente e melhor o que deviam ter feito antes, de forma espontânea: adotar políticas sóbrias e sensatas para remediar situações que haviam levado seus países a graus diferentes de ingovernabilidade, quase sempre por causa daquela combinação tóxica, mas demagogicamente irresistível, de populismo, nacionalismo exaltado e desrespeito pelos contratos e compromissos assumidos.

Fui ao Palácio do Planalto em um fim de tarde – já muito distante – para tratar de algum assunto urgente durante a presença de uma das missões de fiscalização do FMI entre nós. Encontrei, instalada em uma sala cuja localização e dimensões indicavam o prestígio que atribuíamos ao ocupante circunstancial, uma representante do Fundo. Operando na própria sede do nosso governo, monitorava dali o que fazíamos. A imagem dessa situação humilhante não é fácil de esquecer.

O FMI, não é preciso dizer, não tem mais o poder que tinha. E a relação do Brasil com ele sofreu uma decisiva modificação. Passamos da condição de país devedor à de credor. Ampliamos nossas contribuições, temos maior peso e qualquer revisão futura de normas e práticas deverá levar em conta as nossas expectativas, ao lado de um punhado de outros grandes países que estão mudando a repartição do poder mundial.

Não encontrei em safras recentes, em muros e paredes brasileiros, palavras de repúdio ao FMI. Para nós, o Fundo simplesmente importa menos. Sofre ainda as ondas de choque causadas pelo afastamento de seu diretor-geral, Dominique Strauss-Kahn, em circunstâncias vexatórias, e procura agora recuperar o prumo e a credibilidade com a administração de Christine Lagarde.

Teve papel pouco significativo em toda a crise financeira que começou em 2007. Os recursos exigidos para enfrentar os problemas estavam muito acima do seu caixa; suas antigas receitas, testadas nas crises dos países periféricos, encontraram pouco espaço no encaminhamento de uma questão que se originou quase exclusivamente no mundo industrializado de onde nos vinham antes tantos conselhos. O G-20, de invenção muito mais recente, teve que ser chamado e, mais uma vez, foram os Estados Unidos que demonstraram sua posição dominante no cenário financeiro mundial.

Talvez na parede de algum banheiro público grego, espanhol ou português – suas vítimas de hoje –, o FMI seja ainda alvo de uma indignada rejeição. Sua receita de austeridade, formulada com algum simplismo, continua a ser, em muitos casos, inadequada como panaceia e cruel nas doses recomendadas.

 

Na recente e explosiva mobilização da opinião pública brasileira e no extenso e veemente cahier de doléances [lista de reclamações] de nossas insatisfações, o FMI não mais aparece como vilão. Agora, como expressão de um novo poder, ainda menos legítimo e transparente, vamos encontrar a Fifa – Federação Internacional de Futebol, presunçosa e intrometida, transformada em grande estrela no cenário mundial, com direito até a bandeira e hino, coisa que o FMI, mesmo em seus momentos mais afoitos, nunca pretendeu ter. Não ouvi falar ainda de nenhum banheiro nosso pichado com palavras de repúdio à entidade que controla o futebol mundial, mas não duvido nada que esses registros já existam.

Vi nas imagens das muitas manifestações não um, mas muitos cartazes que identificam na Fifa um provedor de circos caros e seletivos, que desvirtua a sabedoria do Conselho de Roma, segundo a qual ao povo devia ser oferecido pão e circo.

Um desses cartazes de protesto simplesmente dizia: “Eu não votei na Fifa”; outro, ainda mais agressivo e sintético, dizia apenas: “Fifa da Puta” – o que me pareceu transmitir um sentimento difuso, mas muito presente nesta geração que tem desafiado as prioridades e os critérios governamentais no uso de recursos públicos.

Não é fácil saber com clareza como a Fifa opera e quais são seus rendimentos. Com sua sede em Zurique, uma cidade que cultiva a opacidade, e sem os constrangimentos e obrigações a que outras organizações públicas ou privadas são submetidas, a organização controla hoje o mais universal e popular dos esportes, provavelmente a atividade lícita que gera os maiores lucros e as mais poderosas emoções e paixões em todas as partes do mundo.

Um dos grandes talentos da Suíça, ao longo dos anos, tem sido o de acolher organizações desenhadas para procurar controlar, em escala mundial, importantes atividades ou procedimentos. Em uma ponta do espectro estão entidades de manifesto valor humanitário, como o Comitê Internacional da Cruz Vermelha e o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados. Na outra ponta, estariam o Fórum Econômico Mundial, de Davos, a Organização Internacional para Padronização (ISO), em Genebra e em Zurique, e aquilo que aqui nos interessa, a Fifa, que se destaca entre outras poderosas máquinas de ganhar dinheiro.

Valendo-se de uma cultura e de uma tradição que protege o sigilo e resiste a disclosures – vale dizer a “revelações embaraçosas” –, a Suíça oferece um hábitat ideal para aquelas atividades que preferem a discrição e a sombra. O objetivo de muitos que ali operam não é fazer alguma coisa melhor do que outros fariam ou com uma melhor relação de custo–benefício, mas, antes, oferecer serviços discretos e confiáveis, sujeitos ao menor número possível de indagações embaraçosas.

Na coluna dos valores positivos, a Suíça tem coisas a oferecer: uma centralidade geográfica quase que ideal na Europa; a beleza de sua paisagem; a segurança e o conforto de suas cidades; o discreto, mas implacável, controle pelas autoridades policiais sobre quaisquer atividades que possam representar alguma medida de risco ou desordem.

Qualquer país que pretenda receber uma Copa do Mundo tem hoje, cabe reconhecer, uma mão negociadora fraca. A posição de poder da Fifa é tal que ela não se sente obrigada a ceder ou até mesmo a mostrar flexibilidade. Não faltam candidatos para sediar os eventos máximos do futebol mundial. Já estão escolhidos a Rússia para a Copa de 2018 e o Catar para a de 2022. Não foram poucos nem frágeis, em ambos os casos, os candidatos derrotados ou desencorajados a competir. Como todo império em fase de afirmação, a Fifa se expande. Controla hoje as Copas do Mundo de Futebol, masculina e feminina, a Copa das Confederações, a de Futebol de Areia, a Copa do Mundo de Futsal, os campeonatos Sub-20 e Sub-17 dos dois sexos, a Copa do Mundo de Clubes. Faz tudo isso apoiada sobre uma estrutura de poder de dirigentes (“cartolas” seria a palavra datada que melhor os descreve) em boa parte navegando acima dos 70 anos, que mostram uma surpreendente disposição de se perenizar por meio de sucessivas reeleições.

Quem controla uma Copa do Mundo controla – é desnecessário dizer – todas as etapas seletivas que precedem o evento maior. Resumindo: tanto no plano horizontal quanto vertical a Fifa é hoje, em todos os sentidos, a dona da bola.

Também como acontece com os grandes impérios, a Fifa soube se cercar de patrocinadores que são poderosos aliados. Em algum momento, porém, e talvez próximo, a expansão do poder da Fifa e sua apropriação crescente do controle do futebol tenderão a ser desafiadas por alguma estrutura rival ávida de partilhar os lucros e o monopólio. Os escândalos e as denúncias envolvendo a entidade deverão se acumular, tanto em termos corporativos quanto pessoais, de maneira irresistível. Acredito que, em algum momento, a cúpula da Fifa irá receber um previsível cartão vermelho.

Antes que isso aconteça – a julgar pela lição do passado tantas vezes repetida –, será talvez a própria Fifa que perderá a ideia de seus limites. Disso deu sinal seu presidente, Joseph Blatter, na partida inaugural da Copa das Confederações, em Brasília, quando repreendeu em portunhol o público, pedindo que tivesse respeito e mostrasse fairplay com a presidente Dilma Rousseff. A vaia, que até aquele momento era apenas convencional, tornou-se então uma vaia verdadeiramente digna do nome. Nossa presidente mostrou juízo e sangue-frio. Dispensou a não solicitada mediação helvética e preferiu abreviar o procedimento com uma só frase, pela qual apenas declarava aberto o torneio, ponto final. Escaldada como deve estar, é pouco provável que voltemos a vê-la (ou ouvi-la) em qualquer estádio, até o fim de seu mandato.

 

Dizia Nelson Rodrigues que no velho Maracanã até minuto de silêncio era vaiado. Não imagino que isso tenha mudado com as reformas. As exortações da Fifa só terão efeito de reforçar um comportamento que, também desde a Antiguidade clássica, faz dos estádios um lugar que os políticos devem usar com extrema moderação e, se possível, de forma não conspícua e silenciosa.

Não estou seguramente informado sobre os custos adicionais, legítimos ou não, que o Estado brasileiro assumiu na construção ou modernização dos doze estádios em que se jogará a Copa de 2014. Esse torneio, disputado nas duas últimas copas em nove locais, será agora, por impulso nosso, ampliado para que seja jogado em doze cidades diferentes. Com isso foram atendidas, suponho, as pressões de governadores, prefeitos e os interesses de construtores e empreiteiros.

É fácil entender, em um país do nosso tamanho, os motivos que levam a essa expansão de sedes e de custos, mas é também fácil entender como essas ambições federativas, regionalistas ou apenas empresariais inflacionaram brutalmente os gastos e tornaram muito mais complexa a logística do evento.

Para pouca sorte dos que conseguiram que a disputa viesse até nós, a etapa final de preparação para o grande evento parece ocorrer em um momento em que no Brasil está acontecendo uma mudança verdadeiramente tectônica. O futebol continua a provocar entre nós o interesse e a adesão entusiasmada de sempre, mas os seus resultados não parecem mais se projetar para além do próprio universo do jogo. As expectativas e emoções ficam como que encapsuladas no terreno da própria disputa esportiva. Minha impressão é que futebol e política tenderão a estar no Brasil, a partir de agora, desacoplados. Isso, suponho, será bom para o futebol e bom para a política.

Assistimos, na Copa das Confederações, a um novo fenômeno. O Brasil comemorava dentro dos estádios a qualidade e o conforto das instalações, o jogo bonito e, sobretudo, as nossas vitórias. Mas, do lado de fora, uma nova agenda era proposta e defendida. Valores de uma sociedade comprometida com o combate contra a corrupção, com escolas e hospitais de qualidade – no “padrão Fifa”, como se viu nos cartazes nas ruas – não foram afetados pelo entusiasmo das arquibancadas. Em outras palavras: o futebol continua a nos divertir e empolgar, embora não baste mais para definir uma sociedade hoje bem mais complexa, mais do que nunca com aspirações de outra natureza.

Num momento em que o crescimento acelerado da nossa economia parecia assegurado, fizemos um intenso lobby para atrair a Copa, os Jogos Olímpicos e um punhado de outros grandes eventos. É lícito supor que os governantes tenham se fiado na convicção de que uma opinião pública entretida nos campos de jogo iria desviar os olhos de todo um processo caro, quando não irregular, utilizado para a montagem desses megaeventos.

Hesito em criticar o que foi feito apenas como expressão de uma vocação para o gigantismo irresponsável. Quase toda obra que vi ser feita no Brasil sofreu no começo a acusação de ser superdimensionada e mesmo desnecessária. Vi depois, como em poucos anos, o que parecia desmesurado ficar pequeno para atender a uma demanda que, entre nós, não para de crescer. Sei, também, como é difícil hierarquizar a importância do lazer nos gastos públicos e como não é fácil inscrevê-lo em qualquer coluna de prioridades.

O sambódromo do Rio talvez seja o exemplo mais eloquente disso. É utilizado apenas algumas poucas noites por ano para o fim a que se destinou quando criado. Entretanto, sua construção inventou uma demanda, criou uma imagem, levou outras cidades a imitarem o modelo – e hoje seria uma heresia e até um disparate demoli-lo. Um velho e austero senador romano no seu tempo teria dito, provavelmente, coisas terríveis sobre os gastos e a inutilidade do Coliseu. E ele, glorioso, continua lá. Mesmo as pirâmides (digam os egípcios e os mexicanos de hoje) não foram, afinal, uma tão má ideia.

 

Não vejo como, a esta altura, procurar reverter decisões e procedimentos. Nem como voltar atrás de compromissos formalmente assumidos. Estamos embarcados em um calendário exigente, que impede que se possa pensar em não receber o papa, driblar a Fifa ou fugir do Comitê Olímpico Internacional. Ainda acho que seja possível, no entanto, criar um pequeno grupo de assessoria do ministro do Esporte. Ganharia ele e ganharíamos todos nós se um grupo de provados negociadores com experiência nas transações financeiras e em políticas internacionais estivesse disponível para trazer a ele – mesmo que informalmente – o benefício de seu conselho e de sua experiência.

Fui um dos mais de 150 mil espectadores do fiasco de 1950 no Maracanã. Tinha 15 anos e serei hoje, imagino, um entre alguns poucos milhares de sobreviventes. Nunca participei de uma procissão mais triste do que aquela em que estávamos todos embarcados ao descer as rampas depois da derrota. Desde então vi o Brasil ser campeão cinco vezes. Pessoalmente, estou consolado e vingado, mas não saciado. Uma nova vitória, desta vez em casa e no mesmo lugar, provocaria em mim um prazer inefável.

Reconheço o que a Fifa tem feito para trazer aos estádios pontualidade, conforto e uniformização de práticas e procedimentos. Gostaria que ficassem nisso e que sua autoridade não fosse além de definir a duração de cada hino nacional. Estaria mesmo disposto a aceitar, com algum pesar, que os hinos fossem abandonados (o da Fifa deveria ser o primeiro), como desapareceram as bandas militares que antes os executavam nos estádios.

De tudo o que aconteceu até agora, o que me lavou a alma foi aquele momento triunfal do espírito libertário que vivemos ao ver o nosso hino, depois de esgotado o tempo rigoroso que lhe foi concedido, continuar a ser cantado, como se dizia antigamente, “no gogó” (expressão que parece mais eloquente e apropriada do que a erudita “a capela”), e que, ao fazê-lo, mostrássemos os limites que estamos dispostos a aceitar em nome da organização. Há mesmo um milagroso ganho colateral: que a Fifa nos esteja ajudando a aprender de cor a letra do hino nacional.

Além de um certo ponto, mesmo para a Fifa é temerário esquecer que os estádios são lugares de liberdade onde presidentes são vaiados e o hino é cantado com emocionante fervor. Inventamos um futebol jogado com imensa alegria e criatividade. Não vamos nos afastar desse caminho. Não somos no final das contas a Suíça, onde, como se costumava dizer, tudo o que não era proibido era obrigatório.

Marcos de Azambuja

Diplomata, foi secretário-geral do Itamaraty e embaixador do Brasil em Buenos Aires e Paris. É coautor de História da Paz, da Contexto

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