esquina

Aspectos da praia de Copacabana

Zona cinzenta da lei estimula mercado negro de derrières

Pedro Schprejer
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2010

“O cartão fica escondido, mas é só pedir com jeito que o colega pega o das bundas.” O rapaz, um jornaleiro de Ipanema, cochicha e olha para os lados. É cauteloso como um espião inglês que, em tempos mais heróicos, se esgueirasse por Berlim com segredos de submarinos soviéticos no forro do sobretudo. Ele prefere não se identificar ao dar a dica sobre um novo mercado negro na Zona Sul. Em plena luz do dia, turistas e nativos concupiscentes estariam consumindo fotografias nada cristãs de quatro senhoritas em biquínis sumaríssimos, desses cuja quantidade de pano não dá para tecer a luva de um duende mirradinho.

As fotos estão estampadas em três cartões-postais que celebram as virtudes calipígias da mulher carioca. Foram tiradas na Praia de Copacabana pelo fotógrafo Fábio Vidigal, de 58 anos, um dos mais experientes do ramo. (Sim, existe um ramo.) Na ocasião, há uns cinco anos, o diligente Vidigal contratou um motorista de van, um segurança e um produtor de elenco, o qual compareceu com as moçoilas. Duas loiras e duas morenas, as quatro de ótima cepa. O figurino consistia nas peças supramencionadas, cedidas por uma grife local. Presume-se que as quatro fossem belas, mas dificilmente saberemos. Só por trás não dá para ter certeza. Vidigal não revela rostos, só derrières e adjacências.

Numa primeira imagem, as quatro desfilam seus abundantes atributos pelo calçadão. Numa segunda, sempre de costas, erguem os braços, gesto a princípio meio gratuito, não fosse o benefício de tensionar músculos e delinear silhuetas. Se o admirador esticar um pouco o pescoço, até verá a praia ao fundo. No último postal, as donzelas se bronzeiam de bruços, fios dentais à vista, apoiadas sobre cangas estendidas na areia.

Vidigal ofereceu o trabalho a um velho conhecido, o fotógrafo e empresário Aldo Colombo, dono da editora de mesmo nome. É a mais tradicional do ramo dos postais, bem servindo à clientela desde 1918. As fotos ilustraram os cartões Sol, Mar e Alegria, Praia de Copacabana e Aspectos da Praia de Copacabana, este de título mais erudito.



Diante da penca de admiradores internacionais, as modelos sem rosto são provavelmente as mais ilustres anônimas cariocas. Muitos homens já perderam a cabeça por causa dos Aspectos. Um deles, apaixonadíssimo, chegou a implorar o telefone “da loira de biquíni azul”. Vidigal não deu. O trabalho é sério e, além do mais, as meninas não estão de costas à toa. Afora a questão da privacidade, existem razões jurídicas e estéticas para tanto. Vidigal explica: “Do ponto de vista legal, é importante para, no futuro, evitar processos ou cobranças de direitos de imagem. Do ponto de vista estético, o pessoal gosta de ver o derrière mesmo.”

O que causa espanto ao carioca de alguma memória é a atual escassez de postais como o das quatro moças. Até ontem, bastava andar 100 metros num bairro frequentado por turistas para dar de cara com uma vasta oferta de bumbuns fotogênicos. Hoje as fotos de Vidigal são os únicos exemplares em circulação, e já não é tão fácil encontrá-las.

A reviravolta teve início em 2005, ano em que a governadora Rosinha Garotinho sancionou a lei 2813, de autoria da deputada Alice Tamborindeguy. O projeto proibia a comercialização de “fotos de mulheres em trajes sumários, que não mantenham relação ou não estejam inseridas na imagem original dos cartões-postais de pontos turísticos”. Em bom português: dali em diante, nádegas em postal, só as inseridas no contexto, como se diz nas melhores rodas. Isto é, na praia e, com boa vontade, no Carnaval.

A medida gerou apreensão nas seis empresas de cartão-postal em atividade na cidade. Sob pena de multa, diminuiu a circulação de traseiros descontextualizados. A boa intenção da lei era combater a propaganda do turismo sexual. A redação, entretanto, criava zonas muito enevoadas, sujeitas a grandes latitudes de interpretação. O que seria exatamente “manter relação com a imagem original”? Tamborindeguy explicou a Veja: “Close de bumbum com um pouquinho só de areia não pode. Quem garante que aquela areia é mesmo de Copacabana?”

Em maio de 2009, o governador Sergio Cabral sancionou uma versão atualizada da 2813 e exigiu fiscalização nos pontos-de-venda. Pouco depois, as musas de Copacabana desapareceram da paisagem, confiscadas pela Polícia Civil. Depreende-se que não se inseriam na paisagem. Ou talvez sim. Ao cabo de inúmeras trocas de ideia, as autoridades concluíram pela legalidade dos quadris. Afinal, todas elas estavam, apropriadamente, na praia. Era o mesmo raciocínio de Vidigal: “Lógico que fotografar mulher de biquíni no Cristo seria pura sacanagem. Mas na praia, qual o problema?”

Com a decisão, alguns jornaleiros mais audazes, ou mais versados na interpretação das leis, voltaram a exibir as fotos. Outros, temendo a mão forte da Justiça, preferem mantê-las como mercadoria escusa. Muitos não sabem até hoje se elas estão ou não estão proibidas.

 

Rodolpho Machado tem 76 anos e é o decano dos cartões-postais do Rio. Sabe tudo da atividade, na qual trabalha há mais de 40 anos. Após décadas como fotógrafo de jornais como Última Hora e O Globo, fundou em 2000 a Rodolpho Machado Fotografia, que já imortalizou o Rio de Janeiro em 337 postais. Ele acha que transformar mulheres seminuas em chamariz turístico é coisa de péssimo gosto. Além do mais, Machado tem um olho para o futuro, para a permanência. O Cristo, seu modelo preferido, jamais envelhecerá. O mesmo não se pode dizer das moças na praia. “Muitas dessas modelos que estão nos cartões já são bisavós. Veja pelos biquínis e penteados delas”, diz, com razão.

Seja como for, é provável que as quatro modelos acabem sucumbindo não aos mandos da lei, mas aos avanços da tecnologia. O jornaleiro Michael dos Santos é cético quanto ao futuro do negócio de Vidigal: “A câmera digital e o celular estão matando os postais. Quem vai entrar numa banca perguntando baixinho por fotos de bunda, se pode ir à praia e fotografar 100 bundas num instante?” Deve ser verdade, pois, há mais de um ano na profissão, Michael garante nunca ter visto um só postal das quatro princesinhas de Copacabana.

Pedro Schprejer

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