despedida

Até tu, Itaipulândia?

Não há utopia que agüente um prefeito assassinado e três governos num mês

Marcos Sá Corrêa

Terra dos superlativos, a cidade de Itaipulândia, no Paraná, teve três prefeitos no mês passado. Vendelino Royer, o titular, encerrou seu mandato no dia 8, com meio ano de antecedência sobre o calendário sucessório e quatro tiros à queima-roupa. Laudair Bruch, o vice, tomou posse no dia seguinte e foi preso no dia 17, quando o acusaram de mandante do crime e o prenderam. Gilberto Artur Silvestre, o presidente da Câmara Municipal, assumiu no dia 21 — a portas fechadas, depois que a polícia militar esvaziou o plenário, tomado por manifestantes contra a posse.

A crise aproximou Itaipulândia de Magé, no Rio de Janeiro, onde a estréia na vida pública do candidato Ney da Núbia, que na vida privada era o namorado da prefeita, foi cortada pela raiz, na mesma época, em uma réplica quase perfeita da morte por encomenda de Vendelino Royer.

Só que em Magé o assassinato de políticos faz parte, digamos, dos costumes locais. O município perdeu nove candidatos na eleição de 2004, descontando os sete políticos que escaparam de atentados durante a campanha. A cidade fica na Baixada Fluminense, a 1 500 quilômetros de Itaipulândia, no extremo oeste do Paraná. E, medida em bem-estar coletivo, a distância entre elas sempre foi maior que a da escala rodoviária.

Em Itaipulândia, Royer circulava sem guarda-costas, deixava os filhos saírem sozinhos à noite e dormia de janelas abertas no verão. Até a noite da emboscada, as notícias sobre segurança pública vinham das bordas do lago artificial de Itaipu, onde a fronteira se liquefaz e o contrabando, vindo do Paraguai, privatiza as praias mais reclusas, escondendo cargas no biombo das matas ciliares.



Na última noite de seu mandato e de sua vida, o prefeito saía de uma reunião com moradores do Caramuru, bairro rural, a 2 quilômetros do centro, que ostenta o maior símbolo da opulência municipal: a estátua de sua padroeira, Nossa Senhora Aparecida. É um cone de concreto armado, com 26 metros de altura, erguido no ponto culminante de Itaipulândia. Tem manto de ladrilhos coloridos, para brilhar de dia, e iluminação noturna, para guiar viajantes como um farol.

O pistoleiro que matou o prefeito Royer foi contratado nas redondezas por 30 mil reais, 20 mil a menos que o proposto por um profissional do ramo em Foz do Iguaçu. Ele inaugurou em Itaipulândia a era do serviço porco por restrição orçamentária: deixou rastros para todo lado, que levaram sete pessoas à prisão em pouco mais de uma semana e viraram pelo avesso a vida da pacata cidade de 8 mil moradores, onde não há favela, mendigo ou menino de rua.

 

Itaipulândia sempre foi o tipo de lugar onde essas coisas não poderiam acontecer. Ali, nada se pode debitar aos problemas mais característicos da sociedade brasileira. As escolas públicas funcionam com ar-condicionado e internet de banda larga. O uniforme, o material escolar, a merenda e até a mochila saem por conta da Secretaria de Educação. Os ônibus buscam e levam de graça os alunos, de porta em porta, inclusive no campo.

Há cursos gratuitos de inglês, francês, espanhol, pintura, canto, violino, violão, ginástica e até de artes marciais. Qualquer estudante pode fazer universidade onde quiser, com crédito subsidiado a pagar em quatro anos sem juros, com seis meses de carência depois de tirar o diploma.

As estradas rurais têm asfalto impecável ou, na pior das hipóteses, calçamento de pedra. A avenidas centrais contam com fiação subterrânea, calçadas com piso tátil para cegos e rampas no meio-fio para cadeiras de roda. Todas as casas dispõem de água encanada, luz elétrica e coleta de lixo. Cem por cento do esgoto é tratado. E o lixo, em geral, se recicla.

No campo, a terra está dividida entre 400 e poucas famílias de sitiantes. A prefeitura fornece adubo, calcário para correção do solo, sementes, matrizes e assistência veterinária. Para todos os moradores, ter filhos é um investimento feito em parceria com o erário municipal, do teste de gravidez ao enxoval do bebê.

Itaipulândia foi criada há dezesseis anos para mostrar como se poderia viver bem no interior do Brasil, sob um regime de largueza orçamentária. Ela descende de Itacorá, vila que, em 1982, a barragem de Itaipu engoliu. Quando as turbinas foram ligadas, a hidrelétrica começou a pagar os royalties pela inundação, foi só fazer as contas do prejuízo fundiário para ver que, emancipando-se, a cidade seria rica. Desde 1992, o município recebe de Itaipu indenizações equivalentes a 800 mil dólares por mês.

É a maior mesada per capita do Brasil. E foi quase o dobro, há cinco anos, quando os dólares de Itaipu, convertidos em moeda nacional, valiam 2,4 milhões de reais. Nos tempos gordos de câmbio magro, seus prefeitos fizeram extravagâncias como construir um parque aquático de 15 milhões de reais ou pendurar em seus cabides de emprego um terço da população.

 

Vendelino Royer, um ex-seminarista que ensinava matemática numa escola municipal, pegou o fim da festa cambial, quando o dinheiro de Itaipulândia ainda dava com folga para quase tudo — menos para desperdiçar. Tornou-se impopular. Era chamado de Feinho, um tributo aos olhos azuis que pareciam não caber no rosto estreito. Tirou logo da cabeça qualquer projeto de se reeleger. Falava em voltar a ser professor.

Dois anos atrás, Royer apareceu na gravação de uma conversa entre prostitutas. Ele entregou o caso à polícia e dois empresários locais foram parar na cadeia, por tentativa de chantagem. Passou a receber ameaças de morte por telefone. Pouco antes de morrer, atingido por quatro balas calibre 9 milímetros, três no peito e uma perna, encarou na Câmara de Vereadores uma denúncia contra seu secretário de Administração, filmado enquanto contava maços de dinheiro vivo.

Foi baleado e encontrado ao lado do carro oficial. Não teve tempo de chegar ao hospital que, com 28 leitos e quatro gabinetes dentários, era um dos trunfos dos serviços públicos do município.

O que seria de cidades como Magé se o modelo de Itaipulândia pudesse ser generalizado pelo Brasil afora? O assassinato do prefeito Royer fornece uma resposta: poderia continuar sendo mais ou menos a mesma coisa.

Marcos Sá Corrêa

Marcos Sá Corrêa é jornalista. Foi editor de piauí entre 2006 e 2011.

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