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Atire para não matar

Homem-Aranha, Gambá e Mike Tyson são alistados pela polícia

Consuelo Dieguez

Um homem de farda preta, capacete, máscara e protetor de ouvido caminha a passos rápidos até o centro de um terreno rodeado de morros. Encaixa um lançador de granadas na ponta do fuzil e dispara. O barulho é ensurdecedor. Uma densa nuvem de fumaça se forma, encobrindo a paisagem. Envolto na névoa, o atirador aponta para um barraco de madeira e dispara novamente. Outra explosão. O casebre é engolido pela fumaceira. Um segundo homem entra em ação: na cobertura do primeiro, mira uma silhueta humana e alveja. Ouvem-se mais disparos. A fumaça cada vez mais espessa, aliada ao odor nauseabundo liberado por ela, queima os olhos e embrulha o estômago. Terminada a ação, os atiradores baixam as máscaras e olham em volta: não há qualquer indício da conflagração. O barraco continua intacto. A silhueta – recortada em fino metal – não apresenta sinais de perfuração. Os rolos de fumaça se dissipam e revelam um jardim imaculado, cercado por árvores floridas.

A cena se repete diariamente no campo de provas da única fábrica de armas não-letais do Brasil – a Condor Indústria Química -, que há 28 anos funciona num bairro afastado de Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, a 30 quilômetros de Copacabana. Exibições como aquela acontecem para convencer os potenciais clientes da empresa de que o bom combate nem sempre precisa se travar à força de bala. "Não se trata de substituir as armas de fogo, mas de dar ao policial uma alternativa que corresponda às circunstâncias do ataque. Nem toda ação precisa ser respondida com fuzil", diz Antônio Carlos Magalhães, um dos diretores da Condor. "Muitas mortes podem ser evitadas."

Magalhães se aproxima de uma mesa de madeira comprida, instalada num galpão próximo ao campo de provas. Sobre ela há uma enorme quantidade de artefatos que, à primeira vista, lembram brinquedos: são tubos de spray de pimenta, granadas sonoras de plástico colorido (não têm pólvora, mas fazem um tremendo barulho e expelem fumaça), balas de borracha, pistolas que disparam dardos elétricos. Alguns têm até nome de brinquedo, como o Homem-Aranha, um lançador de redes para capturar pessoas, ou o Escorpião, uma fina esteira cravejada de ganchos, muito útil para furar pneu de veículos que tentam escapar de blitz. A granada Gambá solta um cheiro tão repulsivo, que é capaz de conter as piores rebeliões. Mas a grande atração da Condor é o Mike Tyson, um lançador de munição não-letal que dispara, com precisão, balas de borracha com marcadores de tinta a uma distância de até 50 metros, causando o impacto de um soco de 300 quilos. Graças ao Tyson, já tem bandido paulista e paraibano indo a nocaute.

O objetivo do arsenal é acuar, intimidar e imobilizar, sem matar ou ferir gravemente. Um dos entusiastas das armas não-letais é Astério Pereira dos Santos, ex-titular da Secretaria de Administração Penitenciária do Rio de Janeiro, atual coordenador de Inteligência e Segurança do Ministério Público do estado. Segundo afirmou numa entrevista recente, a partir de 2003, quando o Grupamento de Intervenções Táticas passou a usar esse tipo de armamento, o número de rebeliões nos presídios do Rio de Janeiro caiu drasticamente. Em 2002 foram 27 rebeliões; em 2003, quatro; em 2006, apenas uma. A possibilidade de abafar uma rebelião sem disparar um só tiro facilita a ação da polícia. Para conter o avanço dos presos, por exemplo, apela-se a um gel deslizante: vai todo mundo para o chão. Se o tombo coletivo não abater os ânimos, há sempre a granada Gambá. A garantia é do fabricante: "Não tem quem consiga suportar o fedor", diz Antônio Carlos Magalhães.



"A guerra é a doutrina do engodo", ensina o decantado manual chinês A Arte da Guerra, de Sun Tzu. Os entusiastas das armas não-letais concordam. O arsenal da Condor serve para confundir o adversário, intimidando-o não com a iminência da morte, mas com a desmoralização do mau cheiro ou de um escorregão patético. É uma estratégia que pode ajudar a reduzir o número de mortes nos conflitos urbanos graves, como ações de combate ao tráfico em favelas. "Em vez de entrar atirando, os policiais podem primeiro tentar acuar e desorientar os bandidos", afirma Pedro Luiz Schneider, assessor de inovação tecnológica da Condor.

Antônio Carlos Magalhães recorre à passagem bíblica das muralhas de Jericó para exaltar as armas não-letais: "Os judeus conseguiram derrubar as muralhas da cidade só com o som das trombetas." A Condor vende seus equipamentos para o Exército e as polícias brasileiras e os exporta para países da América Latina, da África e do Oriente Médio. Agora se prepara para entrar agressivamente no mercado europeu. Para isso, comprou uma fábrica na França e planeja espalhar sua linha de produtos por todo o país. Se depender do furor combativo de Magalhães, os subúrbios parisienses que se cuidem: "Há muita muralha de Jericó para derrubar", ele diz.

Consuelo Dieguez

Repórter da piauí desde 2007, é autora da coletânea de perfis Bilhões e Lágrimas, da Companhia das Letras

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