pódio olímpico

Atletas, dopai-vos!

Numa sociedade em que milhões e milhões de pessoas tomam montes de pílulas para melhorar o desempenho, a fronteira entre o que é e o que não é doping começa a se embaralhar

Dorrit Harazim
Personagem criado em 1929 por E. C. Segar, o simpático marinheiro Popeye esbanja testosterona comendo espinafre. Seu feito maior era defende Olivia Palito. Hoje, prêmio maior é o pódio olímpico
Personagem criado em 1929 por E. C. Segar, o simpático marinheiro Popeye esbanja testosterona comendo espinafre. Seu feito maior era defende Olivia Palito. Hoje, prêmio maior é o pódio olímpico © 2008 KING FEATURES SYNDICATE, INS. TM HEARTS HOLDINGS, INC.

As ratazanas do doping esportivo estão sempre à espreita de algo novo para sua clientela voraz. Elas farejam como ninguém onde se fazem pesquisas de ponta voltadas para ampliar as fronteiras do desempenho físico. Não importa que os experimentos sejam embrionários, futuristas ou mesmo virtuais. Nesse sentido, a Agência de Projetos em Pesquisa Avançada do Departamento de Defesa dos Estados Unidos é um maná. É dali que saiu, por exemplo, a idéia de pesquisar a viabilidade de um “soldado metabolicamente dominante”. Ele seria capaz de correr na mesma velocidade do atual campeão mundial dos 100 metros rasos — só que com fôlego para manter o ritmo por quinze minutos, e respirando uma só vez. Outra linha de pesquisa da agência está voltada para uma vacina capaz de bloquear qualquer dor ou inflamação por um período de trinta dias.

Para o Departamento de Defesa americano seria um alento saber que seus soldados no Afeganistão ou no Iraque poderiam combater durante semanas a fio, sem cair prostrados nem precisar repor suas forças. Para os mercadores de doping, a mesma descoberta permitiria vender ao atleta o que ele mais cobiça — a conquista da invencibilidade. Já para o atarantado Comitê Olímpico Internacional, o COI, seria o pesadelo definitivo. “Meço o sucesso dos nossos projetos de pesquisa pelo fato de o COI vetar tudo o que fazemos”, comentou recentemente, com uma ponta de orgulho, um dos 140 cientistas da agência militar.

Quanto mais concretas e avançadas as pesquisas, mais rápido a notícia se espalha e maior é o assédio ao pesquisador. O fisiologista molecular H. Lee Sweeney, da Universidade da Pensilvânia, por exemplo, trabalha há cinco anos na alteração da estrutura genética de camundongos, para dotá-los de uma musculatura de atleta. Apelidados de “camundongos Schwarzenegger”, os roedores, apesar de sedentários, passaram a circular com uma massa muscular entre 15% e 30% acima do normal. Quando, já geneticamente modificados, também foram submetidos a um regime de semanas de exercícios com pesos, suas patas dobraram de tamanho. O objetivo de Sweeney é, num futuro ainda distante, aplicar a descoberta em pacientes com distrofia muscular.

Mas os primeiros e-mails que recebeu vieram de levantadores de peso, fisiculturistas, técnicos e atletas de diversas modalidades. Queriam saber como e quando a nova tecnologia genética estaria disponível para humanos. O treinador de uma equipe de estudantes chegou a sugerir que todo o seu grupo de jovens poderia ficar à disposição do fisiologista, como cobaias — tudo em nome do progresso científico, é claro. Sempre que recebe solicitações semelhantes, Sweeney explica que o experimento está longe de poder ser testado em humanos, e talvez nunca venha a sê-lo, devido a riscos de infecção, rejeição, falência de órgãos ou morte. O interlocutor a tudo escuta, conta o médico, mas ao final pergunta: “Tudo bem, doutor, mas quando podemos começar os testes?”



Nesse cenário, só resta à Agência Mundial Antidopagem, Wada em inglês, correr atrás do prejuízo. No caso, entrou em contato com o cientista e pediu que, paralelamente a seus experimentos, criasse um teste capaz de detectar a ocorrência da mutação genética. Dínamo burocrático que espalha seus esquadrões pelo mundo colhendo urina e sangue de atletas, a Agência — entidade independente responsável pelo código antidopagem que rege o movimento olímpico — admite não conseguir acompanhar a velocidade com que os fraudadores se apropriam das novidades.

A “travessia do Rubicão”, como diz o biologista alemão Werner Franke, ocorreu dois anos atrás, por mero acaso. Um medicamento obscuro da área da genética havia sido desenvolvido em 2002 por um modesto laboratório de Oxford, na Inglaterra, para combater anemia, mas fora engavetado por falta de perspectiva de comercialização. Jamais tinha sido testado em humanos. Durante o julgamento de um técnico, acusado de administrar substâncias proibidas a duas velocistas, o teor de uma mensagem eletrônica que nada tinha a ver com o caso foi lido na corte. A substância tornou-se celebridade instantânea.

“O novo Repoxygen é difícil de conseguir. Favor enviar logo instruções de como encomendar o produto antes do Natal”, pedia a mensagem, para atender a demanda de um time holandês de patinação no gelo. O Repoxygen é uma substância que ativa o gene responsável pela produção natural da eritropoietina no organismo. Mais conhecida pela sua sigla, EPO, a eritropoietina é o hormônio que comanda a produção de glóbulos vermelhos. Quanto maior a produção, maior a quantidade de oxigênio transportada para os músculos e, logo, melhor o rendimento corporal. Em tese, uma vez integrado ao código genético do atleta, o Repoxygen passaria a produzir um fluxo regular, natural e, sobretudo, indetectável do cobiçado hormônio. “Sabíamos que o doping genético era uma questão de tempo, mas não o esperávamos tão cedo”, constatou o alemão Werner Franke.

 

O que ninguém sabe é quando, e sob qual disfarce, o doping genético conseguirá fazer sua estréia olímpica. Esteróides e anabolizantes reinaram sozinhos nas décadas de 70 e 80, mas tornaram-se mais arriscados na medida em que os testes antidopagem se aperfeiçoaram. Quem pode deu então o salto qualitativo em direção a espinafres de geração mais avançada, como a EPO sintética e o hormônio do crescimento (conhecido pela sigla em inglês, HGH), embora produzam resultados de natureza distinta dos esteróides. Em compensação, conseguem driblar melhor a blindagem pretendida pela Agência Antidopagem. Quanto à esfera do doping genético, muitos acreditam que a batalha já esteja perdida por antecipação.

A cada ano olímpico, e 2008 não é exceção, a real extensão do problema permanece uma incógnita. Como de praxe, também durante os XIX Jogos de Pequim os atletas com substâncias proibidas no corpo medirão forças com os xerifes esportivos encarregados de enxotá-los dos pódios. É vital para os organizadores assegurar que a tecnologia dos testes esteja perfeitamente azeitada para flagrar os trapaceiros. Afinal, é disso que depende a credibilidade das competições e onde repousa, em última instância, o valor real (e comercial) do maior espetáculo de entretenimento do planeta.

Atletas de esportes de força e explosão dispostos a se dopar em geral usam esteróides para aumentar a massa muscular, enquanto atletas de esportes que exigem resistência recorrem à EPO. Já o hormônio de crescimento, que fortalece o tecido muscular, mas também aumenta a massa corporal magra, serve a ambos. O fraudador, então, costuma recorrer a um coquetel variado: gotas sublinguais de esteróides, uma injeção de EPO e, para mascarar o doping, um creme que mistura a testosterona com o agente epitestosterona.

A operação de controle de dopagem montada em Pequim é de espectro amplo. Em 17 dias de competição terão sido realizados 4 500 testes, incluindo 900 exames de sangue e outros 800 específicos para detectar sinais de EPO. O crivo é obrigatório para os cinco melhores colocados de cada prova, além de dois outros escolhidos ao acaso, sem contar os testes aleatórios. Todo atleta pode ser selecionado para fazer o teste a qualquer momento, em qualquer local olímpico ou não, antes ou depois de competir. Transportado por guardas armados até uma estação central próxima ao estádio, o material é analisado por 150 cientistas e voluntários da área médica.

Os Jogos de Pequim são os primeiros a efetuar testes em larga escala para o HGH, por meio de anticorpos capazes de diferenciar as variações estruturais entre a substância sintética e o original endógeno. Exames de sangue menos precisos haviam sido realizados em cerca de 300 atletas na olimpíada passada, em Atenas, e, em número menor, nos Jogos de Inverno de 2006, em Turim, na Itália. Mas como todos os resultados foram negativos, ficou evidente que a metodologia precisava ser aperfeiçoada, para ganhar confiabilidade. Até porque os testes só acusavam a presença do hormônio sintético se ele tivesse sido injetado nas 12 ou 24 horas anteriores.

Somente ao final dos Jogos de Pequim se saberá se houve avanços, e de que porte, para detectar o HGH. Na tentativa de torpedear os complexos estratagemas de burla adotados por atletas e técnicos, a entidade antidopagem procura manter sigilo sobre o que o exame pode efetivamente detectar. Apenas admite serem remotas as chances de se desenvolver um teste de urina para detectar o hormônio intruso. É uma má notícia, pois testes de urina são mais baratos, de manuseio mais fácil, menos polêmicos e menos perecíveis do que um exame de sangue antidoping.

Também no cerco ao uso da EPO sintética, detectável somente com exames de sangue, os obstáculos são semelhantes. Com o agravante de que a interpretação correta do resultado pode levar vários dias, o que aumenta o risco de erro laboratorial, interpretações conflitantes e recursos das equipes que se sintam prejudicadas.

Quanto à incógnita da estréia ou não do doping genético, se ele de fato conseguir atravessar a Muralha da China haverá pouco ou nada a fazer. Na opinião de Gary Wadler, professor de medicina da New York University e presidente do Comitê de Métodos e Lista de Proibições da Wada, as perspectivas são estreitas: por ora, a única forma segura de se detectar a transferência de genes sintéticos para células humanas é por meio de biópsia do tecido muscular. Autoridades olímpicas torcem para que o problema só se apresente dentro de quatro anos, nos Jogos de 2012, em Londres.

 

Há vinte anos, o mundo ainda se permitia viver na era da inocência. O esporte olímpico merecia uma admiração quase sem reservas, e se supunha que quem subia ao pódio era movido por uma vontade de aço e dono de um conjunto de valores ímpar. Para receber no peito uma medalha de ouro, só mesmo quem fosse dotado de um desempenho prometéico e cultivasse a disciplina. Essa construção idealizada do esporte, presente no filme Carruagens de Fogo, que ganhou quatro Oscar quando foi lançado, começou a ruir de forma estrondosa às 13h30 de um sábado, 24 de setembro de 1988, na pista de atletismo dos Jogos Olímpicos de Seul, na Coréia do Sul.

O canadense (nascido na Jamaica) Ben Johnson acabara de estraçalhar o recorde mundial dos 100 metros rasos — a prova mais nobre de uma olimpíada. Cruzara a linha de chegada em absurdos 9,79 segundos, deixando eletrizado o público do estádio e atarantados seus adversários. “Ben Johnson, um tesouro nacional”, comemorou à época o principal diário canadense. O alumbramento geral durou menos de 48 horas. À 1h45 da madrugada da segunda-feira seguinte, a delegação do Canadá foi informada, em carta redigida pessoalmente pelo príncipe belga Alexandre de Merode, presidente da comissão médica do Comitê Olímpico Internacional, de que Johnson fora reprovado no teste antidoping; usara esteróide anabólico estanozolol.

Jamais um herói olímpico caiu de tão alto, e dificilmente outro caso de doping conseguirá superar o choque que causou. Embora 43 atletas já tivessem sido desclassificados desde a introdução dos testes, em 1968, Ben Johnson foi o primeiro peixe graúdo a ser pego.

À era da inocência perdida sucedeu a era do cinismo, com local e data de nascimento: Sydney, ano 2000. Foi nos chamados Jogos do Milênio que a americana Marion Jones arrebatou o público e ofuscou as demais estrelas do atletismo internacional. Toda vez que pisou na pista do estádio nacional, conquistou uma medalha. No total foram cinco, sendo três douradas e duas de bronze. Apesar das suspeitas que a cercavam à época, passou saltitante por todos os testes antidoping, voltou para casa coroada e passou os anos seguintes fazendo juras de honestidade esportiva. Foi somente no ano passado, já respondendo a processo por integrar uma rede de doping, que Jones confessou ter competido em Sydney turbinada por esteróides.

Para o Comitê Olímpico Internacional a ferida foi funda. E a dor de cabeça, grande. Além das provas individuais, Marion Jones também tinha competido em dois revezamentos, fazendo com que mais de trinta medalhas olímpicas precisassem ser realocadas e oficialmente inseridas nos anais do olimpismo. A tarefa se revelou mais complexa do que previsto porque nem sempre foi possível simplesmente empurrar a fila um degrau acima: algumas das competidoras que se classificaram logo abaixo de Marion também estavam encrencadas com suspeitas de doping ainda pendentes.

 

Medalhas podem mudar de mãos, mas jamais é possível devolver ao atleta que competiu com lisura o momento único que lhe foi roubado para sempre — o de subir ao pódio ainda tonto de alegria e ser festejado à vista de todos. Isso vale para qualquer competição esportiva. A triatleta e médica fluminense Sandra Soldan, diretora-adjunta da área de antidoping da Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos, lembra até hoje a decepção de chegar em segundo lugar no VII Campeonato Sul-Americano, realizado há seis anos, no Rio de Janeiro. Ela havia perdido para a brasiliense Mariana Ohata por menos de 54 segundos de diferença, e ficou chorando depois da prova até a hora de subir ao pódio para pegar a prata. “Me ligaram um mês depois para saber se poderiam me entregar a medalha de ouro, já que os testes antidoping feitos na vencedora acusaram a presença de um derivado de anfetamina”, contou semanas atrás. “Respondi que eles podiam jogar a medalha no lixo, pois eu queria ter recebido o ouro na hora.” Mariana Ohata, suspensa por 60 dias na época do Sul-Americano, hoje integra a delegação de 277 atletas do Brasil nos Jogos de Pequim.

Por mais complexa que seja a questão do doping, seu combate pelo menos se trava por meio de ferramentas científicas e tecnológicas palpáveis. Já a teia de suspeição que passou a enredar competições esportivas, imaterial e escorregadia, tem um poder demolidor insidioso. A suspeita pode brotar do nada, diante de um desempenho atlético extraordinário ou da ocorrência de algum fato inesperado.

A musculatura da perna do velocista americano Tyson Gray estalou como folha seca na seletiva de seu país realizada em julho? Imediatamente surgiram referências ao esforço adicional que determinadas drogas impõem a músculos e tendões. O recente embate final do torneio de tênis de Wimbledon, com dois colossos do tênis em quadra durante cinco horas, foi épico? Como explicar então que, ao final, tanto o vencedor, o espanhol Rafael Nadal, de musculatura taurina, quanto o suíço Roger Federer parecessem ter voltado de um passeio campestre? Bastou que o lendário tricampeão dos anos 80, John McEnroe, comentasse na televisão que os dois jogadores mantiveram a mesma aparência do início ao fim, e as ilações pipocaram. “Eu bem que gostaria de acreditar”, escreveu o respeitado cronista esportivo americano Kurt Streeter, do Los Angeles Times, sobre a perda da fé na lisura esportiva.

Tantos foram os ídolos do esporte que juraram inocência e acabaram se revelando mais poluídos do que a baía de Guanabara, que um dia ainda seremos informados de que Mary Poppins sabia voar porque tomava anabolizantes.

Andrei Markovits, professor de política comparativa da Universidade de Michigan, expressou-se com arroubo sobre o tema. “Me horroriza este ambiente inquisitorial à la Torquemada que cerca a questão do doping hoje em dia”, declarou. “Podemos tomar Viagra, antidepressivos, essa pílula, aquela outra — tudo o que se quiser. Só os atletas não podem. E por quê? Devido ao ultrapassado ideal de amadorismo e virtude no esporte — conceitos desenvolvidos pela classe dominante inglesa de Oxford e Cambridge, no século XIX.”

No entender do professor, todo atleta adulto, sadio e maduro deveria ter acesso a substâncias que lhe permitam treinar mais, para obter um desempenho melhor. Como condição única, ele estaria proibido de se automedicar ou se abastecer com os mercadores do submundo do doping. Tudo seria feito sob orientação médica responsável, portanto. Atletas jovens continuariam excluídos desse cenário libertário, por merecerem análise mais aprofundada e cautelosa.

O bicampeão olímpico de esqui alpino, Bode Miller, primeiro americano em 22 anos a vencer uma Copa do Mundo da modalidade, em 2005, foi ainda mais radical ao propor que a própria sociedade se posicione sobre o doping. “Não se trata de uma luta do bem contra o mal”, disse Miller há algum tempo. “Trata-se de igualdade de condições. Se todas as substâncias pas-sarem a ser permitidas, tudo bem. Se todas forem proibidas, também. O problema com a atual legislação é que os controles não resultam em igualdade. Hoje, quem quer se dopar consegue fazê-lo sem dificuldade.” Foi a primeira vez que um atleta de elite, ainda no auge da carreira, falou em público o que muitos pensam em privado.

 

Tanto o laissez-faire pregado pelo acadêmico Markovits quanto o trombone na boca de Miller tocam num aspecto da questão mais abrangente do que o esporte em si. Trata-se do endosso da sociedade à cultura do desempenho, que perpassa o cotidiano. Mantemos idosos e enfermos aptos graças ao avanço das drogas. Estabilizamos nossas emoções com remédios. Revigoramos nosso desempenho sexual graças a drogas. Como não compreender o ciclista que tenta escalar os Alpes com a ajuda de drogas? O atleta faz parte de uma sociedade que há tempos desaprendeu a funcionar sem suplementos químicos, intervenções cirúrgicas, recursos biomecânicos ou esperanças genéticas.

O ator Sylvester Stallone, recentemente ressuscitado pelo filme Rambo IV, por exemplo, ressurgiu aos 61 anos com 20 quilos de musculatura a mais do que nos seus tempos de jovem lutador. Cortesia de doses maciças de hormônio de crescimento. “Prestem atenção — dentro de dez anos o HGH estará sendo vendido sem receita medica”, garantiu ele em entrevista recente à revista Time. “Para mim, a testosterona é tão fundamental para o bem-estar de quem está envelhecendo que recomendo a toda pessoa de mais de 40 anos investigar seus benefícios, pois terá a qualidade de vida melhorada.”

Com a massificação da farmacologia para combater as falhas mais incômodas do corpo, era inevitável que se tentasse, paralelamente, ampliar os recursos para melhorar o desempenho mental. Já existe toda uma linha de espinafres cognitivos usados por médicos, músicos, jogadores de pôquer ou meros executivos para aguçar o raciocínio, aperfeiçoar a concentração ou controlar as emoções. “Não tenho dúvidas de que me tornei um jogador melhor desde que comecei a tomar Adderall [medicamento originalmente desenvolvido para combater o distúrbio de déficit de atenção] e Progivil [usado para combater a narcolepsia, ou distúrbio do sono excessivo]”, proclama o americano Paul Phillips, que acumulou mais de 2,3 milhões de dólares em campeonatos de pôquer profissional.

Phillips não está sozinho. Uma pesquisa recente com músicos da Orquestra Sinfônica de San Diego mostrou que um quarto de seus flautistas, todos perfeitamente sadios, toma beta-bloqueadores antes de um concerto ou concurso importante. Pilotos de avião têm o seu arsenal químico próprio, e estudantes do mundo inteiro engolem o que podem na busca de melhores resultados em provas.

“Por que todo mundo pensa que apenas atletas se dopam?”, indaga Charles Yesalis, pesquisador de substâncias proibidas no esporte e professor da Penn State University. “Se existissem drogas específicas para jornalistas, investidores, professores e cientistas, capazes de torná-los mais bem-sucedidos, elas seriam usadas.” Ele aposta que o primeiro laboratório a acertar na fórmula de uma pílula da memória será saqueado em um minuto.

Mas se o esporte vier a se tornar mera máscara da biotecnologia, a qual espetáculo estaremos assistindo? Segundo definição oficial do Comitê Olímpico Internacional e federações esportivas, deve ser considerada doping “a utilização de substâncias ou métodos capazes de aumentar artificialmente o desempenho esportivo, sejam eles potencialmente prejudiciais à saúde do atleta, à de seus adversários ou contrários ao espírito de competição”. Mesmo com outras 150 páginas que complementam a definição básica, sobram questões mal resolvidas. Enquanto o uso de testosterona para melhorar o desempenho é proibidíssimo, injeções de cortisona no joelho, para amenizar a dor de uma lesão, podem eventualmente ser autorizadas através dos chamados pedidos TUE (sigla em inglês para Exceção de Uso Terapêutico).

Tiger Woods, primeiro esportista a faturar 1 bilhão de dólares em campos de golfe, submeteu-se a uma cirurgia Lasik, de correção visual permanente, na busca de uma visão perfeita 20/20. Até então, sua visão era de 20/15, com lentes de contato. A cirurgia não configura aumento artificial de desempenho? E como justificar o veto à versão sintética do hormônio EPO sem proibir o uso das sofisticadas câmaras hiperbáricas, cuja função é aumentar artificialmente a produção de glóbulos vermelhos?

Essas cabines seladas, que simulam o ar rarefeito das montanhas, são a versão tecnológica das regiões montanhosas onde os fundistas quenianos nascem, crescem e treinam para vencer quase todas as competições de média ou longa distância. Atletas de outros países, com possibilidades de deslocamento e condições financeiras, ajustam seus calendários para temporadas de treinos em lugares alta altitude. Já as câmaras hiperbáricas, fabricadas pela Colorado Altitude Training, consideradas as mais avançadas, não exigem qualquer deslocamento do atleta. Elas são vendidas em diversos tamanhos e formatações. Para quem pode pagar 25 mil dólares, um dos modelos transforma todo quarto de dormir num ambiente contendo apenas 12% de oxigênio. Também existe a versão portátil, da qual Lance Armstrong, o maior ciclista de todos os tempos, se tornou garoto propaganda. Por onde andava, sempre levava consigo sua CAT 150, que pode ser montada e instalada sobre qualquer cama de casal.

Por aumentar a força, resistência e acelerar a recuperação do atleta, a cabine hiperbárica logo se tornou objeto de desejo de triatletas, ciclistas, remadores, esquiadores e fundistas. Dois anos atrás, o comitê ético da Agência Mundial Antidopagem concluiu que as câmaras “violavam o espírito esportivo” e cogitou incluí-las na lista anual de métodos proibidos. O painel tinha definido violação do espírito esportivo como o envolvimento do atleta numa atividade puramente passiva que, sem necessidade de treino, seria capaz de melhorar seu desempenho. Mesmo assim, depois de anos de debate e pressão de 76 cientistas e bioéticos, a Wada recuou. Em entrevista à repórter Gina Kolata, do New York Times, o presidente do comitê, Thomas Murray, formulou a pergunta-chave: “Havíamos decidido que nem todas as tecnologias novas são aceitáveis. Mas onde traçar a fronteira? Fronteiras são difíceis de serem estabelecidas. Se forem eliminadas, tudo o que é admirável no esporte simplesmente vai desaparecer.”

Para o canadense Richard Pound, xerife-mor do combate a substâncias e métodos proibidos, e pregador absolutista do esporte puro, além de membro do COI dos mais encrenqueiros, a questão nada tem de filosófica. Solicitado a definir o que é doping, não hesitou: “Doping é como a pornografia – você o reconhece quando o vê.”

Sobretudo, você o encontra na sua mesa de trabalho, em Pequim, meras 48 horas após ter digitado as letras HGH na internet. Essa, pelo menos, foi a experiência feita por Matthew Pinsent em fevereiro último. Pinsent é membro do Comitê de Atletas do COI, dono de quatro medalhas de ouro olímpicas no remo e um dos enviados da BBC para a cobertura dos Jogos. A encomenda do hormônio de crescimento made in China, com dosagem para duas semanas, lhe chegou sem entraves em troca de 180 libras esterlinas.

Para a China, que gostaria de ver varrida da história olímpica a sua cumplicidade com a prática de doping — mais de trinta de seus nadadores falharam em testes realizados nos anos 90, e sete de seus remadores não se apresentaram nos Jogos de Sydney para escapar dos testes de EPO —, parece ter chegado a hora de limpar a casa.

Os chineses deverão usar métodos mais eficazes do que os empregados com o historiador americano David Wallechinsky, autor da série de livros de referência The Complete Book of the Olympics, atualizada a cada quatro anos. (A edição de 2008, recém-chegada às livrarias americanas, tem 1 200 páginas.) O autor conta que recebeu do editor chinês o pedido para retirar o nome do jogador de vôlei Wu Dan da lista de atletas que testaram positivo em competição. “Alguns aspectos da verdade ainda não puderam ser compartilhados com o povo chinês”, justificou o editor. Diante da recusa de Wallechinsky, a publicação da versão chinesa foi cancelada.

Em contrapartida, pelo menos no papel, a China aprovou a lei antidoping mais draconiana em vigor no mundo: se dois ou mais atletas de uma modalidade falharem em algum teste, a modalidade como um todo fica banida dos Jogos Nacionais. E se algum atleta chinês for flagrado durante os Jogos, será banido do olimpismo para sempre.

 

Quando um atleta testa positivo depois de vencer uma competição, presume-se que sua conquista só foi possível graças ao efeito Popeye da substância proibida. A formação de um atleta de elite, no entanto, é um processo bem mais complexo, para o qual contribuem vários fatores — dez anos em média de treinos, alto nível de habilidade natural, obsessão competitiva, especificidades genéticas. Equipamentos de última geração, como os cobiçados maiôs LZR da Speedo, projetados para aumentar a flutuabilidade do nadador, tampouco fazem tudo sozinhos.

O tenista australiano Mark Philippoussis, cujo apelido, The Scud (nome do míssil soviético usado pelo Iraque na primeira Guerra do Golfo), diz bastante sobre a força da sua raquetada, chegou a se submeter a um tira-teima para ajudar a definir o que é produto do homem e o que é responsabilidade da máquina. Dono do quarto saque mais veloz da história do tênis (229 km/h) com um modelo de raquete de fibra de carbono tido como decisivo, ele repetiu o saque usando uma antiga Dunlop Maxply de madeira. Resultado: sacou a igualmente absurdos 218 km/h e saiu da quadra rindo.

“Jamais vou poder saber o tamanho do meu talento nem do que eu seria capaz”, constatou, com melancolia, a ex-nadadora Rica Reinisch. Ela integrou a geração de mais de 10 mil atletas da antiga Alemanha Oriental submetidos à mais criminosa experimentação com doping empreendida por um Estado, que os usou para fazer propaganda política. Reinisch tinha 15 anos, em 1980, quando bateu quatro recordes mundiais e conquistou três medalhas de ouro nos Jogos de Moscou. Alimentada a esteróides desde a puberdade, foi uma das estrelas da máquina de produzir campeões com experimentos altamente sigilosos, sequer testados em animais.

Quatro anos antes, nos Jogos de Montreal, a primeira leva dessas atletas-cobaias surgiu de trás da Cortina de Ferro e desconcertou por completo as adversárias. Nas provas de natação feminina, o massacre foi particularmente impiedoso: as americanas, até então consideradas imbatíveis, saíam cabisbaixas após cada disputa. Das onze provas individuais, as alemãs haviam vencido dez. A velocista Shirley Babashoff, com quatro miseráveis medalhas de prata no pescoço, relembra sua ira surda diante daqueles armários de voz grossa. “Viemos aqui para nadar, não para cantar”, respondiam as alemãs, quando provocadas.

Ao final, faltando uma última prova — o revezamento 4 x 100 — na qual as alemãs já detinham o recorde mundial, ocorreu o que até hoje é considerado um dos épicos da história da natação e, do ponto de vista americano, uma súmula da Guerra Fria. Impulsionadas essencialmente pela vontade quase terminal de vencer a humilhação e derrotar um adversário fisicamente imbatível, as americanas chegaram à frente, e ainda bateram o recorde mundial pela enormidade de 4 segundos. Foi, sem duvida, uma vitória da mente sobre o corpo.

Ou seja, há bastante espaço a ser conquistado pelos atletas que competirem limpos em Pequim. Na definição do ensaísta Christopher Lasch, o esporte, do qual os Jogos Olímpicos representam o apogeu, mistura talento, inteligência e concentração máxima de propósito — numa atividade totalmente desprovida de sentido, que em nada contribui para o bem-estar ou riqueza da coletividade, nem para a sua sobrevivência física. Mas ela é, ao mesmo tempo, a atividade que melhor evoca a perfeição da infância, com regras e limites criados só para aumentar o prazer da dificuldade, e aos quais os participantes aderem por livre e espontânea vontade.

Dorrit Harazim

Dorrit Harazim é jornalista. Foi editora de piauí de 2006 a 2012

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