esquina

Ausentes

Os quinze anos da morte de Dorothy Stang

João Moreira Salles
CRÉDITO: ANDRÉS SANDOVAL_2020

No dia 12 de fevereiro de 2020, quem chegasse àquela chácara simples logo saberia de pessoas assassinadas, de gente foragida e ameaçada de morte. Já na entrada leria, escritos com tinta branca nos braços de uma cruz vermelha, nomes dos que morreram violentamente nos últimos anos – Jesusmar Batista de Farias, Wislen Gonçalves Barbosa, Leidilene Machado Lima, Leoci Resplandes de Souza, e tantos outros. Num galpão comunitário, veria retratos de jovens executados por pistoleiros. E, sobretudo, dadas essas características do entorno, certamente se surpreenderia com a alegria – não a alegria das festas, mas a do abrigo e da atenção.

Dorothy Stang teria gostado de saber que a tristeza não triunfou na cerimônia que rememorou os quinze anos de seu assassinato. Suas imagens em vida – sorrindo em quase todas – autorizam a conclusão. Irmã Dorothy, missionária da Congregação das Irmãs de Notre Dame de Namur, parecia ter uma dessas felicidades só alcançadas por quem consegue viver exatamente como desejou, sem criar distância entre a intenção e o ato.

“Ela apareceu aqui com aquele sotaque forte de americana. ‘Quero trabalhar com os pobres mais pobres. Onde eles estão?’”, relembrou dom Erwin Kräutler, bispo emérito do Xingu. “‘Em Anapu’, respondi. Não acreditei que duraria. Ela iria para lá, ficaria uns meses e depois voltaria. Estava errado. Durou até ela ser assassinada.” A emboscada aconteceu no dia 12 de fevereiro de 2005, numa estrada de terra do município de Anapu, no Pará, em área de assentamento cobiçada por grileiros, ladrões de terra pública que, erradamente, muitos ainda chamam de fazendeiros. Com sua defesa intransigente da floresta e dos assentados, irmã Dorothy vinha se tornando um estorvo. O governo ofereceu proteção policial. Ela fez saber que aceitaria, com uma condição: “Somente se todas as famílias ameaçadas também forem protegidas. Do contrário, agradeço, mas não posso aceitar.”

Naquela manhã, os matadores a cercaram de revólver em punho. Ela lhes estendeu a Bíblia: “É minha única arma.” Abriu então em Mateus 5 e, para espanto dos assassinos e indiferença da floresta, leu em voz alta trechos do Sermão da Montanha: “Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque eles serão saciados.” Aos 73 anos de idade, caiu com seis tiros.



O modesto mausoléu de ladrilhos brancos, ornado com plantas e uma fotografia de seu rosto sorridente, está na entrada do Centro de Formação São Rafael, a chácara pertencente à congregação. “Nessa cruz”, diz irmã Jane, de 79 anos, mostrando o madeiro ao lado do túmulo, “escrevemos o nome dos dezenove lavradores da região assassinados desde 2015.”

Jane Dwyer, nascida em Boston e naturalizada brasileira, veio para o Brasil em 1972. Baixa e de cabelos muito brancos, é uma bolinha concentrada de entusiasmo. A exemplo de suas irmãs de ordem, mora ao lado dos desprotegidos, mas não só: vive como eles, vestida com roupas simples, numa casa “no meio do povo”, sem jamais permitir que a violência que a circunda entorpeça quer sua fúria, quer sua alegria.

 

A missa em memória de irmã Dorothy começou às dez da manhã. Enquanto as pessoas ocupavam seus lugares, o sistema de som transmitia, de Roma, a leitura da exortação apostólica do papa Francisco sobre a Amazônia, publicada naquele mesmo dia, o que não pareceu coincidência para quem estava ali. Francisco escreveu: “Sonho com uma Amazônia que lute pelos direitos dos mais pobres, dos povos nativos, dos últimos, de modo que a sua voz seja ouvida e sua dignidade, promovida.” Eram os que estavam ali, homens e mulheres presos à necessidade.

Sete sacerdotes oficiaram a cerimônia, entre os quais o bispo da Diocese do Xingu-Altamira, dom João Muniz Alves. “Bem-aventurados os que choram”, disse, recitando um dos versículos que irmã Dorothy tinha diante dos olhos ao ser morta. Para a grande mística católica Simone Weil, a ressurreição é de algum modo supérflua – apenas a cruz é essencial. De fato, por vezes o rito pareceu flertar com a exaltação do martírio, inclinação milenar da Igreja, ali acentuada pelo olhar que os mortos, do alto de seus retratos, lançavam sobre os vivos. A tentação do flagelo, contudo, era logo afastada pela exuberância das canções. Irmã Jane bailava o corpo, extraindo cada parcela de alegria que aquela experiência comunitária era capaz de prover.

Foram então chamados os representantes dos vários assentamentos cujo processo de regularização havia sido interrompido pelo Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária). Caminhavam até o altar, recebiam a bênção do bispo e, ao pé de uma cruz, depositavam alimentos de suas roças, oferendas para a viúva de Marcio Rodrigues dos Reis, líder sem-terra, uma das vítimas mais recentes.

Reis tinha 33 anos. Enquanto a situação fundiária não se resolvia, trabalhava como mototaxista em Anapu. Na noite de 4 de dezembro, saiu para atender um chamado numa estrada vicinal e não voltou. O passageiro o matou com uma facada no pescoço. Além de militante, Reis era a principal testemunha de defesa do padre Amaro Lopes, colaborador de irmã Dorothy e seu sucessor nas lutas fundiárias da região, acusado por proprietários locais de estimular invasões de terra. O padre passou três meses preso e agora responde ao processo em liberdade. Reis insistia em que o religioso não organizara ocupações. “Aqui as pessoas morrem de bala”, diz irmã Jane. “Ele morreu degolado: ‘Ah, não se calou? Então te calamos nós’” – e raspa o dedo pela garganta.

No dia do enterro, o presidente do sindicato de mototaxistas, Paulo Anacleto, organizou um cortejo para acompanhar o féretro. Revoltado, dizia saber quem tinha mandado matar o rapaz. Cinco dias depois, foi assassinado a tiros no centro da cidade. Por ora, ninguém foi preso.

Da morte de irmã Dorothy até 2015 houve tensão nos assentamentos, mas a violência diminuiu. Em dez anos, apenas duas mortes podem ser atribuídas a disputas fundiárias. “Foi um tempo em que o povo ganhou o direito à terra”, diz irmã Jane. Irmã Katia Webster, nascida na Califórnia e desde 1984 no Brasil, acrescenta: “Lula não fez muito pela reforma agrária, mas não perseguiu. Em 2015, voltou a tensão.”

A cerimônia agora avançava com a procissão das vítimas. Retirados com cuidado dos ganchos, os retratos iam sendo depositados solenemente na frente do altar. Irmã Katia tomou o microfone: “Chega de mortes! Vamos escrever mais quantos nomes naquela cruz?” Apontava na direção do túmulo de irmã Dorothy. A chuva intermitente caía em pancadas violentas.

Irmã Jane deixou seu lugar e foi ao encontro da viúva de Marcio dos Reis, Fernanda Lima Pereira, deixada com três filhas e uma enteada para criar. A missionária abraçou a menina de 24 anos. A jovem começou a soluçar nos ombros da freira e assim ficou, só na vida, mas ao menos ali, naquele instante, amparada pelo calor do corpo e da voz de uma senhora que durante os longos minutos do abraço lhe falou coisas boas ao ouvido. No outro extremo do galpão, um cartaz com a foto de irmã Dorothy declarava: “NUNCA em Anapu um fazendeiro morreu pelas mãos de trabalhadores rurais. NUNCA.”

 

“Todo mundo sabia que o Marcio estava ameaçado”, conta a jovem viúva, olhando para longe como se sonhasse com outro lugar. “A gente chegou a sair daqui, mas essa era a terra do Marcio, ele tinha que seguir com a vida.” Seus pais moram a 530 km de distância, e ela não tem parentes em Anapu.

Reis participou da invasão de uma fazenda disputada na Justiça, a Santa Maria, de Silvério Albano Fernandes. A área ocupa terras públicas da União, mas Fernandes nega a grilagem, afirmando possuir documentos que datam da década de 1970. Reis chegou a ser preso pela ocupação, mas foi absolvido. Fernanda conta que, desde a prisão, as freiras sempre os ajudaram com dinheiro, mantimentos e roupa. Seu marido era evangélico, e ela também. “Mas estou quase desviando”, diz, com o sorriso mais triste do mundo.

A poucos metros dela está Erasmo Alves Teófilo, de 31 anos. É o presidente da Cooperativa da Volta Grande do Xingu, formada por famílias que ocupam fazendas que, por sua vez, ocupam terras públicas em disputa. Em 15 de dezembro, pistoleiros apareceram na casa em que ele mora com a noiva. Gritaram: “Sai!” Impossibilitado de andar por causa da paralisia infantil, ele não saiu – e os pistoleiros não entraram. Teófilo deu queixa na delegacia. Dias depois, um dos pistoleiros, segurança de um proprietário local, morreu em confronto com a polícia.

Teófilo está com um trator parado na entrada do assentamento: “O Incra liberou dinheiro para consertar as estradas que servem os lotes. Nessa época do ano elas ficam intransitáveis e a gente não tem como escoar a produção. Mas os pistoleiros avisam: se o trator entrar, não sai, a gente queima. Motorista nenhum aceita fazer o serviço.”

Homens armados aparecem diariamente nas franjas dos assentamentos. Os antigos proprietários reivindicam a reintegração de posse, mas já perderam em todas as instâncias inferiores da Justiça. “Eles ainda têm esperança?”, alguém pergunta. “Não. Eles têm dinheiro”, responde Teófilo.

 

Foram necessários apenas cinco dias para que irmã Dorothy alcançasse na morte o que não conseguiu em vida. No dia 17 de fevereiro de 2005, em resposta imediata a seu assassinato, o governo federal criou na região duas áreas protegidas, com extensão equivalente à de Alagoas e do Distrito Federal juntos. Os assentamentos foram regularizados, dando lugar a dois projetos de reforma agrária baseados no extrativismo, na agricultura familiar e no compromisso de manter a floresta em pé. Irmã Dorothy fora abatida em um deles, o Anapu-Esperança.

A tragédia de Anapu é que se passaram quinze anos e nada se resolveu. De pouco adiantou que por uma década as condições políticas tenham sido favoráveis. Havia aliados no governo, e não foi irrisório o que se fez. O Brasil destinou terras expressivas ao pequeno agricultor. Os assentamentos na Amazônia Legal correspondem a cerca de 300 mil km2 – 6% de toda a área, ou Rio de Janeiro e São Paulo somados. Tampouco faltou dinheiro. Nos anos Lula, cerca de 2 bilhões de reais foram destinados anualmente à agricultura familiar.

O problema é em parte ecológico. Confundiu-se luta por terra com defesa da floresta. A corrente política que alcançara o poder era agrarista, não ambiental. Proporcionou vitórias na luta pela terra – durante alguns anos, avançou-se no esforço de fazer justiça fundiária no país –, mas o modelo econômico não se sustentou. Agricultura de subsistência é agricultura de corte e queima, o que significa, ao fim e ao cabo, agricultura de desmatamento.

E o problema é também sociológico. Irmã Jane sonha com uma vida digna e comunitária para os assentados de sua região. O modelo acordado pelos lavradores determinava que 20% de cada lote seriam destinados à agricultura, cada família com seu lote, produzindo para si e vendendo o excedente. Nos 80% remanescentes a floresta seria preservada. Seria uma floresta coletiva, existindo para o bem comum de todas as criaturas. Todos teriam o que lhes bastasse para viver – pobres, sim, mas pobreza como ausência de riqueza, não como miséria. “Só que alguns não quiseram”, lamenta irmã Jane. “Exigiram 100% do lote, sem a parte coletiva. Queriam vender a madeira.”

Os madeireiros chegaram, como sempre fazem. Identificaram os elos frágeis, ofereceram dinheiro e, aos poucos, instalaram a cizânia na comunidade. Por desmatar, alguns assentados foram expulsos do projeto. Construiu-se uma guarita para impedir a saída de caminhões madeireiros. O poder público ajudava a cobrir os custos. Parou de fazê-lo em agosto do ano passado. “Agora os caminhões passam carregados de toras”, diz irmã Jane. Os que decidiram vender madeira empobreceram mais rápido.

“Eles são pobres”, diz Adalberto Veríssimo, pesquisador do Imazon, Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia. “Não têm poupança, não têm capital de giro. Qualquer doença, a poupança é a árvore.” Uma vez limpa, a terra também pode ser arrendada aos pecuaristas, e é assim que, muitas vezes, o dinheiro da agricultura familiar acaba financiando bois onde antes havia floresta. O SAD, Sistema de Alerta de Desmatamento, do Imazon, indica que em janeiro o desmate aumentou 74% em relação ao mesmo mês do ano passado. Derrubaram-se 188 km2 de floresta, 21% dos quais em áreas de assentamento.

 

Quinze anos é um aniversário marcante. Ainda assim, afora o bispo, nenhum representante dos poderes da nação veio prestar homenagem à missionária morta. “Antes vinha”, disse irmã Jane. “Eu não ligo mais, sei que a mudança só vem de baixo.”

Quem visse a fila de pessoas que agora deixava a chácara teria dificuldade em não pensar no preço que o Brasil cobra por seus parcos avanços. De um lado, a posse da terra, que muitos ali haviam conquistado graças à luta de que Dorothy Stang e suas irmãs foram participantes incansáveis. De outro, o espectro da violência, que voltava a abrir as asas sobre Anapu. Como em outras partes da Amazônia, de novo a cobiça e a impunidade deixavam por todo canto um rastro de iniquidade e dor. Em Altamira, padre Amaro vive confinado na sede da prelazia, de onde ele e dom Erwin só saem acompanhados por seguranças. Em Anapu, o cortejo silencioso que parou diante do túmulo da missionária para uma última homenagem era feito, em partes iguais, de conquista e sofrimento, de emancipação e morte.

O que Dorothy Stang acharia se regressasse? “Morreria de novo!” – irmã Jane não hesita na resposta. “Hoje está muito pior, rapaz!” É bem provável. Ainda assim, para os que choravam junto ao túmulo branco, não parece ter mudado a certeza de que, sejam quais forem os desastres à frente, a chácara será sempre um lugar de acolhida.

“A desgraça é antes de tudo anônima”, escreveu Simone Weil. “É indiferente, e é o frio dessa indiferença, um frio metálico, que gela até o fundo da alma todos os que são tocados por ela.” A um repórter que queria entrevistá-la, irmã Jane sugerira que estivesse em Anapu no dia 12 de fevereiro:  “[É] quando faremos a comemoração memorial de 15 anos desde o assassinato de Irma Dorothy, os assassinatos de 19 trabalhadores de Anapu desde 2015, a fuga de várias famílias de Anapu ameaçadas a morte e a ameaça constante a floresta amazônica, seus povos e suas criaturas. Boas vindas.” Encerravam a mensagem três smiley faces.

O frio não vencerá fácil ali.

João Moreira Salles

Documentarista, é editor fundador da piauí. Dirigiu Santiago, Entreatos e Nelson Freire, entre outros

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