quarentena

Aviões de volta ao céu

Tudo se agravou depois de um jogo de vôlei com um time italiano

Beatriz Portugal
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2020

De Tallinn

Opção A ou opção B. Ou A ou B. Ou A ou B… A dúvida não me abandonava: devo ir embora ou ficar aqui? Antes do início da pandemia, eu e minha família estávamos planejando deixar para trás nossa vida em Tallinn, capital da Estônia. O plano era nos mudarmos em julho, ao final do ano escolar, mas, com o avanço da Covid-19, as incertezas aumentaram.

Quando foi declarado o estado de emergência no país, em 12 de março, as aulas passaram a acontecer pela internet e não havia mais nada que nos prendesse aqui. Podíamos adiantar o retorno ao Brasil, já que meu filho de 7 anos conseguiria terminar o ano letivo onde quer que estivéssemos.

Comecei, porém, a calcular os riscos da viagem, como enfrentar aeroportos, cancelamentos de voos e fronteiras fechadas. Também levei em conta as análises sobre os picos da doença na Estônia e no Brasil. Ficar aqui seria mais seguro, uma vez que as projeções do sistema de saúde não indicavam que haveria falta de leitos em UTIs, ao contrário do que poderia ocorrer no Brasil. Além disso, permanecer em nossa casa, com nossas coisas, seria melhor para meus dois filhos, um deles ainda bebê, do que fazê-los mudar abruptamente de país.



Por outro lado, ficaríamos em isolamento por tempo indefinido, sem muito apoio familiar, caso algum de nós ficasse doente. Também me preocupava a possibilidade de algum parente querido no Brasil ser hospitalizado por causa da Covid-19, sem que eu estivesse perto para dar apoio à família. Concluí que precisaríamos ter muita serenidade ao decidir sobre a mudança e que não poderíamos nos arrepender.

Por fim, resolvemos ficar.

 

A Estônia tem 1,3 milhão de habitantes, sendo que um terço da população (445 mil) vive na capital. É um país organizado, moderno e seguro, que hoje faz parte da União Europeia e deseja se afastar da influência exercida ao longo do século XX pela Rússia, sua vizinha. Prefere se aproximar da Finlândia e de outros Estados nórdicos, com os quais compartilha o estereótipo de países onde impera certa frieza nos relacionamentos sociais.

O estereótipo, aliás, foi lembrado pelos próprios estonianos em suas primeiras reações à pandemia, antes mesmo que ela aportasse aqui. Com humor um tanto autodepreciativo, eles diziam que estavam a salvo da Covid-19, pois, para ser infectado, era necessário ter algum contato humano – e na Estônia o isolamento social já fazia parte do dia a dia.

A reação do governo à pandemia tem sido sóbria e eficaz. Assim que foi declarado o estado de emergência, as escolas suspenderam as atividades, e os shoppings, academias de ginásticas e espaços de lazer trancaram as portas. O número de pessoas autorizadas a se reunir em locais públicos foi sendo reduzido pouco a pouco, até chegar a apenas duas.

Os restaurantes continuaram funcionando, mas somente para entregas. Todos os comércios abertos precisaram disponibilizar álcool em gel na entrada, além de máscara e luvas para os funcionários. A fim de desestimular passeios e atividades de recreação, os bancos nos parques foram desmontados, e a polícia cercou com fitas de isolamento as quadras esportivas e os playgrounds.

Quem chega do exterior deve ficar catorze dias em casa e está impedido de sair até mesmo para tirar o lixo. A polícia telefona para essa pessoa em quarentena e, às vezes, aparece de surpresa na casa dela para conferir se está realmente isolada. Quem não cumpre a determinação leva uma multa de 2 mil euros (cerca de 12 mil reais).

Até 28 de maio, a Estônia tinha 1 851 casos confirmados de contágio e 66 mortes. O foco principal é a ilha de Saaremaa, onde ocorreu um jogo de vôlei com um time italiano, na primeira semana de março, antes que os estonianos se dessem conta da gravidade da situação na Itália, cujos primeiros casos de contágio haviam sido registrados em janeiro. Apesar de apenas 2,5% da população viverem na ilha, lá estão cerca de metade de todos os pacientes hospitalizados.

Foram realizados aproximadamente 80 mil testes na Estônia, até o dia 27 de maio, numa proporção de quase 60 para cada grupo de mil pessoas. Também foram desenvolvidas soluções tecnológicas para auxiliar a população, como um mapa que exibe dados atuais sobre a propagação do vírus, um questionário de saúde que ajuda a avaliar o risco de infecção da pessoa e uma plataforma que conecta voluntários com formação médica.

No final de abril, o governo anunciou que o país tinha chegado ao pico de casos e, na segunda semana de maio, iniciou a diminuição gradual das restrições. Foi autorizado o acesso a alguns parques infantis e outras áreas, para grupos de até dez pessoas. Na segunda fase, haverá a liberação do acesso a restaurantes, bares, museus e bibliotecas, desde que se cumpra a regra batizada de “2 + 2”, pela qual as pessoas devem manter 2 metros de distância umas das outras.

Na terceira fase, a partir de 1º de junho, deve ser liberado o acesso à praia, e os centros sociais para idosos poderão ser reabertos. As escolas, entretanto, só voltarão a ter aulas presenciais no novo ano escolar, que começa em setembro.

 

Aos poucos, a vida está voltando ao normal. Em Tallinn, no início de maio, já havia mais carros circulando, mais gente nas ruas, mais comércios abertos e aviões cruzando o céu.

Antes da pandemia, muita coisa podia ser resolvida online – como assinar contratos e abrir conta bancária. Com a quarentena, essas facilidades se multiplicaram. Quando precisei de um remédio, bastou escrever um e-mail para o médico, que enviou a receita via internet para um sistema usado pelas farmácias. Pude, assim, comprar online o produto e recebê-lo pelo correio.

Desde que foram decretadas as medidas de proteção, minha família permaneceu fechada em casa, e eu raramente saio à rua. Passei a fazer as compras de preferência pela internet – o entregador deixa na porta e toca a campainha para avisar que está se distanciando.

Como estamos prestes a entregar o apartamento, temos que permitir a visita das pessoas interessadas em alugá-lo, mas isso é feito virtualmente. É uma situação insólita, pois não sabemos ainda quando poderemos entregá-lo, nem sabem os interessados quando poderão se mudar.

Aos poucos, minha ansiedade vai ficando para trás. E fico aliviada por saber que posso voltar a fazer escolhas livremente. A ou B. Ir e vir.

Beatriz Portugal

Beatriz Portugal é jornalista brasileira radicada em Londres.

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