esquina

Babá de malandro

O braço direito de Zeca Pagodinho

Gian Amato
ANDRÉS SANDOVAL_2018

O carpete cheio de ácaros e a noite fria de outubro potencializaram a coriza de Zeca Pagodinho. O frasco de Sorine estava no alto de uma estante, perto do sofá onde ele estava sentado. Dali a uma hora e meia o sambista se apresentaria no Coliseu do Porto. As reduzidas dimensões do camarim ampliavam a sensação de aconchego. Ele espirrou, levou a mão ao nariz, procurou o lenço. “Sabe uma coisa que a Baiana também faz para mim? É pegar aquele remédio ali. Pega, Baiana?”

Baiana é o apelido de Edilene Santana, a produtora que atua como braço direito do compositor de 59 anos. “Pode virar resfriado”, disse ela. “Ô!”, respondeu Zeca, concentrado em pingar as gotas no nariz. A assistente cuida do malandro de Irajá com carinho de mãe, apesar de terem quase a mesma idade. “Mas ele é mais velho do que eu”, esclareceu.

Zeca Pagodinho não se apresentava em Portugal havia treze anos. Dias antes, tinha feito um show em Lisboa. No Porto, o concerto seria num prédio de arquitetura modernista erguido há 76 anos no coração do Centro histórico. A turnê europeia ainda passou por outros quatro países.

A tarde caía quando Santana entrou no Coliseu, quatro horas antes do show. Carregava uma pequena bolsa de viagem, de onde, além do Sorine, colírio e imagens de santos, saíram três camisas, um paletó e uma calça de linho branca que seriam devidamente passados e engomados. “Ele odeia trocar a calça”, disse a produtora. “Acha que está bem de jeans. Mas eu digo que está feia, que não é legal”, protestou. “Pô, Zeca, você vai para o palco, você é o Zeca Pagodinho, cara! Ele pensa, reluta, mas se eu falar com jeitinho, veste.”

Santana estirou as roupas e as levou ao chefe. No camarim, latinhas de cervejas intactas boiavam na água do gelo derretido dentro do isopor. O cantor tomava um vinho tinto enquanto sua banda – chamada Muleke – passava o som. Ele levantou, foi até o palco, deu uma sambada, provocou um músico, filou um cigarro e voltou ao camarim, encontrando bandejas com sanduíches, salgados e doces. Desconfiado, preferiu não se servir. “Ele não gosta de comer na rua”, reclamou a produtora. Só muda de atitude caso ela mesmo providencie um prato com carne ou frango e legumes, seu cardápio predileto. “Se deixar, não come nada, viu? E ele tem que estar bem para cantar”, desabafou.

O clima nos bastidores era de alvoroço perto do início do show. Um monte de gente circulava por ali. Alguém telefonou para o produtor Kadu Brito pedindo uma entrada para um jogador de futebol do F. C. Porto. Consultado pela empresária Leninha Brandão, o sambista não se opôs. A vencedora de um concurso para conhecer o astro apareceu para uma foto. Zeca posou simpático. A adrenalina subiu, e os músicos pediram duas garrafas de vinho. Santana vetou e disse que só depois do show. Após um debate bem-humorado, os produtores chegaram a uma solução de compromisso e resolveram abrir apenas uma.

Das 22 pessoas em turnê com Zeca Pagodinho, é Santana quem se encarrega da função mais importante antes do show: montar o altarzinho de oração do cantor. É uma mesa pequena, forrada com toalha branca. Sobre ela, imagens em gesso e de tamanho médio de São Cosme e São Damião, São Jorge e Nossa Senhora Aparecida, cada uma ao lado de um copo de guaraná, cerveja e água, respectivamente. “São os santos que cuidam dele no palco”, explicou.

O apreço do sambista em pedir proteção é tanto que Santana leva os santos em sua própria bagagem de mão durante os voos. Seu zelo já levantou a suspeita de que não fosse a assistente, mas a mãe de santo do artista. “Eu e o Zeca temos aquela coisa da Bahia, do sincretismo religioso. Nosso link está muito aí, na umbanda, cristianismo, espiritismo”, afirmou. “Também gostamos dos evangélicos.”

 

Edilene Santana é uma mulher magra, de estatura mediana e fartos cabelos pretos encaracolados, cortados na altura do pescoço. Nascida em Salvador há 54 anos, mudou-se para o Rio de Janeiro e fez carreira como produtora musical, trabalhando para nomes como Lulu Santos, Marina Lima, Gabriel, o Pensador, Ed Motta, Cidade Negra e Nocaute. Mãe de dois filhos, desde 2005 trabalha para Zeca Pagodinho com dedicação exclusiva.

Mas custou a conquistar sua confiança. “Ele é um cara ressabiado e não se entrega de primeira”, ela disse. “Só se abriu comigo depois de três anos.” A produtora soube que as reticências do sambista foram dissipadas quando ele lhe enviou um convite para um show de Marisa Monte. “Naquele dia quebrou o gelo e passamos a ter empatia”, contou.

A relação ficou séria e a dependência aumentou. O produtor Kadu Brito sempre procura alojá-los em quartos contíguos. “De preferência aqueles que têm porta compartilhada”, explicou. “Às vezes ele não consegue ligar para a mulher tarde da noite e ela socorre, porque ele não usa WhatsApp, tem que ser telefone mesmo”, continuou Brito. “A primeira pessoa que ele chama é a Baiana.”

Zeca Pagodinho apresentou-se num Coliseu cheio, com quase 2 500 espectadores. Enfileirou um set de 21 músicas pinçadas de seus mais de trinta anos de carreira, incluindo sucessos como Judia de Mim, que ele compôs com Wilson Moreira, e Vai Vadiar, de Monarco e Alcino Correa. Só trocou de camisa uma vez: escolheu a azul para o segundo ato, “para homenagear a minha Portela”, conforme disse a Santana, que assistia a tudo atrás do palco, num espaço onde havia um segundo altar com uma imagem de São Jorge entalhada num quadro de madeira.

Ao fim do show, o sambista caminhou ao encontro da assistente, sob aplausos. Bebericou um vinho enquanto o público pedia sua volta ao palco. Santana apressou-se em entregar ao artista o frasco de Sorine. Zeca Pagodinho agradeceu, pingou o remédio nas narinas e voltou para um bis de quatro músicas. Quando deixou a cena em definitivo, a produtora o aguardava com um paletó na mão, “para ele não pegar resfriado a caminho do carro”. Fazia 12 graus no Porto.

Gian Amato

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