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Balbúrdia enciclopédica

O verbete que o ministro Abraham Weintraub quis apagar

Bernardo Esteves
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2019

Numa manhã de maio um usuário anônimo pôs-se a editar o verbete dedicado a Abraham Weintraub, ministro da Educação, na Wikipédia, a enciclopédia construída por colaboradores voluntários na internet. Trocou o nome do biografado para “Abraham ‘3 Chocolatinhos’ Weintraub” e espalhou pelo artigo referências a marcas de chocolate.

Intervenções de má-fé são o preço que a Wikipédia paga por ser aberta às contribuições de qualquer um. Mas a plataforma conta com um exército de vigilantes humanos e robôs que eliminam com rapidez a maior parte desses “vandalismos”, como são chamados no jargão. A pichação virtual no verbete de Weintraub foi apagada quatro minutos depois por um wikipedista que atende pelo codinome de Bageense. Num fórum de discussão, ele pediu que o artigo fosse protegido para evitar futuros ataques. “É preciso um tempo para respirar”, justificou. 

A intervenção maliciosa aludia à participação do ministro numa transmissão ao vivo do presidente Jair Bolsonaro pelas redes sociais dias antes. Weintraub levou cem barras de chocolate e separou três e meia para ilustrar a proporção dos cortes anunciados no orçamento destinado às universidades federais. Caso os chocolates representassem apenas as despesas não obrigatórias das universidades, o ministro deveria ter separado trinta chocolates (a guerra de versões para caracterizar o contingenciamento está documentada no verbete). 

Fazer a crônica do governo Bolsonaro na Wikipédia é a tarefa à qual se dedica Bageense, um estudante de administração de 24 anos nascido em Bagé, no Rio Grande do Sul. “É um trabalho sujo, mas alguém tem de fazê-lo”, afirma em seu perfil de usuário na enciclopédia. O editor disse à piauí que não apoia Bolsonaro, mas segue os princípios de neutralidade da enciclopédia digital. “Me sinto até um pouco enjoado por ter de escrever de modo imparcial sobre medidas do governo que considero totalmente descabidas”, afirmou. Hoje, seu foco no governo é circunstancial. “Caso fosse Fernando Haddad o presidente, eu agiria do mesmo modo.”



O pedido de Bageense foi atendido por Chronus, um dos 78 administradores da Wikipédia em português, classe de usuários que têm a prerrogativa de restringir a edição de verbetes para prevenir vandalismos. Chronus – pseudônimo de Heitor Carvalho Jorge, um jornalista de 28 anos que vive em Santa Bárbara d’Oeste, no interior de São Paulo – julgou o pleito procedente e protegeu o artigo “Abraham Weintraub”. Por 45 dias, ele só poderia ser modificado por usuários registrados há mais de quatro dias e que tivessem feito no mínimo dez intervenções na Wikipédia. 

Semanas depois, Chronus recebeu uma mensagem da assessoria de comunicação do Ministério da Educação solicitando a exclusão do verbete dedicado a Weintraub. “A página contém informações não confirmadas com a pessoa pública ora em destaque, contribuindo para interpretações dúbias”, alegou o e-mail do MEC. “Com a restrição, a pessoa física/jurídica fica incapacitada de declarar a ampla defesa e o contraditório.” 

Como a mensagem não especificava quais eram as informações duvidosas, não ficou claro para o editor o que incomodara o ministro – procurada pela piauí, a assessoria do MEC não quis se manifestar sobre o caso. O artigo registrava polêmicas em que Weintraub se envolvera, como a alegação de que havia “balbúrdia” nos campi de universidades federais ou o vídeo em que apareceu de guarda-chuva ao som de Singin’ in the Rain para refutar que o corte de recursos para a reconstrução do Museu Nacional era de responsabilidade do MEC. Chronus pensou que o motivo do pedido talvez fossem trechos referentes à vida pessoal do ministro – junto com o irmão, Weintraub tentou sem sucesso interditar na Justiça o pai, um professor aposentado. Mas o artigo estava todo baseado em reportagens publicadas por veículos confiáveis, como mandam as regras da Wikipédia. “Os editores não escrevem opiniões”, argumentou o editor, que considerou “surreal” a mensagem do MEC.

A ironia da solicitação não passou despercebida pelos editores. “Normalmente é o oposto, as pessoas brigam para manter seus artigos”, contou Érico Wouters, um estudante de direito gaúcho de 22 anos que edita a Wikipédia há sete. O pedido pareceu-lhe revelador de como o público ignora o funcionamento da enciclopédia. “As pessoas acham que a Wikipédia é um banco de currículos, mas é um projeto para a coletividade.”

Os editores receberam a solicitação como “uma deslavada tentativa de censura”, nas palavras de um wikipedista. Wouters ajudou a elaborar a resposta ao MEC – um comunicado assinado pela comunidade de editores da Wikipédia em português, união rara num grupo marcado por disputas. “A Wikipédia não é uma rede social em que os biografados decidem sobre a permanência ou não de seus artigos”, afirmou o comunicado, acrescentando que nenhum editor pode apagar um verbete que esteja de acordo com as regras do projeto sem passar pelo crivo da comunidade. 

Noticiado pelo jornal O Estado de S. Paulo, o episódio provocou um pico de audiência no artigo, acessado mais de 23 mil vezes em 4 de julho. Enquanto isso, os editores trataram de reformular o verbete, mas não eliminaram informações polêmicas. “Está melhor do que antes, mas continua bem curto”, avaliou Bageense.

Não foi a primeira vez que um perfil na Wikipédia incomodou um vulto da República. Em 2012, o ministro do STF Gilmar Mendes apresentou à Polícia Federal uma notícia-crime contra o wikipedista Francisco Carvalho Venâncio. O ministro enxergou ataques à sua honra em trechos que citavam denúncias de parcialidade, nepotismo, sonegação fiscal e outras condutas reprováveis que haviam sido noticiadas pela imprensa. 

Intimado a depor na PF, Venâncio – um programador maranhense formado em relações internacionais – explicou que as informações estavam referenciadas, e que os trechos citados pelo ministro não haviam sido inseridos por ele. O caso acabou arquivado, mas teve “um custo pessoal imenso” para o editor, hoje com 30 anos. “A ideia de uma denúncia errada vinda de um ministro do Supremo não é tão simples de aceitar”, disse Venâncio. “Foi bem complicado tranquilizar minha família.” A maior parte das denúncias citadas na notícia-crime continua a figurar na biografia de Gilmar Mendes. 

Já a cantora Rosanah Fienngo, conhecida por sua interpretação de O Amor e o Poder nos anos 80, conseguiu derrubar seu verbete por força de uma liminar, em 2014. A artista contestava informações, como sua idade. Acabou perdendo o processo, e o artigo voltou ao ar dois anos depois. Lê-se ali que Fienngo nasceu há 64 anos – catorze a mais do que ela alega –, conforme a própria cantora informou ao TSE ao se candidatar a vereadora do Rio em 2012.

“Espero que tenham entendido que não é muito factível buscar tutelar o que está disponível na Wikipédia”, disse Venâncio ao evocar os casos de Fienngo, Mendes e Weintraub. “O conhecimento incomoda muita gente.” Com receio de nova contestação judicial, o programador não voltou a editar o verbete sobre o ministro do STF.

Bernardo Esteves

Repórter da piauí desde 2010, é autor do livro Domingo É Dia de Ciência, da Azougue Editorial

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