esquina

Beethoven na panela

Produtor de brega-funk faz versões de dois clássicos da música

Emily Almeida
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2020

Num dia de abril, o produtor musical pernambucano Jonathan Ramos dos Santos, conhecido como JS, O Mão de Ouro, estava na produtora de funk Los Pantchos, em São Paulo, quando foi surpreendido pela chegada brusca do dono da empresa. Marcelo Fernandes abriu a porta da sala e foi direto ao assunto: JS havia sido convidado pela gravadora Warner Music Brasil para criar versões de duas sinfonias de Ludwig van Beethoven, cujos 250 anos de nascimento estão sendo comemorados em 2020.

JS é um dos principais nomes do brega-funk, estilo que nasceu no início da década passada nas periferias de Pernambuco. A alcunha O Mão de Ouro lhe foi conferida após ele ter emplacado várias de suas produções nos rankings das músicas mais ouvidas no Brasil, como Sentadão e Tudo Ok. É dele um dos sucessos do Carnaval de 2019, Hit Contagiante – remix de Evoluiu, de Kevin O Chris –, cuja letra diz: Se liga aí, malvada, no que agora eu vou mandar/Um som diferenciado que vai te fazer dançar/JS no comando vai mandar pra todas elas/Ritmo contagiante vai entrar na mente delas.

O produtor musical de 24 anos já tinha ouvido composições de Beethoven e sabia da importância do compositor alemão, mas não se lembrava de ter escutado as sinfonias por inteiro. “Quando parei para escutar, percebi que já tinha ouvido antes em alguns filmes e fiquei muito feliz por poder fazer um trabalho como esse”, contou.

JS foi convidado a fazer versões de duas obras centrais da música ocidental: a Sinfonia Nº 5 em Dó Menor, Opus 67, e a Sinfonia Nº 9 em Ré Menor, Opus 125. A Quinta Sinfonia, também chamada de Sinfonia do Destino, estreou em 1808, em Viena, e é tida como uma das obras mais acentuadamente políticas de Beethoven – na luta entre o ser humano e o destino, vence o primeiro. A revolucionária Nona Sinfonia, ponto de virada do classicismo para o romantismo, teve sua estreia também em Viena, em 1824. Seu quarto e último movimento traz a famosa Ode à Alegria, quando o coro entoa o poema homônimo de Friedrich Schiller, que diz: Glória! Glória!/Alegria, alegria/Filha do divino em nós/Abre as portas do destino/E entre a humanidade, após!/Teu apelo vê reunido/O que era dividido em vão,/Homens e mulheres, todos/São agora irmã e irmão (tradução de Arthur Nestrovski, diretor artístico da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, a Osesp).



 

JS é um artista autodidata. Tomou gosto pela música graças ao pai, João dos Santos, que nos horários de folga gostava de ouvir forró, sertanejo, samba e brega em sua casa no bairro Jardim Paulista Baixo, na periferia do Recife. Foram essas as referências musicais que JS herdou e que vieram a influenciar seu trabalho futuro. Foi também o pai que estimulou o rapaz a deixar a vida de ajudante de pedreiro e encontrar outra profissão.

Quando ainda estava cursando o primeiro ano do ensino médio, aos 16 anos, JS aprendeu a produzir música assistindo a tutoriais no YouTube. Começou a gravar sons do seu dia a dia, como os barulhos da rua e latidos de cães, e os mixava com canções já existentes. Seu “toque de mestre”, porém, foi utilizar nos arranjos um som produzido por sua avó Maria: o tinido estridente de uma colher numa panela. Este som ajudou a fixar a batida cortante e aguda do estilo JS. “É esse barulho de lata que dá o ritmo para o passinho do brega-funk”, explicou ele. Pouco a pouco, seus remixes chamaram a atenção de MCs (mestres de cerimônias) de Pernambuco, que convidaram JS para produzir suas músicas.

O brega-funk costura o ritmo do funk com a sonoridade de gêneros como o reggaeton, o trap e o tecnobrega, gerando um novo estilo dançante que fascina a juventude. No Recife, o gênero se popularizou por obra de alguns MCs e grupos de passinhos, como os malokas. O sucesso foi tão grande que o brega-funk se expandiu para os estados vizinhos e, depois, por volta de 2018, para o país inteiro, quando MC Loma, na época com 15 anos, lançou a canção Envolvimento. Em janeiro, quando se aproximava o Carnaval, quatro músicas produzidas por JS estiveram entre as mais tocadas no Spotify durante o mês.

 

Para JS, fazer uma versão em brega-funk das sinfonias de Beethoven é a oportunidade de ter seu trabalho levado a sério. Dado o peso da responsabilidade, ele redobrou o cuidado na produção. “Eu tinha que deixar com a minha cara, mas sem perder a cara do Beethoven. Ouvi muitas vezes as sinfonias antes de começar a cortar as partes que iria utilizar”, disse o produtor, portando barba, sobrancelhas e cabelos aparados “na régua”, como se diz na gíria do mundo do funk.

Depois de ouvir cada sinfonia doze vezes, JS começou a mixagem. A versão de cada uma levou cerca de seis horas para ficar pronta. “Na Quinta Sinfonia comecei procurando a parte mais conhecida, que é aquele pam-pam-pam-paaam, tam-tam-tam-taaam…”, descreve, referindo-se ao conhecido motivo inicial do primeiro movimento (com as notas sol-sol-sol-mi bemol, seguidas de fá-fá-fá-ré).

Em seguida, o produtor foi acrescentando os toques mais característicos do brega-funk. Não se esqueceu do instrumento da avó Maria, mas, com o sucesso dos trabalhos recentes, achou melhor trocar de panela. “Usei uma outra aqui no estúdio, com uma captação melhor do que a panela que tinha na minha casa, lá no Recife.”

Com a Nona, o processo de produção foi parecido, mas ele conta que puxou a versão para uma batida mais eletrônica, com referências ao reggaeton. “Foi uma sensação bem diferente fazer o remix de músicas que o mundo inteiro conhece. Nunca tinha sentido isso”, disse JS. Por ter trabalhado a partir de um patrimônio universal, ele acredita que Beethoven pode levar o brega-funk para além das fronteiras do Brasil.

A recriação por JS da Nona Sinfonia foi lançada no dia 14 de agosto e a da Quinta Sinfonia pode ser ouvida nas plataformas digitais desde 31 de julho. Neste divertido remix, pouco depois de soarem as cordas do primeiro movimento, carregadas de uma “aspiração ardente e indizível”, como descreveu o escritor E.T.A. Hoffmann, explodem com brio as batidas radicais de uma colher numa panela.

Emily Almeida

Repórter da piauí

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