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Blim-blom: compras natalinas tranquilas

O centro comercial mais seguro de São Paulo é uma feira em que rola de tudo

Dorrit Harazim
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2006

Com R$53 bilhões de reais do 13º salário bombando a economia natalina, qualquer biboca com algo para vender tende a fervilhar em dezembro. Não poderia ser diferente na Feira do Rolo de São Mateus, o mais novo fenômeno comercial de São Paulo. A Feira do Rolo é o terceiro mundo do consumo paulistano. O primeiro é o dos 66 shopping centers da Grande São Paulo, que atendem um público disposto a pagar caro pela segurança privada. O segundo mundo é o da Rua 25 de Março, que até meados do século XIX era um trecho do rio Tamanduateí, posteriormente drenado, e se transformou no maior centro comercial a céu aberto da América Latina. Em vésperas de festa, a cada dia, mais de 1 milhão de pessoas se espremem entre as 4 mil lojas, estandes e camelôs da “25”. Um levantamento recente revela que essa freguesia é mais eclética do que sugeriam as aparências – 58% dos caçadores de barganhas nessa muvuca de comércio popular pertencem às classes A e B.

A Feira do Rolo é mais novinha. Nasceu no asfalto de uma avenida da periferia há menos de vinte anos, se esparrama por uma área de quase seis quilômetros, tem regras disciplinares severas, só abre aos domingos e sua clientela, vinda do ABC e das cinco favelas que a circundam, é flex: atua ora como compradora, ora como vendedora. Quem entra na Feira com algo na mão não precisa fazer ou falar nada: é tido como certo que está vendendo o objeto (ou animal). Um cidadão idoso que transitava pela avenida com uma mala tamanho grande conseguiu se livrar dela por 15 reais.

Exemplo de como se fecham negócios nesse pedaço do país: “Quanto?”, pergunta o alagoano Francisco, apontando com o queixo para a máquina caseira de moer cana, responsável pelo caldo que acabou de comprar por R$0,50.

“Dois e meio”, responde o dono, enquanto atende outros fregueses postados à frente do tablado.

“E o ponto?”, quer saber Francisco, que mora em Heliópolis, trabalha numa metalúrgica durante a semana, e procura uma fonte de renda adicional para sustentar a família de três filhos. O “ponto”, no caso, é uma área de dois metros quadrados, demarcada com piche no asfalto da avenida, de onde o dono opera sua “lanchonete”, um tablado sobre cavalete, copos de plástico, cana e moedor. Tudo a céu aberto.

“Dá uns quinhentos, mais uns quinze por mês pro pessoal aí”, responde o dono.

“É meu”, diz Francisco, que baixou na Feira como freguês num domingão ensolarado de novembro e dela saiu como proprietário de um novo negócio. Pagou R$ 2.500,00 trocando menos de dez palavras.

 

Falar pouco, e perguntar menos ainda, é o combustível que alimenta a Feira do Rolo de São Mateus, também conhecida como Feira de Ladrão. Componentes eletroeletrônicos e peças automotivas compõem o grosso dos quilômetros de mercadorias geometricamente alinhadas no chão da avenida principal e ruas adjacentes. Mas é a variedade de ofertas e seu modo de operação que atrai o paulistano expelido do comércio formal. Uma breve amostra do ecletismo do pedaço: – 1 copo de liquidificador Walita, sujo e quebrado, saiu por 50 centavos para uma freguesa que precisava substituir a alça do copo que tem em casa.

– 1 filhote de Rottweiler com Pitbull, 50 reais o macho, 20 a fêmea.

– 1 Micro-System Sanyo que não funciona, 35 reais.

– 1 banheira de plástico para hidromassagem, 70 reais.

– 1 leitão para criar, 50 reais.

– 10 dvds por 10 reais.

– 1 capacete de pedreiro da Sempro, usado, 3 reais.

 

Embora uma visita à Feira faça parte do programa de famílias domingueiras sem prontuário, o grosso dos negócios é feito por “intrujões”, gíria policial que designa quem compra e vende material roubado. O 49o Distrito Policial da capital, aliás, fica a menos de 300 metros dali, no alto de um outeiro, com vista total para os quilômetros de mercadorias.

“A Civil só passa a pé pela Feira”, esclarece um freqüentador assíduo. “E, mesmo assim, só para fazer a sua própria comprinha.” A única autoridade que faz marcação cerrada na Feira é a Polícia Ambiental, que vem com viatura, cheia de moral, e é respeitada. Mas o pessoal tem solução para tudo. Uma gaiola vazia no asfalto pode indicar que o dono tem estocado alguma tartaruguinha, passarinho ou animal silvestre.

Tudo na Feira do Rolo de São Mateus flui manso, sem a gritaria dos camelôs da 25 de Março. As abordagens são sempre em tom cauteloso e civilizado. Brigas são rigorosamente proibidas, pois ninguém ali quer chamar a atenção. Numa manhã de novembro, um pivete tentou arrombar um carro estacionado na “zona intocável” do escambo e acabou com o braço preso nos vidros da janela. Gritava e sangrava como um animal. Foi salvo do linchamento por policiais que abriram caminho na marra. Se aparecer novamente no pedaço, não sairá vivo. Afinal, o espírito natalino não pode ser perturbado por arruaceiros.

Dorrit Harazim

Dorrit Harazim é jornalista. Foi editora de piauí de 2006 a 2012

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