esquina

Bom de bico, bom de voto

O sabiá-laranjeira sai na frente contra a suçuarana

Bruno Moreschi
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL

O encontro havia sido preparado para divulgar à imprensa os resultados da inspeção veicular em São Paulo, mas Eduardo Jorge Martins Alves Sobrinho, o secretário municipal do Verde e do Meio Ambiente, achou que era a hora e o lugar para tratar de outra coisa. Desfazendo a roda de jornalistas em torno do prefeito Gilberto Kassab, abriu um sorriso e disse: “Quero aproveitar a oportunidade para declarar meu apoio a uma inusitada candidatura nessas eleições.” Caras desentendidas, a de Kassab entre elas. “É com alegria e confiança que estou apoiando a suçuarana”, declarou.

“Ah, bom”, entendeu o prefeito, ciente de que seu secretário trabalhava desde o início pela onça. Naquela manhã, Eduardo Jorge se referia à eleição do animal que será adotado como símbolo de São Paulo. A temporada de caça aos votos havia sido aberta em 18 de junho, pelo próprio Kassab, e se estenderia até 27 de setembro. Para votar, era preciso entrar no site oficial da biodiversidade paulistana e responder à seguinte pergunta: “Qual bicho tem a cara de São Paulo” O resultado da votação sai agora, no final de outubro.

Os concorrentes foram escolhidos a partir de uma lista de 700 vertebrados e invertebrados de existência documentada na cidade. Um colegiado composto por técnicos da Divisão de Fauna da Secretaria, representantes da ONG SAVE Brasil e pesquisadores do Museu de Zoologia, do Instituto de Biociências e do Instituto Butantan, todos ligados à Universidade de São Paulo, avaliou os prós e contras dos 700 bichos paulistanos e, depois de três reuniões e alguns e-mails acalorados, pinçou quinze nomes. Para ajudar os cidadãos a fazerem uma escolha consciente – os urbanoides são uns ignorantes na matéria –, cada bicho mereceu no site uma fotografia e um curto parágrafo sobre suas relações com a metrópole.

Com oito candidatos, as aves dominavam o elenco de opções. A ficha técnica do pica-pau-de-banda-branca informava que ele é favorecido pelo ufanismo de sua plumagem – branca, preta e vermelha, as cores da bandeira bandeirante. O beija-flor-tesourão “bate as asas com grande velocidade, ritmo digno de um morador da cidade de São Paulo”, e não quer saber de vizinho. Se encostam a asa no território dele, compra briga com marmanjo duas vezes maior. (Entenderam, mineiros, paranaenses, goianos e fluminenses?)



Mas se coragem for documento, prepare-se o periquito-rico para perder de lavada. Quando fareja encrenca, esse passarinho vai voando esconder suas penas verdes na folhagem mais próxima. Ali fica, mortinho da silva, pode moitar por horas. Na categoria concorreram também o carcará, rapina associada ao Nordeste que vem se dando muito bem na cidade, e quatro clássicos que dispensam apresentação: o sabiá-laranjeira, o tico-tico, o bem-te-vi e o joão-de-barro. Pombas e rolinhas, essas pragas, felizmente ficaram de fora.

Mamíferos compareceram com quatro representantes: o saruê, uma espécie de gambá, parente longínquo dos cangurus e excelente escalador de árvores; o bugio, macaco cujo ronco se ouve de longíssimo; o caxinguelê, esquilinho simpático; e a predileta do secretário, a suçuarana, o segundo maior felino brasileiro, dotado da grande qualidade de estar no topo da cadeia alimentar da Grande São Paulo. Prevendo reclamação de eleitor alegando jamais ter trombado com onça ou bugio na cidade, a prefeitura avisou que autorizara a candidatura de qualquer habitante das reservas naturais na região metropolitana.

Um réptil e dois anfíbios fechavam a lista: o papa-vento, lagarto inofensivo que pode atravessar o caminho do maratonista no Parque do Ibirapuera; a rã-de-vidro, dona de uma linda barriguinha transparente; e a perereca-flautinha, uma graça também, com aquele olhão laranja arregalado saltando do corpo verde-limão.

Inescapavelmente, surgiram dúvidas quanto aos candidatos e à votação. Para dirimi-las e garantir tranquilidade ao pleito, a Secretaria designou a diretora da Divisão de Fauna, Vilma Geraldi. Chamou a atenção, por exemplo, o grande número de aves candidatas. Vilma, experiente como um juiz do TSE, já foi respondendo antes de ouvir a pergunta: “As aves são maioria nas cidades grandes. Como conseguem voar, ficam livres de carros e pessoas, e por isso é natural que tenham mais representantes na eleição.”

Também a exclusão de certos nomes foi objeto de questionamento. Veja-se a capivara, que tem estômago para viver nas marginais dos rios Pinheiros e Tietê. Estimativas do governo estadual indicam que no mínimo 150 delas radicaram-se nas proximidades daquelas vias expressas. Segundo a Companhia de Engenharia de Tráfego, este ano capivaras na pista provocaram 44 acidentes automobilísticos em São Paulo. A pergunta se impunha: Por que não deram uma banana para o bugio e a vaga para essa heroína urbana?

“Ela nem estava na lista inicial entregue aos especialistas que selecionaram os candidatos”, disse Vilma Geraldi. A resposta sugere descaso com o maior roedor herbívoro do mundo. Vilma se condói: “É uma pena ela não estar na disputa. A capivara vive bem em São Paulo.”

 

Vilma acompanhou o secretário Eduardo Jorge e escolheu a suçuarana como favorita. O motivo foi um só, ela disse: compaixão. É que a bichinha precisa de quilômetros de mata para viver e se reproduzir. Ou seja: ser onça em São Paulo exige matar um leão por dia.

Os votos registrados pelo site até a terceira semana de setembro indicavam que, também quando se trata de criaturas do reino animal, um providencial empurrão governamental tem sua serventia. Ocupando a quarta posição, a protegida do secretário podia se achar um milagre, porque em que país do mundo uma onça chegaria tão perto de ser eleita rainha da selva de pedra?

Até ali, vencia a disputa o sabiá-laranjeira. De um total de 30 179 votos, havia recebido 6 455. E quem foi que lhe deu o voto inaugural da urna eletrônica? Justamente o prefeito Kassab, outro sentimental. No lançamento do concurso, o prefeito assumiu ares republicanos e disse que “qualquer escolha seria muito apropriada”. Com o sabiá, entretanto, ele e todos nós teríamos uma ligação pessoal: “Desde criança, aprendemos a conhecê-lo. É algo que marca qualquer brasileiro.”

Mas seria injusto atribuir ao apadrinhamento a vitória do sabiá. Ele é um passarinho de voz própria e tem presença forte em praças, parques e jardins. Oferecendo-se ao convívio, o sabiá com frequência faz seu ninho perto das janelas de casas e apartamentos, numa gentileza a que os paulistanos não estão acostumados.

Interessante é que até o início de setembro a disputa vinha acirrada entre ele e o bem-te-vi, separado por meros 200 votos do primeiro lugar. De repente, na primeira sexta-feira do mês, foram-se as esperanças de virada. Num único dia, o laranjeira recebeu 900 votos. Como a urna eletrônica não limitava o número de votos por computador, especulemos: naquele dia 3, uma manhã ensolarada e poluída, um paulistano qualquer acordou, abriu a janela do quarto, viu um ninho de sabiás cheio de sabiazinhos, comoveu-se de todo e não teve dúvida: desandou a votar.

Bruno Moreschi

Bruno Moreschi, jornalista e artista plástico, é coautor de 501 Grandes Artistas, da Sextante.

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