esquina

Brasil ou algo assim

A vida numa região da fronteira contestada pelo Uruguai

Maurício Brum
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2013

Era uma noite tranquila de maio. Dos dois lados da divisa, as famílias aguardavam um capítulo crucial de Salve Jorge. Na rua vazia, ouviam-se apenas latidos de cães e gargalhadas vindas da residência estudantil. Yony Ferreira não acompanhava a expectativa geral. Ainda procurava na internet as últimas notícias para seu programa noturno de rádio. O apresentador tocaria música no início e, quando a novela terminasse, entraria com as novidades do Uruguai para informar os moradores de Masoller sobre o dia no país.

Mas o programa não seguiu o roteiro. O celular do apresentador tocou e uma voz apressada o avisou de que uma grávida do lado brasileiro da fronteira estava em trabalho de parto. A vila Thomaz Albornoz, nos limites do município gaúcho de Sant’Ana do Livramento, fica a menos de 100 metros de Masoller. Basta avançar por uma estradinha de chão que leva o nome de Caminho Internacional. Além de locutor, Yony Ferreira é o único enfermeiro entre os cerca de 300 habitantes das duas comunidades contíguas. Prontamente, atendeu o chamado.

“Oficialmente, não posso cuidar dos brasileiros”, disse em sua sala na policlínica do povoado uruguaio, uma casa baixa de paredes caiadas, como quase todas das redondezas. “Mas se eu digo não a alguém, não nego ajuda a um estrangeiro: estou negando atendimento a um vizinho.” Então Ferreira atravessa o Caminho Internacional com o paciente, levando o caso para a jurisdição uruguaia. Com um telefonema, ele faz a ambulância vir com as sirenes ligadas desde Tranqueras, a cidade mais próxima, a uns 32 quilômetros.

 

A vila Albornoz surgiu da vontade brasileira de garantir a posse daquele pedaço de chão. Por toda a extensão da fronteira seca, o limite entre os dois países é sinalizado por marcos posicionados na metade do século XIX, depois que a linha divisória deixou de ser desenhada por guerras. São 1 169 marcos de diferentes tamanhos ditando a soberania das terras entre a foz do arroio Chuí, no extremo sul do Brasil, e o canal do rio Uruguai, no oeste gaúcho.



Em 1934, os uruguaios endossaram a suposição de que o marco 49-I, em frente a Masoller, estaria mal colocado. A comissão binacional que delineou a divisa teria seguido o braço errado de um curso d’água, dando 22 mil hectares a mais para os brasileiros. Desde então, a tese do “erro demarcatório” reclama para o Uruguai a área administrada pela prefeitura de Livramento – a última fronteira seca contestada do Brasil. Num arroubo para acabar com o nó diplomático, o governo João Figueiredo requisitou parte de um latifúndio para povoar a zona e mantê-la sob domínio brasileiro.

Em poucos dias ergueram-se uma escola primária e uma caixa d’água onde só havia pasto, e com elas a vila Thomaz Vares Albornoz. O nome homenageia o patriarca da família que cedeu as terras onde cerca de 120 pessoas – incluindo uruguaios – vivem em regime de comodato. Já a escola municipal chama-se General Bento Gonçalves, líder militar na Revolta dos Farrapos, que chegou a invadir o Uruguai algumas vezes.

Desde a fundação da vila em março de 1985, no entanto, o interesse do Brasil pela região diminuiu. “Isso aqui é um abandono total”, definiu Nilson dos Santos, que, como a maioria dos homens de Albornoz, vive de “changas”, bicos eventuais nas estâncias vizinhas. Há poucas alternativas de emprego. Quando não está no campo, Santos ajuda a mãe no balcão do Varejão Macanudo, armazém que aceita animais vivos como pagamento.

“É difícil repor estoque. Não podemos transportar carga na estrada uruguaia e precisamos usar a nossa, que não tem nem ponte”, reclamou. “Se chove demais, até minha Toyota tracionada atola.” Há duas vias no lado brasileiro, ambas de terra. A mais curta atravessa vários córregos e fica intransitável nas cheias. A outra é um zigue-zague pedregoso que entra e sai do país até encontrar a BR-293. Levam-se mais de quatro horas para vencer 70 quilômetros.

A falta de vigilância nas estradas chegou a estimular o contrabando no passado, mas o caminho piorou tanto que inviabilizou o negócio. Hoje, o que mais prospera na vila é a prostituição, atuante na metade brasileira para fugir das obrigações e taxas cobradas no Uruguai dos praticantes do ofício. Vale mais trabalhar no Brasil e usar os serviços uruguaios sem pagar imposto por eles.

 

Masoller tem asfalto. A Ruta 30 passa em frente ao povoado e se conecta à Ruta 5, que termina em Montevidéu. É pela estrada uruguaia que a única professora da escola Bento Gonçalves vai dar aulas. Mas as matrículas em Albornoz raramente passam de quinze crianças, enquanto o liceu rural do país vizinho mantém mais de oitenta alunos.

“Minha filha estuda no Uruguai”, contou Santos. “Eles aprendem mais rápido lá. Ela ganhou até notebook da escola para usar em casa.” Os serviços uruguaios se tornaram onipresentes. As ocorrências são registradas no posto policial de Masoller e, como não há sinal brasileiro no celular, todos usam chip estrangeiro. Ligações para Livramento viraram internacionais. A vila volta a ser Brasil quando o Exército baixa de helicóptero para seus mutirões anuais de ações sociais – ou quando chega a conta de luz, pontual e firme na cobrança da taxa de iluminação pública, mesmo que não se veja sequer uma lâmpada nos postes.

A presença brasileira mais constante se dá pela televisão. Dos dois lados, as parabólicas só recebem canais do Rio de Janeiro e de São Paulo. Foi essa interferência cultural que motivou o enfermeiro Yony Ferreira a se tornar locutor de rádio, criando a emissora comunitária que opera há cinco anos com o apoio da Unesco, a organização da ONU para a educação e a cultura.

“Nossas crianças já sabem que o presidente do Uruguai é Mujica, e não Lula ou Dilma. Também pararam de torcer pela Seleção Brasileira”, festejou Yony. “Só não conseguimos bater a popularidade das novelas da Globo.”

Maurício Brum

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