esquina

Campeões mundiais, uni-vos!

Os conchavos do pessoal de 58, 62, 70, 94 e 2002

Fábio Fujita
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2010

Dadá Maravilha olhou para a multidão de goleiros à sua frente e não piscou: “Eu faria gol em todos vocês.” Ele se dirigia a Félix, Ado, Taffarel, Zetti e Gilmar Rinaldi, num encontro que, só pelo ineditismo, já mereceria ficar na história. Talvez por isso, Dadá tenha aproveitado para desafogar a onipotência que contribuíra tão de perto para torná-lo um dos mais eficientes atacantes do futebol brasileiro de todos os tempos. A reunião, ocorrida em 2006, inaugurava as atividades da Associação dos Campeões Mundiais de Futebol do Brasil, fundada para congregar um seleto grupo de pessoas que, a partir de 2002, deu a cada brasileiro o direito de sacanear um argentino com o berro gratuito de Penta-cam-pe-ão!

A associação nasceu para mitigar a desventura de vários campões do mundo. Em 2000, o goleiro Gilmar dos Santos Neves (1958/1962) sofreu um AVC, infortúnio que, por essa mesma época, também pegou o zagueiro Orlando Peçanha (1958). Bellini, companheiro de zaga de Orlando, vinha sofrendo de Alzheimer. Diante desse quadro sombrio, o filho de Gilmar, Marcelo Neves, achou que era preciso fazer alguma coisa. Organizou uma exposição itinerante com relíquias pessoais dos ex-campeões, promoveu um leilão de bolas assinadas por celebridades do naipe de Pelé, Giorgio Armani e Adriane Galisteu, montou uma loja virtual de camisas dos escretes campeões, virou, mexeu e enfim tirou algum leite de pedra para ajudar os ex-atletas em precisão – e outros nem tanto, como se verá.

Filho do goleiro que trancou o gol do Brasil nos mundiais de 1958 e 1962, Marcelo aprendeu bem cedo que santo de casa não faz milagre. Entre um volante perna-de-pau do momento e um fino jogador do século XX, o torcedor brasileiro tende a não pensar duas vezes e, feito amante de filme em estação de trem, provavelmente se atirará com o coração palpitando nos braços do pereba. Gilmar recebe pelo menos vinte cartas por mês de torcedores. Infelizmente, quase todos são gringos, admiradores que costumam enfiar no envelope fotos do goleiro que o próprio filho desconhecia.

“No verso, quase sempre eles indicam o lugar onde o pai deve dar o autógrafo”, conta Marcelo. “Muitos pedem que ele autografe também uns pedacinhos avulsos de papel, provavelmente pra trocar com outros colecionadores.” A coisa é tão direita que às vezes vem até um dinheirinho anexado. Os fãs, boa parte deles da ex-Tchecoslováquia, adversária do Brasil na Copa de 62, têm a gentileza de não esquecer que ir ao correio exige transporte e que selo não nasce em árvore.

Não se pense que isso é saudosismo ocioso de um punhado de velhinhos perdidos nos Cárpatos. Em 2006, a convite da Fifa, os campeões dos sete países que já ganharam a Copa do Mundo foram a Munique receber homenagens. Do lado de fora do hotel, torcedores de diversas gerações disputavam autógrafos de gente como Franz Beckenbauer e Gerd Müller. Marcelo estava lá como representante do pai. Sensato, imaginou que seria uma sardinha sem graça em meio ao exuberante cardume de peixões. Enganou-se. “Quando saí, fui cercado por umas vinte pessoas que tinham álbuns do meu pai. Eu estava na Alemanha, era só o filho de um campeão, e mesmo assim fui reconhecido.”

Empresas esportivas também costumam não se esquecer dos campeões do mundo, mas nem sempre se lembram de avisá-los. Certa vez, ao entrar na filial paulistana da Nike, atual fornecedora dos uniformes da seleção brasileira, Marcelo Neves foi surpreendido pela decoração das paredes. Eram grandes fotos de Zito (1958), Zózimo (1958/1962) e seu pai, Gilmar. “Falaram que era uma homenagem. É sempre homenagem”, lamenta. O problema é particularmente doloroso para os que tiveram a pouca sorte de serem muito bons antes que a fama se traduzisse em contracheques – digamos, quase todos do tricampeonato 58/62/70.

 

São 81 campeões mundiais brasileiros vivos, e todos foram contatados pela associação. A adesão não foi universal. Esteja onde estiver, o zagueiro reserva de 2002, Anderson Polga, poderá dizer aos admiradores que esse é mais um ponto em comum entre ele e Pelé. Polga não deu retorno. Já Pelé exige luvas de pelica, pois é um legítimo “caso especial” – sua filiação poderia gerar atritos com empresas que exploram sua imagem. Vários exigiram perícia de detetive para serem localizados. O atacante botafoguense Amarildo (1962) se filiou há menos de um ano, depois de viver trinta anos na Europa. O meia Moacir (1958) mora há décadas no Equador.

Mais difícil do que eles, só Belletti (2002), que tem endereço conhecido e cujo esforço na lateral direita pode ser acompanhado todo fim de semana pelos canais que transmitem o campeonato inglês. Como aos outros jogadores que entraram para o grand monde do futebol internacional, chega-se a Belletti depois de vencer uma constelação de intermediários. Conforme a última orientação recebida por Marcelo, o melhor era que a proposta de filiação fosse endereçada à administração do estádio do Chelsea, clube londrino pelo qual Belletti joga atualmente. Com Kaká (2002) foi bem mais simples. Ele já pediu a ficha de inscrição.

A turma de 1994 reúne o pessoal que mais tem suado a camisa pela associação. O ex-atacante Paulo Sérgio, por exemplo, não titubeia antes de calçar as chuteiras para participar de peladas promocionais com renda revertida para os jogadores em situação precária. “Ele está muito bem de vida, soube guardar dinheiro quando jogou na Alemanha. Mesmo assim, pelos outros, ele joga bola com a gente”, conta Marcelo.

Existem os céticos, como o atacante Tostão (1970), que não se filiou. Ele tem reservas quanto a alguns objetivos da associação, tais como o pagamento de um prêmio de 100 mil reais à turma de 58, 62 e 70 e uma aposentadoria de 3 mil reais depois dos 60 anos para cada campeão do mundo – inclusive os de 1994 e 2002 –, medidas que contam com o apoio do governo federal. Tostão abriu mão dos dois benefícios. Entre outras razões, por considerar que elas são um precedente para que campeões mundiais de outros esportes passem também a reclamar dinheiro público. O contra-argumento de Marcelo é que, até 1970, a profissão de futebol não era regulamentada e que os jogadores de 58, 62 e 70 não tiveram aposentadoria. Resta encontrar uma boa explicação para o espetáculo espaventoso de potentados como Ronaldinho Gaúcho (2002), Ronaldo Fenômeno (1994/2002) e Kaká, para citar só alguns, recebendo 3 mil reais da Viúva quando chegarem à terceira idade. Isto, se aceitarem, claro.

No final de março houve a primeira eleição da entidade, com chapa única. Em meio ao jogo de vaidades, escolheu-se o lateral direito Carlos Alberto Torres (1970) como presidente de honra – “Vou requerer a minha aposentadoria” – e Marcelo Neves como presidente-executivo. Único presidente até aqui, Marcelo se via um tanto deslocado na função. Ser campeão do mundo é bem diferente de ser filho de campeão do mundo. “Campeão mundial olha de outra maneira para quem não é”, diz com resignação. Não se pode censurá-los por isso.

Fábio Fujita

Fábio Fujita é jornalista baseado em São Paulo.

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