esquina

Canudenses

Eles estão na dança há mais de cem anos

Roberto Pompeu de Toledo
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL

Com o som no último volume, o forró avança. Aparentemente, nada de mais – só outra festa nordestina em São Paulo, a mais nordestina das cidades brasileiras. Sim, esta festa pode até se parecer com as outras, mas gente que a frequenta tem uma característica especial. O que ocorre neste domingo, 14 de novembro, véspera de feriado, no salão alugado a um clube em Pirituba, na Zona Norte da capital paulista, é a décima edição do Encontro dos Canudenses e Amigos em São Paulo. “Canudenses”, para quem ainda não se deu conta, são os nativos de Canudos, no nordeste da Bahia. Ou seja: quem se mexe na pista são os filhos dos filhos dos filhos dos filhos dos crentes e dos jagunços que formavam o povo de Antônio Conselheiro.

O evento é uma promoção da UPIC – União pelos Ideais de Canudos –, entidade já com dezessete anos de vida, fundada pelos canudenses de São Paulo. O sertanejo é antes de tudo um festeiro, como se sabe – daí decorre que o pagode e o axé constituam-se no ponto central do encontro. Mas, como se trata de sertanejos originários de local tão carregado de história, entre um barulho e outro pode se interpor um momento mais calmo e reflexivo, como aquele em que Bião de Canudos entoou suas bonitas canções, com letras alusivas ao passado trágico e aos heróis da guerra de 113 anos atrás:

Sou velho de itinerários
por onde passaram
o Conselheiro e Lampião.

Sou as marcas que ficaram,
de João Abade, Pajeú e Pedrão.

Este ano, pela primeira vez, o evento teve a presença de atrações vindas de Canudos. É o caso de Bião, que, apesar de já alçado à fama regional – ele até teve que deixar a festa cedo, porque no dia seguinte receberia um prêmio em Salvador –, continua a viver na cidade natal.

Graças à ajuda da prefeitura canudense e da Universidade do Estado da Bahia, um ônibus trouxe 43 pessoas lá da terra. Além dos músicos, vieram cultores de outras manifestações artísticas. O grupo teatral Ser Tão Guerreiro encenou episódios da guerra. O poeta José Américo Amorim declamou seus versos. A maioria dos presentes, jovens de pele morena, gosta mesmo é de dançar, mas – calma! –, há tempo para tudo: a festa começou às 14 horas e promete varar a madrugada.

Os dirigentes da UPIC possuem histórias pessoais que se entroncam com o período da saga conselheirista. O bisavô de José Alôncio Ferreira, de 43 anos, um dos fundadores e atual presidente da entidade, foi compadre de Antônio Conselheiro. José Alôncio veio criança para São Paulo, acompanhando a mãe, que arranjara emprego numa indústria metalúrgica. Ouviu desde pequeno a história de que o bisavô, Serafim Santana, tivera o primeiro filho batizado pelo Conselheiro. A certa altura, entre um comentário e outro sobre a cidade natal, deu-se nele o estalo: “Esta é a minha história! Preciso entendê-la melhor.” Tal curiosidade está na origem do trabalho de agregar a colônia canudense em São Paulo.

O avô de João Evangelista Régis, de 63 anos, vice-presidente da UPIC, era de Pombal, pouco mais ao sul, mas à passagem do Conselheiro resolveu segui-lo e fixou-se em Canudos, onde se casaria e viveria até quase o final da guerra. João Evangelista veio há quarenta anos para São Paulo, acompanhando o pai, que necessitava de tratamento de saúde. Não voltou mais. Ou melhor: volta sempre, especialmente para as festas de Santo Antônio, as mais animadas da terra (Antônio era o nome do Conselheiro), mas para morar elegeu São Paulo.

João Evangelista é sobrinho de João de Régis, figura muito conhecida entre historiadores, jornalistas e outros interessados em ouvir de viva voz histórias com origem em participantes da epopeia conselheirista. Até morrer, em 2002, aos 95 anos, João de Régis contou e recontou, a quem o visitasse na humilde casa em Canudos, a história de seu pai (e avô de João Evangelista), Reginaldo José de Matos. Um dia, já na fase final da guerra, Reginaldo saiu do arraial para buscar farinha, artigo já em falta. Quando quis voltar, não conseguiu. O cerco das tropas governamentais se completara. Foi o que o salvou do massacre que veio a vitimar os que ainda resistiam.

 

Quantos canudenses vivem em São Paulo? Os cálculos variam entre 1 500 e 3 mil. Pela festa, bem contadas na bilheteria, passaram 1 435 pessoas. Nem todas seriam canudenses, ou filhas de canudenses. Mas José Alôncio e João Evangelista garantem que a maioria teria origem, se não em Canudos, nas cidades vizinhas – Uauá, Euclides da Cunha (a antiga Cumbe) ou Monte Santo, todas elas com algum papel na guerra em que a jovem República brasileira jogou suas armas e sua honra contra a “Troia de taipa”, como Euclides chamou o tosco arraial dos beatos. Se forem 1 500, já são muitos – 10% dos 15 mil habitantes da Canudos de hoje em dia.

Chamá-la de “Canudos de hoje em dia” tem suas razões. É uma cidade nova, terceira versão da original, e nem no mesmo local que a primitiva se situa. A primeira Canudos foi queimada pelo Exército. A segunda teve início quando o governo passou a permitir que grupos de sobreviventes voltassem a se instalar no lugar e conheceu seu fim quando, em 1969, a área em que se situava foi inundada para dar origem ao açude de Cocorobó. A população foi deslocada para um ponto a 10 quilômetros de distância. É esta a “Canudos de hoje em dia”. O que ela tem em comum com a dos tempos do Conselheiro é a persistente pobreza. Seu PIB per capita está na casa dos 2 700 reais, menos da metade do da Bahia como um todo (7 800).

Entre os convidados que vieram de fora estava o professor Luiz Paulo Neiva, que dirige, na Universidade do Estado da Bahia, o Centro de Estudos Euclides da Cunha, voltado para os problemas de Canudos e região. A certa altura Neiva foi chamado ao palco. Ele deveria falar das últimas iniciativas do centro. A música parou, mas não o vozerio, tão alto que era impossível se fazer ouvir. Neiva desistiu. É por causa dessas coisas que Alôncio desabafa: “Estou pessimista com relação aos jovens.” Ele acha que eles não se interessam pelo passado. O juízo talvez seja precipitado – o interesse pela história costuma florescer em idade mais madura. Esperemos que os jovens atendam ao célebre conselho de Nelson Rodrigues: “Envelheçam!” Enquanto isso, ganha o axé. A festa foi até as seis e meia da manhã.



Roberto Pompeu de Toledo

Roberto Pompeu de Toledo, jornalista e escritor, é colunista de Veja. Publicou A Capital da Solidão: Uma História de São Paulo das Origens a 1900 e o romance Leda, ambos pela Objetiva.

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