esquina

Canudos a granel

A arte de organizar a gandaia dos estudantes

João W. Cury
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2007

Um cordão de quinze seguranças perfilados à entrada do pavilhão de exposições Center Norte, na capital paulista, aguarda os 7 mil convidados da noite. Entre essa guarda pretoriana e a massa engalanada, há um portão de tela metálica. Dá-se o aviso e, ao toque de um botão, o portão começa a subir. A massa se move, avançando a passos miúdos. São damas e demoiselles de longo, salto agulha e bolsinha de festa, arrastando consigo uma névoa de perfumes conflituosos. Vários cavalheiros de terno e gravata carregam caixas de bebida. Os seguranças também se movem, mas apenas dois passos e para trás. Munidos de aparelhos portáteis de luz-negra, aptos a distinguir os ingressos verdadeiros dos falsos, eles checam cada convite e revistam todo mundo. Nessa noite, são encontradas vinte armas de fogo. Como não há cofre, anota-se o número de série de cada uma, verifica-se o porte e o registro e devolve-se o artefato ao dono, geralmente delegado de polícia, juiz ou promotor, perfil comum a pais de formandos de direito. Ao todo, são 120 seguranças que circulam pelos 3 mil metros quadrados do lugar.

O espaço é demarcado por um tecido sintético branco, à semelhança de um harém. Do teto parece pender uma armação metálica em forma de retângulo, na qual se penduram vinte canhões de laser, onze globos espelhados e luzes estroboscópicas. Tudo nos conformes para dar ritmo à noite. Dois palcos – um de 40 metros de boca, outro de 15 – recebem as bandas que levarão a festa até a manhã seguinte.

Estamos na festa de formatura da “175ª turma da Faculdade de Direito do Largo São Francisco, da Universidade de São Paulo, em seu 180º ano de fundação”, como anuncia incansavelmente o mestre-de-cerimônias. Uma fatia nada desprezível do que será a elite advocatícia do país.

Aberta a comporta, começa um renhido pega-formando. Quarenta fotógrafos disputam o direito de registrar o sucesso dos diplomados e respectivas famílias. Trata-se, na prática, de uma corrida contra o relógio, pois ninguém sabe quanto tempo durará a disposição e a sobriedade dos convivas. Na concorrência pelo melhor lugar na festa – quanto mais próximo das duas pistas de dança, mais cobiçado o lugar -, pais, avós, padrinhos e agregados de formandos submetem-se de bom grado ao atropelo. Em outras circunstâncias, talvez detestassem passar a madrugada assistindo ao agito da juventude. Rapazes e moças de 20 e poucos anos, de gravata enrolada na cabeça, óculos coloridos e plumas artificiais compradas em camelô, dançam freneticamente ao som de bandas obscuras. Mas as famílias agüentam em estado de graça, quase abraçadas às caixas de som. Parecem tomadas por uma mesma idéia:”Até que enfim ele (ela) se formou!”.

Duas mulheres estão no comando e na dependência do sucesso da noitada: Vera Lúcia Palumbo e Andréa de Cássia Palumbo de Santis. Mãe e filha são as proprietárias de uma das maiores empresas de formaturas de colegiais e universitários do Brasil. Elas atendem direto do Tatuapé, bairro da imensa zona leste de São Paulo onde se sucedem os lançamentos imobiliários ao gosto da classe média emergente. Ambas nasceram ali, ali desabrocharam e dali não arredarão pé.

O QG de formaturas se chama Stillo’s. Escreve-se assim – com l duplo, s mudo e apóstrofo -, como se vê no logotipo que ornamenta os portões de ferro do imóvel. O prédio de 2 mil metros quadrados é rosa, debruado por faixas de pastilhas de cerâmica na cor bordô. No chão, granito. A Vênus na mesinha é de resina e a mulher no quadro a óleo pendurado na recepção sorri lânguida para quem entra. As cadeiras são revestidas de tecido de zebrinha. No teto, lustres que simulam uma chuva de cristal com gotas de vidro afixadas em hastes de latão.

Entre um ano e outro, de novembro a maio, mãe e filha organizam uma média de 400 festas, divididas em dois blocos básicos: de dezembro a fevereiro, formaturas de colégios; de dezembro a maio, formaturas de faculdades; na entressafra, entre setembro e dezembro, festejam-se as formaturas das poucas turmas que encerram o ano letivo em julho. Alguns desses eventos chegam a reunir 10 mil pessoas e duram 6 horas, a um custo de 600 mil reais cada.

Vera Lúcia, a mãe, passeia como uma pop star pelo bairro onde nasceu. Cabelos curtos, gestos em abundância, colares e pulseiras expressivos. “Comecei essa empresa na minha própria casa, por causa dela”, diz, apontando para a filha Andréa, a sucessora e herdeira única. Há vinte anos, quando Vera abriu a Stillo’s como uma empreitada caseira, o ramo das formaturas estudantis ainda era pouco profissionalizado. Até porque não havia a enxurrada de faculdades que há hoje. Foi entre 1991 e 2002 que o número de estabelecimentos particulares de ensino superior no Brasil pulou de cerca de 700 para 1 442. Só na zona leste da capital paulista, eles são doze. A Stillo’s cresceu nessa onda.

Vera Palumbo tocava a vida cuidando da casa, da filha única e do marido, Oswaldo, mecânico de máquinas de lavar roupa. Fora do lar, seu universo se estendia a obras assistenciais. O casal havia investido na escolaridade da filha e a conclusão do segundo grau merecia ser celebrada em grande estilo. Só que o colégio da jovem, na época, promovia uma simples colação de grau. “Não tive saída”, relembra Vera, “ou eu produzia a festa ou a turma ficaria sem”. Realizada num salão que atendia pelo nome de Big House, no próprio bairro, a improvisação reuniu setenta formandos e bombou. Ao longo dos dois anos seguintes, Vera organizou outras dez formaturas, sem ganhar um tostão. Decidiu então investir no ramo e fundou a Stillo’s. A reboque, deu emprego para o marido, a filha e vários conhecidos do bairro. Hoje são 119 funcionários.

Embora Vera e Oswaldo estejam separados há quatro anos, o ex-marido continua à frente da área financeira. Mas quem toca o dia-a-dia da firma é Andréa, de 36 anos. Casada e mãe de quatro filhas com idades entre 6 meses e 7 anos, a herdeira rala. “Tem noite que eu passo em dez, quinze festas, que realizamos simultaneamente, para não ter surpresas. O meu marido fica com as meninas.” Antes Andréa pensava em se formar em administração na PUC de São Paulo, mas não resistiu ao primeiro ano de faculdade: “Era tudo muito teórico e o meu negócio é ganhar dinheiro”.

Ganhou. A Stillo’s se tornou um grupo empresarial que se abre em três frentes: eventos, gráfica e uma produtora de imagens. Há oficinas de costura, nas quais são confeccionadas as becas dos formandos, laboratórios para revelação e ampliação de filmes e fotografias, ilhas de edição para finalização de vídeos em DVD e espaço para produção de arranjos florais e cenografia das festas.

Hoje um aluno de segundo colegial paga a formatura com um ano de antecedência. Em alguns casos, até dois anos antes do evento. Garantir a participação na festa, que inclui decoração, bandas de música, beca, comes e bebes, significa desembolsar 1 200 reais à vista ou 1 600 em doze parcelas. Fica de fora o pacote multimídia, com álbum de fotos e vídeo da formatura. Na última comemoração do Colégio Bandeirantes, de boa reputação na cidade, os alunos pagaram outros 1 200 reais pelo pacote de imagens. Isso significa que seis horas de festa custam aos pais algo como 2 800 reais – o equivalente a duas mensalidades escolares.

Para os organizadores, sucesso é quando tudo transcorre sem contratempos para a segurança, quando os custos da festa se mantêm dentro do orçamento e quando os 400 contratados cumprem o horário. A maioria deles permanece invisível. Trabalha nos bastidores, atrás de uma parede de tecido de lycra branco, em clima de mercado popular: fala-se alto, tem vaivém de camionetes que carregam e descarregam mercadorias, o chão é um arquipélago de grandes poças de gelo derretido. As chefias de segurança circulam para fazer a segurança da segurança, isto é, para descobrir se algum dos 120 homens e mulheres de uniforme preto não decidiu mudar de lado e passar de trabalhador a conviva. Há casos em que o segurança (geralmente quem pula a cerca do contrato social são os homens) se deixa influenciar pelo meio ambiente, arranca a gravata, faz cara de ser humano normal e vai à caça de uma formanda de ombros desnudos Se for apanhado com a boca na botija, é demitido na hora. Se não for, sempre tem a próxima vez.

João W. Cury

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