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Carro-anfíbio causa ceticismo

Splash: elegância de um pato a um custo de cinco Ferraris

Vanessa Barbara
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2006

A história dos carros-anfíbios tem capítulos surpreendentes. Um deles se desenrolou às 7 da noite do dia 2 de fevereiro de 2004, quando um Buick 1959, verde-abacate, zarpou de uma praia a leste de Havana com onze cubanos a bordo. O objetivo era atravessar os 140 quilômetros que separam Cuba da costa dos Estados Unidos. Chegando ao destino, o veículo aportaria na areia, engataria a segunda e, presumivelmente, entraria à direita na Sombrero Boulevard. Um dia depois da partida, contudo, a Guarda Costeira o interceptou a 16 quilômetros de Marathon, na Flórida. Quando as autoridades mandaram o Buick encostar, seus tripulantes e passageiros — seis adultos e cinco crianças – desceram do capô, onde tomavam sol, pularam para dentro do carro e fecharam os vidros. Ficaram ali, olhando para a frente, fingindo que não era com eles. Não deu certo. Foram presos na hora.

A Guarda Costeira pediu aos tripulantes que ajudassem a afundar o Buick. Tarefa aparentemente impossível. “Nós embutimos isopor em todos os compartimentos do carro. Se ele fosse jogado no mar de uma altura de três andares, mesmo assim boiaria”, explicou o engenheiro mecânico Luis Grass Rodriguez a uma revista americana de automóveis. Se tivessem concluído a travessia, os cubanos ganhariam o direito de permanecer nos Estados Unidos. Como isso não aconteceu, iniciaram-se os procedimentos de repatriação. Com medo de voltar a Cuba, Luis Grass e sua família conseguiram asilo na Costa Rica. Os outros foram devolvidos à ilha.

 

Para adaptar o Buick à navegação em alto-mar, o engenheiro e seu amigo Marciel Basanta Lopez gastaram 4 mil dólares. As portas do carro foram vedadas e a parte da frente ganhou uma legítima proa de aço, que os construtores tiveram o capricho de pintar do mesmo tom verde-abacate do automóvel. Propulsores ligados ao motor original do Buick, um v-8, fizeram as vezes de hélice. Os pneus foram mantidos. O leme foi controlado por cabos conectados ao volante. O anfíbio verde-abacate singrou os mares a uma velocidade de 10 quilômetros por hora.

Um mês depois, enquanto alguns dos cubanos repatriados retomavam as tentativas de boiar até a Flórida — desta vez num táxi azul, um Mercury 1948 —, a empresa suíça Rinspeed lançava Splash, o carro-anfíbio mais veloz do mundo. Com as feições de uma Ferrari, muito baixo e repleto de logomarcas, o veículo amarelo-ouro custou cerca de 2 milhões de dólares. Splash funciona à base de hidrofólios, mecanismo que eleva a carroceria a alguns centímetros da água e o faz deslizar com menos resistência e boa velocidade. No mês passado, Splash fez uma demonstração na represa de Guarapiranga, na região sul de São Paulo. O próprio inventor, o suíço Frank Rinderknecht, vestiu uma roupa de neoprene e assumiu o volante. “É um sonhador”, declarou uma assessora.



Na hora marcada para a exibição, o carro não pegou. Estacionado numa plataforma no Yacht Club Santo Amaro, Splash foi rapidamente cercado por suíços aflitos, que gesticulavam e discutiam em alemão. A tampa do capô foi aberta. Em estilo cubano, os suíços tentavam consertar a bomba a golpes de martelo. Chaves de fenda foram freneticamente manuseadas. Um membro da equipe enrolou cabos em fita silver tape, provavelmente para tapar algum buraquinho. “Parece o meu carro”, disse um fotógrafo. Márcio Dottori, consultor técnico da revista Náutica, e um dos organizadores do evento, tratou de acalmar os jornalistas. Tinha havido um problema com a bomba de gasolina, mas em menos de quinze minutos Splash estaria na água. Aproveitou para dar mais detalhes sobre o veículo: ele pesa 825 quilos, aparentemente pouco, pois é feito de fibra de carbono (“Não queríamos um submarino”), e alcança 200 km/h em terra e 80 km/h na água. Em contraste com o Buick, onde se acomodam onze cubanos, no cockpit de Splash cabem apenas duas pessoas. Em julho, o veículo bateu o recorde mundial da categoria ao atravessar em 3 horas e 14 minutos os 36 quilômetros do canal da Mancha, entre Dover (Inglaterra) e Sangatte (França). Venceu ondas de até 7 metros de altura. O mar brabo o forçou a manter uma média de 10 quilômetros por hora.

“Para um carro que vale cinco Ferraris.”, desdenhou um popular. “Joga logo na água pra ver se flutua!”, desafiou aos gritos. O problema foi finalmente resolvido. Rinderknecht entrou no automóvel, girou a chave de ignição e sugeriu aos jornalistas que tomassem um bote para acompanhar o passeio. Splash veio descendo a rampa e entrou na água com a naturalidade de um pato. Inicialmente, não fez mais do que boiar. “Ih, afogou!”, comentou um observador. “Vai ter que empurrar”, avisou um repórter mais cético. Nesse momento os hidrofólios entraram em ação: foi como se Splash tivesse aberto os braços. O carroanfíbio empinou as rodas da frente e acelerou, a 60 centímetros da água. Parecia voar. Deixou um rastro não de fumaça, mas de espuma. “Que coisa. pitoresca”, comentou o repórter de uma revista automobilística, tentando não molhar o bloquinho. Depois de inúmeras voltas pela represa, Splash estacionou no asfalto. Como um pato ou um nadador sem toalha, pingava sem parar.

O próximo projeto da Rinspeed é desenvolver um carro-anfíbio ainda mais potente. Sonhador e pragmático, Rinderknecht construirá seu novo bólido aproveitando todas as lições deixadas por Splash. É a mesma estratégia de Luis Grass Rodriguez, que planejou seu Buick a partir de um protótipo anterior, um caminhão Chevrolet 1951, de lataria também verde, caçamba coberta por uma lona amarela e dezenas de tambores de óleo vazios no papel de flutuadores. Sete meses antes do Buick verdeabacate e oito meses antes de Splash, o caminhão flutuante chegou a 65 quilômetros de Key West, onde foi interceptado pela Guarda Costeira. Foi preciso muita artilharia para afundá-lo. O anfíbio submergia e boiava, submergia e boiava, para alegria dos cubanos, que assistiam de longe e aplaudiam cada vez que ele voltava à tona.

Vanessa Barbara

Escritora e jornalista, é colaboradora do New York Times

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