tempos da peste

A casa e a espera

Na pandemia – ao contrário da guerra – o lar não é bem um refúgio

Alejandro Chacoff
O beijo sobre a trincheira: nas catástrofes, os gestos do cotidiano persistem com teimosia, e é no anacronismo e na intensidade peculiar deles que a tragédia mostra o seu rosto
O beijo sobre a trincheira: nas catástrofes, os gestos do cotidiano persistem com teimosia, e é no anacronismo e na intensidade peculiar deles que a tragédia mostra o seu rosto CREDITO: EKATERINA MIRONOVA @AW.WILLOW_ILUSTRAÇÃO INSPIRADA NA CENA DO BEIJO DO FILME A INFÂNCIA DE IVAN (1962), DE ANDREI TARKOVSKI

O diário tinha uma capa coberta com desenhos de flores e um cadeado pesado, de um dourado brilhante – proteção exagerada que parecia exigir de quem fosse escrever ali os segredos mais escabrosos. Tinha sido um presente de minha mãe. Quando um amigo o viu na mesa do meu quarto, tentou caçoar da capa afeminada, mas foi logo repelido por um outro amigo ligeiramente mais velho. “Admiro pra caramba”, esse amigo mais velho disse, sem dar muita ideia do quê ou quem devia ser admirado. Mas ele era uma espécie de autoridade no grupo, e nunca mais se falou no tal diário.

Foi bom que tenha sido assim, pois eu não sabia o que fazer com o caderno. Tudo que escrevia ali soava banal. Me entediava com a enumeração dos eventos do dia – tomei café, fui à aula, assisti tevê. Rapidamente desisti de anotar qualquer coisa, e o diário ficou jogado num canto. Depois o perdi. Um tempo antes, eu ganhara outro presente de minha mãe. Um best-seller: O Diário de Zlata, a menina que relatara o seu cotidiano na Guerra da Bósnia. Não tive coragem de dizer à minha mãe que não terminei o livro.  A falta de coragem para fazer essa confissão se ligava de alguma forma à gravidade da guerra – como eu poderia ser tão displicente com um tema assim, eu pensava, como ousara não terminar aquele livro? Essa gravidade também era o que parecia justificar o diário dela e de alguma forma impossibilitar o meu. Como se a catástrofe fosse condição necessária para relatar o cotidiano, para enchê-lo de significado. Zlata assistia a MTV: isso é tudo de que me lembro.

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“É mais ou menos como uma guerra.” A frase é de J, não minha, e se a reproduzo aqui é porque ainda não sei se concordo com ela. O silêncio lá fora é certamente ermo, deslocado; não confio nele. Passei muito tempo desejando um silêncio desse quilate para escrever. E agora que finalmente o tenho, quão farsesco ele me parece! No pátio do prédio vizinho, duas crianças correm, estão brincando, mas há algo performático nos gritinhos delas, nos pisões fortes que elas dão no chão. De vez em quando param e hesitam, como se tivessem que lembrar que estão no meio de uma brincadeira. Ontem, às três da manhã, eu ainda estava acordado, e quase todas as luzes das janelas desse mesmo prédio vizinho estavam apagadas. Uma única luz tênue iluminava um pequeno quarto, e um homem solitário falava ao telefone. Parecia uma paródia de algum quadro do Edward Hopper – o sujeito sereno de terno e uísque na mão ao cair da noite substituído por um outro descabelado, de camiseta, mandando áudios urgentes na madrugada.



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Se tivesse que adivinhar qual a textura de uma guerra, diria que ela se faz sentir assim, nos interstícios do dia. Diria que as pessoas seguem tocando as suas vidas, repetindo os gestos aos quais estão acostumadas, e que há alguns pequenos momentos, rápidos, mas muito intensos, em que o caráter anacrônico desses gestos é desmascarado.

Quando as compras chegam, tiro o meu chinelo e pego o tênis do lado de fora; o rapaz do supermercado, de luvas, me entrega a máquina do cartão. J me espera dentro da cozinha – eu pago, tiro os itens, vou descartando as sacolas. Passo então as mercadorias para ela, tiro o meu tênis, deixo-o lá fora, coloco o chinelo de novo. J passa álcool 70% nos produtos, desinfeta as embalagens. Depois enchemos a pia da cozinha com água e detergente, e jogamos as frutas e verduras lá dentro – pimentões, bananas, mamões, cebolas, batatas, abobrinhas. Um lava com afinco, o outro seca, depois lavamos as mãos com cuidado. As frutas e verduras parecem ficar mais nítidas depois dessa lavagem, como se recebessem uma injeção de realidade corpórea. O traceado verde das abobrinhas fica mais intrincado; os acidentes nas cascas das batatas, mais profundos e escuros. Mas não consigo achar essas frutas e verduras bonitas. Parecem tingidas de algum fingimento essencial, como o desse silêncio lá fora, que tem todos os ecos da província, mas que na verdade preenche uma cidade.

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Demorei até começar a ler livros que orbitassem em torno de guerras. Ainda não li Nada de Novo no Front, Ardil-22 ou Matadouro 5. Noto agora que uma boa parte da ficção que me atrai tem como pano de fundo um ambiente relativamente pacífico. Os autores que mais me comovem podem até ter passado por guerras em vida, mas a escrita deles está imbuída de domesticismo, dos pequenos dramas da burguesia.

Impressionado com o tamanho e a ambição de Os Nus e os Mortos, romance de estreia de Norman Mailer sobre as suas experiências na Segunda Guerra Mundial, o escritor John Cheever lamentou no seu diário a natureza mais “confinada” de seus próprios talentos. “Com minhas rosas de outono e meus crepúsculos invernais, pareço não estar nas grandes ligas”, Cheever escreveu. Gosto muito dessas rosas e desses crepúsculos, e a autoabnegação e melancolia de Cheever sempre me pareceram mais atraentes do que a virilidade grandiosa de Mailer. Melhor ainda é o escritor James Salter, um ex-piloto de elite da Força Aérea, que, depois de um primeiro romance autobiográfico, deixou as memórias de guerra como mero pano de fundo dos jantares beletristas, adultérios e paixões conjugais de seus personagens.

Talvez essa preferência tenha algo a ver com temperamento. Ou talvez tenha a ver com a percepção, sustentada por muito tempo, de que minha geração não teria que lidar com qualquer grande conflito ou convulsão. Na faculdade, criticávamos Francis Fukuyama e seu famoso “fim da história” – a tese de que, com o fim da Guerra Fria, a democracia liberal ocidental se solidificaria como a forma mais evoluída de organização societária. Mas, no fundo, talvez fôssemos bem fukuyamistas. Talvez toda geração seja um pouco fukuyamista. É dificílimo imaginar algo além do presente. Em Chicago, no mestrado, havia um professor que dizia: “O fascismo voltará à Europa em mais ou menos quinze anos, e será por causa dos fluxos migratórios.” O ano era 2006; quando a aula terminava, nós ríamos dele.

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Pude ver a paródia de Hopper na janela às três da manhã porque tinha ficado ao telefone com um amigo. O telefonema foi no início de março; sinto como se ele tivesse ocorrido há três ou quatro anos. Falávamos de saques, assaltos, possíveis invasões. “Deveria ter comprado uma arma”, meu amigo disse. Falou a frase sem exaspero, com uma resignação cansada. Na boca de qualquer um, a frase soaria pitoresca, mas na dele não. Por razões que não vêm ao caso, a instabilidade é para ele menos uma preocupação do que uma premissa arraigada, e a sua placidez diante de viradas de rumo é quase reconfortante. Não faz grandes pronunciamentos sobre o estado do país, não manda recados histriônicos no WhatsApp, não racionaliza tragédias. Tampouco desconversa sinais claros de deterioração. Ele toca a vida.

Nos perguntamos quando a pandemia iria acabar. Nisso talvez as guerras e a pandemia se pareçam: são, em teoria, eventos fechados, com aparente começo e fim. Há uma curva de ascensão, um pico, e depois supostamente uma queda. Após a destruição vem o Plano Marshall, conferências em cidades cujos nomes serão lembrados só por essas conferências, grandes gestos públicos de reconciliação.

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Tenho lido mais livros que orbitam em torno desses grandes conflitos. Não sei de onde vem o impulso; não faço grandes planos temáticos de leitura. Começou com A Marcha de Radetzky, o épico de Joseph Roth sobre a decadência do império dos Habsburgo. Depois peguei Pós-Guerra, de Tony Judt, e Tempestades de Aço, as memórias de Ernst Jünger sobre a Primeira Guerra Mundial. Não aprendi nenhuma grande lição histórica com esses autores. Foram as descrições do cotidiano que ficaram cravadas na minha memória. O estranho tremelique na cabeça que o Von Trotta pai adquire depois de descobrir que seu filho morreu numa batalha. A gulodice do médico Max Demant (que também morre), o seu gosto infantil por salgadinhos e doces. Os soldados do batalhão de Jünger sentados nas margens floridas de um riacho no interior da França, com as camisetas sobre os joelhos, catando piolhos.

É Isto um Homem?, de Primo Levi, foi o livro mais difícil de ler: às vezes ainda sinto raiva quando me lembro da leitura. Mas, até nele, não são as cenas mais pesadas que ficaram na minha cabeça. Me lembro do velhinho nu e o detalhe de seu cinto herniário; da forma em que, na hora de receber o pão, cada pessoa acha que o vizinho recebeu uma ração maior. Me lembro do hábito do narrador de olhar o pulso para ver as horas e de levar um pequeno susto quando vê ali, em vez do relógio, “esse número tatuado em marcas azuladas sob a pele”.

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O cotidiano é belo “porque sentimos nele o movimento discreto de eventos do porvir, eventos enigmáticos, heroicos, excepcionais”, o poeta polonês Adam Zagajewski escreve. “O cotidiano é como a superfície de um rio tranquilo em que redemoinhos e correntezas delicadas são traçadas, augúrios de tormentas e enchentes que podem ou não vir a ocorrer.”

Antes de passar álcool 70% e usar o tênis só para pisar lá fora, eu chegava cedo à Cobal, para escolher três pacotes de água mineral, e fitava os rótulos com atenção para ter certeza de que a fonte da água fosse de fora do estado do Rio de Janeiro. E antes disso, em 2010, a trabalho em Paramaribo, fiquei preso na cidade depois que o vulcão Eyjafjallajökull entrou em erupção na Islândia. Todo dia, de manhã, eu me levantava e ia ao escritório da KLM, para perguntar se tinham notícias de quando os voos seriam retomados; depois caminhava um pouco pela margem do rio da cidade, comprava uma cerveja e me sentava num quiosque – e por semanas segui assim, perguntando-me se deveria procurar um apartamento mais permanente. O Suriname não me parecia um mau lugar para se viver.

Sabemos do começo das catástrofes, em teoria: sabemos da invasão da Polônia e do morcego no mercado. A imagem mais nítida do início da pandemia, pelo menos no Ocidente, é uma imagem marcial – os caminhões do Exército carregando os corpos na Itália (no fim, ao que parece, a imagem era falsa e correspondia a caminhões franceses num exercício operacional do Exército). Mas as catástrofes têm também começos mais privados e difusos. Esse caráter paralisante da pandemia – essa mistura precária de vida doméstica excessiva e impotência ante imagens fugazes de destruição na tela do computador (destruição física, institucional) –, essa sensação definitivamente não é nova, embora tenha agora uma intensidade peculiar. A diferença perceptiva entre fevereiro e março de 2020, o mês do início de nossa quarentena, com o passar dos anos talvez diminua.

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Se os começos têm algo de cinzento, os términos também devem ter. Em Pós-Guerra, Judt relata um período de mais ou menos seis meses após o término oficial da Segunda Guerra Mundial – um momento em que os governos dos Aliados, após expulsarem os nazistas de certas partes do Leste Europeu, fizeram vista grossa e deixaram o pau comer. Rivalidades locais e vinganças pessoais tiveram uma janela de tempo para que pudessem ser consumadas da forma mais bárbara possível. Muita gente morreu justamente nesse período. Qual a sensação de estar no meio disso – de perder alguém próximo naquele momento, por exemplo – e logo em seguida ver um chefe de Estado sorrindo, discursando sobre a paz reinante entre as nações, falando em reconstrução, dizendo que a guerra acabou?

O desejo de um ponto final tangível, porém, é universal. Às vezes acho que o mundo nunca esteve tão envolto em rumores, que nunca houve tanta desinformação – mas o vírus ensina que não somos, que nunca fomos, especiais. La Casa in Collina (A casa na colina), de Cesare Pavese, se passa durante a Segunda Guerra Mundial. Corrado, um professor, se move para lá e para cá pelos campos do Norte da Itália, vivendo um meio-termo entre sobreviver à destruição e manter algo de seu cotidiano; parece mais irritadiço do que chocado pelas bombas. Simpatiza com a Resistência, mas não o suficiente para se juntar a ela. Em cada casa que entra, há um burburinho, esse ruído diário de catástrofes: a guerra está só no começo; a guerra já está no fim; os líderes vão acertar a paz; não, agora haverá mais ataques. A curva está subindo, daqui a duas semanas deve chegar ao pico, a curva já desceu. Aqui está o platô, veja, bem aqui na tela. Em maio acaba a quarentena, em julho, em setembro, ou então em novembro – na China o vírus já voltou, sofreu mutação, e ficaremos presos até o ano que vem.

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Outro trecho do livro de Judt: “Em Viena, segundo os registros de clínicas e médicos, 87 mil mulheres foram estupradas por soldados soviéticos nas três semanas subsequentes à chegada do Exército Vermelho na cidade.” Em Berlim, durante apenas uma semana, o número foi um pouco maior, embora Judt ressalte que em ambos os casos os dados estão subestimados por causa de subnotificações. Passo os olhos pelos números de mortos da Covid-19, e é difícil extrair qualquer significância – é como tentar sentir os bilhões de anos que a luz das estrelas leva para chegar à nossa vista. Outra similaridade, então: os números nos dizem muito e ao mesmo tempo pouco. Para dimensionar qualquer coisa, preciso pensar no pai da minha amiga que esteve na UTI e que agora está morto (assisti à missa de sétimo dia no YouTube e, sentindo-me obsceno e desrespeitoso no conforto do sofá, me endireitei, fiquei em pé, passei para outra cadeira, levantei de novo). Para dimensionar qualquer coisa, preciso pensar que em algum bairro de Viena existem pessoas, concebidas por aqueles soldados soviéticos, que cresceram sem pai, para depois levarem uma vida comum – pagando contas, indo a jantares e ao mercado, fazendo esses gestos do dia a dia que todos fazemos.

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A bela descrição que Zagajewski faz do cotidiano exagera a clivagem entre a banalidade do dia a dia e “eventos enigmáticos, heroicos, excepcionais”. Mesmo nas grandes tragédias, o cotidiano persiste com teimosia. A capacidade humana de se acostumar a qualquer cenário desolador seria até inspiradora, não fosse tão sombria.

Ernst Jünger descreve o seu ânimo e o de seus companheiros ao chegarem pela primeira vez em Bazancourt, no interior da França, em 1914. “Criados numa era de segurança, compartilhávamos um anseio pelo perigo, pela experiência do extraordinário.” Tinham partido para a França numa “atmosfera inebriante de sangue e rosas”. Quando chegam para se instalar na primeira vilazinha, porém, já no primeiro dia, uma bomba explode. Jünger assiste, com um senso desconcertante de irrealidade, a uma forma humana toda desfigurada, com a perna contorcida, lhe pedindo ajuda. “Era tudo tão impessoal, tão estranho”, ele escreve. “Mal tínhamos começado a pensar no inimigo, esse ser misterioso, traiçoeiro, escondido em algum lugar, na retaguarda.”

O choque desromantiza a guerra logo de cara, e o eco da bomba perdura (literalmente, pois o barulho de um trem passando ou de um livro caindo no chão assusta os jovens soldados). Mas em poucos meses o “senso desconcertante de irrealidade” de Jünger se transfigura. Depois de um tempo, o seu ouvido já não registra tanto “os tiros incessantes de rifle” nem as chamas que, com “um zumbido lento”, expiram do lado de fora de sua trincheira. Os estilhaços, os projéteis, as mortes repentinas, os pedacinhos de cérebro que escorrem pelo queixo de um companheiro ainda lúcido – as cenas de horror se mesclam e se tornam parte integral do cotidiano. Soldados tomam café ou fumam na trincheira enquanto bombas explodem e pedaços de terra e lama caem do céu. Em dias mais tranquilos, o vaivém de oficiais encarregados de inspeções irrita a tal ponto que Jünger e seus companheiros chegam a desejar “um pouquinho de bombardeio” do inimigo para serem “deixados em paz”. O autor menciona a “fofoca de trincheira” (“É curioso que, até aqui, falar dos outros é o passatempo mais popular”). E em meados de 1917 – três anos após sua chegada aos campos de batalha – profere a seguinte frase incrível: “E aí fomos dormir, incomodados apenas pelo zumbido dos mosquitos à margem do riacho, por projéteis e alguns bombardeios de gás.”

De vez em quando, porém, o véu do cotidiano cai e a catástrofe mostra o seu rosto. Numa vila do interior da Bélgica, Jünger se desconcerta quando vê, em meio às ruínas, uma lojinha com chapéus femininos na vitrine. Os encontros ocasionais dele com itens desse tipo – chapéus, roupas, jogos de chá – parecem gerar um fascínio ansioso. Quando se depara com a mala abandonada de um soldado francês, Jünger se despe e experimenta uma camisa listrada do inimigo só para sentir “o roçar prazeroso da malha limpa” na sua pele. Em outro momento, quando passa por uma casa já inabitada e destruída, começa a fazer um inventário numeroso dos itens domésticos que encontra (“jogos de cama, cintas, livros, jornais, mesinhas de cabeceira, vidros quebrados, garrafas, partituras”). A enumeração comove porque ressalta a estranheza de encontrar esses itens descartados, todos agora inúteis e obsoletos, relíquias de um mundo anterior.

Na estrada a Guillemont, o motorista do caminhão que transporta os soldados corta o dedo quando vai ligar o motor do veículo. “A ferida quase me fez passar mal, sempre fui sensível a esse tipo de coisa”, Jünger escreve. Entre tiros, feridas de bomba e outras mutilações (a certa altura ele descreve a raspagem que o médico faz no seu crânio após levar uma bala na cabeça), Jünger termina a guerra com vinte cicatrizes ao todo. Notando a provável confusão do leitor com a sua sensibilidade ao sangue no dedo do motorista, logo esclarece: “É um exemplo de como a resposta a uma experiência é em grande parte determinada por seu contexto.”

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Em pelo menos um sentido, a pandemia inverte o contexto da guerra. Os mesmos itens domésticos que enchem Jünger de nostalgia – mesinhas, talheres, xícaras – ganham uma aura um pouco mais perturbadora em meio ao confinamento. Esses objetos geram satisfação e ao mesmo tempo repulsa; há certo histrionismo no domesticismo exaltado que tomou a nossa casa desde o início do isolamento. As horas gastas na cozinha são uma espécie de subterfúgio, uma tentativa natimorta de imersão e fuga, e ao mesmo tempo são essas mesmas horas gastas na boca do fogão que reafirmam a impossibilidade de uma fuga real, física. Em maio, depois de dois meses sem pôr o pé fora de casa, desci para levar o lixo e, ao encontrar o sol – de que nunca fizera muita questão antes –, fiquei paralisado no pátio da garagem, ouvindo a minha própria respiração sob a máscara (não sei por que não a tirei). Tomava sol e sentia-me saciado, como se estivesse enchendo a barriga.

A casa, antes refúgio, se tornou um lugar de espera. Esperávamos para chegar em casa logo; agora esperamos para sair dela logo. A casa tem no momento o torpor enganoso de locais de passagem. Por isso é tão difícil manejar o tempo. O tempo da pandemia é esse tempo escorregadio das salas de embarque de aeroportos, onde tudo parece lento, quase em suspensão, até que, ao ir ao banheiro, me dou conta de que perderei o voo.

O idílio doméstico verdadeiro depende em parte do mundo anterior, dos restaurantes e bares cheios, do perigo (moderado ou alto, mas nunca proibitivo) das ruas, das picuinhas do trabalho, das ameaças veladas e da chance de simplesmente levantar e sair, ou de estar cansado da rua e voltar. Para aqueles que podem ficar em casa sem perder o emprego (somos poucos), o confinamento é necessário, sobretudo quando se leva em conta que o governo do dia detona qualquer possibilidade de coesão social. Mas há algo profundamente contraintuitivo na celebração da passividade doméstica como gesto político, imbuído de consciência cívica. É difícil dar um ar heroico a um ato que também envolve medo, autopreservação, a neurose no seu estado mais puro. “A batalha aproxima os homens, e a inatividade os separa”, Jünger escreve. A pandemia exige que nos unamos na inatividade.

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O silêncio acabou. Os sons da cidade já voltaram: o crescendo da moto que nunca chega ao clímax, as britadeiras e os martelos das construções. Em uma madrugada tive a impressão de ouvir tiros vindos da Ladeira dos Tabajaras (a expressão “novo normal” é tragicômica). Não fosse algumas risadas maníacas e alguns gritos desesperados esparsos nas sacadas – que compreendo inteiramente –, pareceria 2019, 2018, 2017.

Em La Casa in Collina, não há muitas menções a datas, de forma que o leitor compartilha algo da confusão dos personagens. Não é possível distinguir entre o que é rumor e o que é verdade sobre o possível término da guerra. A narração de Pavese tem um tom melancólico, e o conflito armado existe no livro mais como sombra do que como ação, mas ainda assim há um elemento de suspense, de modo que, como leitor, me vi torcendo, com uma ansiedade inesperada, para que o narrador chegasse a bom porto e ficasse a salvo. Mas o livro acaba bem no meio da guerra. O livro acaba e a guerra continua, e ao ser pego de surpresa por esse gesto do autor, me enchi de admiração por ele e também me enchi de angústia.

“Nós achávamos que a guerra iria virar e revirar imediatamente a vida de todos”, Natalia Ginzburg diz, em Léxico Familiar. “Durante anos, ao contrário, muita gente permaneceu sem ser incomodada em sua casa, continuando a fazer o que sempre fizera. De repente, quando cada um já achava que no fundo se livrara por pouco e não haveria nenhum transtorno, nem casas destruí-das, nem fugas ou perseguições, explodiram minas e bombas por toda parte e as casas desabaram, as ruas se encheram de ruínas, de soldados e de fugitivos. E não havia mais ninguém que pudesse fingir que nada estava acontecendo, fechar os olhos e tapar os ouvidos, enfiar a cabeça embaixo do travesseiro, não havia.”

Alejandro Chacoff

É escritor, ensaísta e crítico literário da piauí. Autor do romance Apátridas (Companhia das Letras)

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