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Casquinha crocante

ONU vê no consumo de insetos uma fonte de proteína barata; Monteiro Lobato já chamava a bunda da saúva de “caviar do Vale do Paraíba”

Juliana Cunha
FOTO: STEVE UDELL_CORTESIA HOTLIX

Quando o planeta for povoado apenas por Keith Richards e as baratas, o que Keith Richards vai comer? A ONU tem uma sugestão. Onde você enxerga um alien em miniatura, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura, a FAO, vê uma fonte de proteína barata e sustentável. Em um relatório divulgado no mês passado, a FAO defende que a criação de insetos em larga escala pode garantir a segurança alimentar da humanidade.

Em 2050 seremos 9 bilhões de pessoas. Para alimentar toda essa gente com bifinhos, as áreas de criação animal precisariam dobrar de tamanho, o que seria uma catástrofe ecológica por causa do desmatamento e dos gases gerados pelos bois – sim, sim, por causa dos puns.

Dois bilhões de pessoas – um terço da humanidade – já praticam a degustação de 1 900 espécies de invertebrados de exoesqueleto quitinoso, aquela parte da anatomia dos bichinhos que, exposta ao fogo ou ao óleo fervente, vira uma casquinha crocante como pipoca. Besouros, lagartas, abelhas, vespas, formigas, grilos e gafanhotos são os mais ingeridos, sobretudo na África (36 países) e na Ásia (29 países), onde o consumo de carne bovina é menor – um americano come em média 120 quilos por ano, contra apenas 8,5 de um etíope.

Insetos contêm quantidades de ferro superiores às do boi, e a produção de 1 quilo deles requer apenas 2 quilos de ração, enquanto cada quilo de carne de vaca demanda um investimento de 10 quilos de ração. A carne de boi tem cerca de 20% de proteína, contra 44% de algumas espécies de barata, que são ainda ricas em vitamina B e cálcio.

Além disso, o churrasquinho de inseto é mais seguro, diz o engenheiro agrônomo Alan Bojanic, representante da FAO no Brasil: “Claro que todo alimento precisa ser higienizado, mas o inseto não tem vírus nem bactérias que possam prejudicar o homem. Carnes como a de porco são mais sujeitas a zoonoses.”

Ah, sim, tem o argumento do nojo. Nesse quesito, parece que os insetos saem perdendo. Mas mantenha a compostura: a ONU não pretende colocar besouros no seu prato. A sugestão é fazer um pozinho de insetos para tornar a coisa mais palatável. Sabe aquela moça que no meio de um almoço saca da bolsa um potinho de chia, de linhaça ou do que quer que esteja na moda naquele mês? Um dia desses ela pode sacar um frasquinho de grilos triturados e, sejamos sinceros, ninguém vai estranhar.

No Brasil ainda não chegamos ao ponto de comer vespa por macheza, mas Monteiro Lobato chamava suas içás torradas em banha de porco de “o caviar do Vale do Paraíba”. Crianças da cidade grande cresceram sem entender a referência a cada vez que o Chico Bento, das histórias de Mauricio de Sousa, se atiçava diante de um formigueiro em dia de chuva.

Içá é um nome carinhoso para as fêmeas da formiga saúva. Em algumas regiões do Brasil – a exemplo da região Norte e do interior de São Paulo –, come-se bunda de içá como se fosse amendoim. A tradição é indígena e foi repassada aos tropeiros.

 

Há quarenta anos, Ocílio Ferraz, de 75 anos, coleta as saúvas para consumo próprio e para venda. Em sua cidade, Silveiras, interior de São Paulo, quase todo mundo é caçador de formiga. A garrafa PET abarrotada de saúvas custa 100 reais. O negócio não chega a sustentar ninguém porque é sazonal. “Só tem formiga entre junho e novembro. Para caçar tem que ter chovido forte um dia antes e tem que ser um dia bem abafado, aí elas pulam do formigueiro”, conta o caçador.

Por causa da idade, hoje ele coleta pouco, prefere preparar a caça alheia: “Tenho um restaurante e envio farofa de formiga via Sedex para todo canto, até para o Sul.” Oitenta gramas da farofa delivery custam 40 reais, mais o frete.

Ocílio é ainda fornecedor de gente chique. Em São Paulo, suas formigas não são sujeitas à banha de porco que tanto agradava Monteiro Lobato, mas salteadas no azeite orgânico de alecrim pelo chef Renato Caleffi, 38, do Le Manjue Organique. Depois desse verniz de azeite, o pratinho com quinze bundas de formiga passa a valer 41 reais. Por ano, o restaurante serve cerca de 200 porções de içá. “Quem pede é gente que passou a infância no interior e curiosos”, conta Bruno Amaro Fattori, 34, um dos sócios.

A farra da içá não prejudica o equilíbrio da região: o que se caça são fêmeas reprodutivas que estão indo fundar novas colônias. Sem interferência humana, a maior parte dessas formigas morreria de outras formas, explica Eduardo Almeida, professor de biologia da Universidade de São Paulo especializado em entomologia. Já a criação industrial de insetos poderia gerar problemas.

“Na década de 50, alguém teve a ótima ideia de trazer abelhas africanas para produção de mel no Brasil. O objetivo era mantê-las em cativeiro, mas se espalharam tanto que em 1980 já tinham chegado à América do Norte”, diz Almeida.

No Brasil ainda não há regra para caça e produção de insetos para consumo humano. Cabe à Vigilância Sanitária do município a inspeção em estabelecimentos que servem esses animais. Pela lei, o produto não pode ser comercializado de um estado para o outro nem, muito menos, exportado, já que não é registrado pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento.

O Ministério reconhece que vem discutindo a possibilidade de lançar uma legislação específica sobre insetos para possibilitar a tal “criação em escala industrial” sugerida pela ONU, mas o assunto é espinhoso e não há previsão de quando uma lei dessas seria aprovada.

Você ainda não parece convencido a fazer uso culinário daquela lagartinha que entrou em casa, mas Alan Bojanic está convicto de que o incentivo ao consumo de insetos é um trabalho de longo prazo. “Hoje a pessoa lê sobre a ideia e refuta. Daqui a um ano, lê e acha curioso. Acredito que em vinte anos os insetos estejam integrados à gastronomia de muitos países que ainda não têm essa cultura”, diz ele, e arrisca uma comparação: “Talvez o inseto seja o novo peixe cru. Muita gente torcia o nariz para o peixe cru, não é?”

Juliana Cunha

Juliana Cunha é repórter, tradutora e autora dos livros Gaveta de Bolso, da Prólogo, e Já Matei por Menos, da Lote 42.

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