esquina

Celebração da morte

Um festival para os vivos precavidos e curiosos em Londres

Barbara Axt
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL

Um imponente leão de madeira, de juba volumosa e mais de 1 metro de altura, era o que mais atraía as crianças que corriam frenéticas pelo saguão de um espaçoso centro cultural de Londres. Queriam a todo custo tocar o animal e inspecionar a grande abertura que ele tinha nas costas, forrada de tecido colorido e grande o bastante para acomodar um cadáver. Sua função era precisamente essa: tratava-se de um caixão feito por encomenda para um cliente do ateliê de Paa Joe, de Gana, país em que os funerais exuberantes se tornaram uma tradição. Ali, as pessoas são enterradas dentro de réplicas de carros de luxo, aviões e até um cacau gigante fabricado para o descanso eterno de um fazendeiro.

As peças estiveram há pouco em exposição em Londres, durante o Festival da Morte para os Vivos, promovido pelo South Bank Centre. Não menos exóticas que os esquifes africanos eram as peças produzidas pela empresa inglesa Crazy Coffins [Caixões Malucos], expostas ao lado. Chamavam a atenção um grande ovo de madeira, uma guitarra gigante e a réplica em miniatura de um vagão do trem puxado pela locomotiva Northern Belle, que passa por pontos turísticos britânicos. Apoiado no caixão ferroviário forrado com o mesmo tecido estampado e aveludado que adorna o original, estava Brian Holden, um senhor magro e sorridente, de cabelos brancos e óculos de armação grande. Ele explicava a um repórter que gostaria de fazer sua última viagem no mesmo trem em que viajava todos os anos com sua falecida esposa. Numa das janelas do vagão, via-se uma imagem em que o próprio Mr. Holden e sua rechonchuda senhora acenavam, viajando enfim juntos depois de anos de separação forçada.

Havia um caixão em exposição deixado especialmente à disposição das crianças. Era de formato convencional, mas rosa-choque e coberto por purpurina e desenhos infantis. A decoração – uma profusão de estrelinhas, flores, casinhas e rabiscos infantis genéricos – era obra dos pequenos artistas, que se lançavam avidamente a potes de cola, miçangas e canetas multicoloridas, decorando também o chão e, para consternação dos pais, as próprias roupas.

Na noite de abertura do festival, um desfile fúnebre no estilo de Nova Orleans, com enfeites gigantescos que mais lembravam a festa dos mortos mexicana, foi protagonizado por crianças de uma ONG. O cortejo e o show de jazz que o sucederam eram acompanhados por gente bonita e estilosa que, bebendo vinho e cerveja, parecia encarar aquilo como um grande memento mori coletivo. Seguiu-se uma seleção das canções mais tocadas nos funerais britânicos compilada por Paul Gambaccini, apresentador da BBC e anfitrião do evento. Previsivelmente, a lista das dez mais era encabeçada por My Way, na versão de Frank Sinatra.

Em contraste com o ambiente festivo da parada, quem entrasse numa sala de teatro no andar de baixo embarcaria numa jornada de dor e luto. Estava sendo encenado ali o monólogo An Instinct for Kindness [Um Instinto para a Bondade], escrito e encenado pelo britânico Chris Larner. Sozinho no palco, ele relatou a experiência de levar a ex-mulher a uma clínica suíça para cometer suicídio assistido, depois de 25 anos vivendo com esclerose múltipla. Larner não poupou os espectadores de detalhes excruciantes sobre a evolução da doença, a burocracia e os custosos preparativos para que a mãe de seu filho pudesse tomar um copo de pentobarbital – substância de gosto tão ruim que os pacientes precisam antes ingerir uma droga que os impeça de vomitar. Sobre as mesas da clínica, contou Larner, havia caixas de lenços de papel e de chocolates. Numa sala, acumulavam-se as cadeiras de rodas e andadores daqueles que não precisariam mais deles para sair dali.

Durante os três dias do evento, o Royal Festival Hall, uma mastodôntica construção modernista à beira do Tâmisa, foi ocupado por uma fauna eclética que incluía de jovens hipsters a idosos precavidos. Sentada numa cadeira de rodas de última geração, uma senhora anotava cuidadosamente seu roteiro de visita no programa do festival. Assinalou a palestra “Tudo o que você sempre quis saber sobre funerais (mas tinha medo de perguntar)”.

A diretora artística do Southbank Centre, Jude Kelly, destacou o caráter utilitário do evento. “Vamos pensar sobre a morte para não sermos pegos desprevenidos por ela ou pela morte das pessoas próximas”, explicou. “Numa sociedade cada vez menos religiosa, não temos lugares ou ocasiões para lidar com assuntos profundos.”

Ocupar esse espaço é o objetivo da Associação Humanista, organização que ocupava um dos estandes montados no saguão ao lado dos caixões inusitados. Ali, folhetos e cartazes anunciavam serviços de batizados, casamentos e funerais para ateus e agnósticos conduzidos por celebrantes laicos. Havia ainda um estande dos Samaritanos com voluntários dispostos a reconfortar os visitantes que porventura ficassem assoberbados pela overdose de morte do evento.

“Eu queria que o festival encorajasse as pessoas comuns a olhar a própria mortalidade nos olhos, de uma forma reflexiva, com coragem e humor”, disse a diretora Jude Kelly. “Os milhares de pessoas que vieram são a prova de que esse é um tabu que todos queriam discutir”, comemorou.

Um reflexo do entusiasmo do público pôde ser visto num painel de parede inteira que os visitantes eram convidados a preencher com gizes coloridos. Sua tarefa consistia em completar a frase “Antes de morrer, eu quero…”. Dentre as respostas, havia desde as materialistas (“Ter um iate”, “Virar fazendeiro”) às hedonistas (“Curtir a vida”, “Fazer sexo”), passando pelos desejos insólitos (“Salvar Dumbledore”, “Ver as araras em Tambopata, no Peru”). Ao lado da resposta do visitante que escreveu “Perder peso”, alguém puxou uma seta e completou: “Por quê? Você pode fazer isso depois de morrer.”

Barbara Axt

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