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Cerimônia do adeus

Oxford se despede da UE

Consuelo Dieguez
CRÉDITO: ANDRÉS SANDOVAL_2020

“É tão difícil acreditar que saímos da União Europeia”, lastimou a professora britânica Claire Williams, no início da noite de 31 de janeiro. Ela acabara de entrar na Biblioteca da Taylor Institution, no centro de Oxford, e deparou com a bandeira do bloco europeu, com suas doze estrelas douradas sobre o fundo azul. Diante da bandeira, deixou escapar um suspiro, como se estivesse se despedindo de uma pessoa querida.

Williams é graduada em letras, fez mestrado na Universidade de Cambridge e há dez anos dá aulas no Centro de Literatura e Cultura Brasileira na St. Peter’s, uma das faculdades que compõem a Universidade de Oxford. A professora é uma típica representante da elite cultural inglesa, que, em sua maioria, se posicionou contra o Brexit. Em dezembro, porém, quando o Partido Conservador (favorável ao desligamento do Reino Unido da UE) obteve uma vitória acachapante no Parlamento, Williams percebeu que a luta havia acabado – e que ela perdera.

Em 31 de janeiro, a saída foi oficializada. As manchetes dos jornais naquele dia expuseram a polarização no país. O diário conservador Daily Mail estampou, eufórico, na primeira página: “Um novo amanhecer para a Grã-Bretanha.” O liberal The Guardian, anti-Brexit, ironizou: “Ilhazinha” (small island). Em comum, as capas dos dois jornais tinham a foto do mesmo cenário: as falésias brancas (White Cliffs) de Dover, cidade portuária inglesa mais próxima do continente europeu. Na edição do Guardian, a bandeira do Reino Unido pairava sobre a paisagem desolada das falésias.

Os cidadãos de Oxford, que também são majoritariamente contra o Brexit, pareciam em estado de prostração, quando não de indiferença, ao longo daquele dia histórico. Talvez porque estivessem cansados dos debates, que se arrastaram por três anos, desde que a maioria dos ingleses votou a favor do Brexit no fatídico plebiscito de 23 de junho de 2016. Ou talvez porque se deram conta de que não havia mais nada a fazer. Nas ruas, os sinais de resistência se limitavam a algumas bandeiras da UE colocadas na frente das casas. E as contendas deram lugar ao lamento – como a cerimônia de adeus realizada na Biblioteca da Taylor Institution.

 

O prédio da biblioteca é também o da conceituada Faculdade de Línguas Medievais e Modernas, onde talvez se concentre o maior número de estudantes da Europa continental em Oxford. Foi a diretora da faculdade, Almut Suerbaum, uma alemã sorridente, de cabelos grisalhos, que teve a ideia de organizar uma derradeira homenagem à União Europeia. Das 20h30 até a meia-noite, professores leram – na língua original e em inglês – poemas e textos de autores de diferentes nacionalidades que refletiam sobre a Europa e a relação entre estrangeiros ou expressavam sentimentos de perda e dor.

Primeira pessoa a subir ao palco do auditório da Taylor Institution, Suerbaun leu poemas de Goethe. Depois, foi a vez de uma professora e uma aluna de francês, que citaram trechos das Cartas a um Amigo Alemão, de Albert Camus, numa das quais ele afirma: “Algumas vezes, na virada de uma rua, nos breves intervalos da longa batalha comum, me ocorre pensar em todos esses lugares na Europa que conheço tão bem. É uma terra magnífica, feita de sofrimento e história.”

A professora Claire Williams, uma mulher loura, de olhos azuis e bochechas rosadas, dá aula de literatura brasileira, mas estava ali representando Portugal. Sua missão foi ler a tradução em inglês de um poema da portuguesa Ana Luísa Amaral, cujo original foi lido por Claudia Pazos Alonso, professora de língua portuguesa. Diz o poema Lugares Comuns: “Entrei em Londres/num café manhoso (não é só entre nós/que há cafés manhosos, os ingleses também/e eles até tiveram mais coisas, agora/é só a Escócia e um pouco da Irlanda e aquelas/ilhotazitas, mas adiante)”. A plateia caiu na risada.

Depois, chegou a vez da jovem romena Raluca Vasiu, de cabelos pintados de branco e azul, ler escritos do poeta e pensador romeno Lucian Blaga, como Tristeza Metafísica (Tristețe Metafizică): “Em portos abertos para as maravilhas dos grandes mares/Eu cantei com os pescadores, sombras altas na costa/sonhando com navios que carregam/o milagre estrangeiro.”

O professor grego Dimitris Papanikolaou recitou em seguida À Espera dos Bárbaros, de Konstantinos Kaváfis. Publicado pela primeira vez em 1904, esse famoso poema poderia aludir também ao modo como uma ameaça inexistente é utilizada para espalhar o medo do novo e da transformação: “Por que subitamente esta inquietude?/(Que seriedade nas fisionomias!)/Por que tão rápido as ruas se esvaziam/e todos voltam para casa preocupados?//Porque é já noite, os bárbaros não vêm/e gente recém-chegada das fronteiras/diz que não há mais bárbaros.//Sem bárbaros o que será de nós?/Ah! eles eram uma solução” (na tradução de José Paulo Paes).

 

Pouco antes das onze da noite, hora oficial do desligamento da União Europeia, os ingleses tomaram a palavra na Taylor Institution. “Devemos esquecer os velhos amigos/e jamais nos lembrar deles?/ […] Aos velhos tempos, meu amigo,/Aos velhos tempos./Vamos beber um trago à gentileza,/Aos velhos tempos”, cantou em coro um grupo de pessoas. Era a letra de Auld Lang Syner (Aos velhos tempos), o poema escrito em 1788 pelo escocês Robert Burns para uma canção tradicional (no Brasil, a melodia se transformou na popular Valsa da Despedida, que diz: “Adeus amor,/eu vou partir” etc.)

Encerradas as apresentações, a turma de cerca de cem pessoas reunida no teatro postou-se em volta da mesa instalada num canto do auditório para tomar um gole e recordar. Em torno de uma mesa comprida, foram servidos vinhos branco e tinto, e todos brindaram à Europa. Por fim, com as taças nas mãos, os convidados subiram ao segundo andar, para escutar música clássica, esse grande legado europeu à humanidade. Depois de peças do húngaro Franz Liszt e do austríaco Johann Strauss, soaram os versos da canção napolitana O Paese d’o Sole (O país do sol), de Libero Bovio e Vincenzo d’Annibale: “Tudo, tudo é destino!/Como eu poderia fazer fortuna no estrangeiro/Se quero viver aqui?”

Naquela noite de poesia e música, as pessoas no sarau de despedida lamentaram tudo que o Reino Unido perdia ao se afastar da União Europeia. Pensavam não apenas nas presumidas vantagens econômicas e mesmo políticas que poderiam advir com a inclusão do país no conglomerado de 27 nações. Pensavam também nos elos históricos com o continente – o conjunto de mitos, ideias, saberes, técnicas, valores e prazeres que circularam desde tempos imemoriais de um lado a outro do Canal da Mancha.

Foi isso que professores e estudantes da Faculdade de Línguas Medievais e Modernas prantearam e quiseram lembrar. Pois, mesmo afastado da União Europeia, o Reino Unido jamais deixará de fazer parte dessa entidade histórica e cultural chamada Europa, onde, como descreveu Camus, se desenrola há vinte séculos “a mais incrível aventura do espírito humano”.

Consuelo Dieguez

Repórter da piauí desde 2007, é autora da coletânea de perfis Bilhões e Lágrimas, da Companhia das Letras

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