despedida

Cheirar, nunca mais

Depois de uma vida dedicada às drogas, Dinho se ligou no chocolate

Cassiano Elek Machado
Dinho, já livre das drogas, posa especialmente com o seu colete de federal
Dinho, já livre das drogas, posa especialmente com o seu colete de federal FOTO: CASSIANO ELEK MACHADO_2007

Dinho deixou de chafurdar diariamente na cocaína, no crack, no ecstasy e na maconha para bater em outras portas da percepção. Gaúcho de boa cepa, só no mês passado, já grisalho, ele pôde afundar os caninos, pela primeira vez, num naco sanguinolento de churrasco. Ele fez por merecer, trabalhou como um cão. Durante toda a existência, bateu ponto na Polícia Federal de Porto Alegre. Vivia espartanamente, com um cronograma puxado de exercícios e treinamentos, alimentação regrada, horários restritos, confinamento. Noitadas, esbórnias, reivindicações trabalhistas, maledicências contra os superiores – jamais. Para ele, só havia o emprego. O emprego e os narcóticos, dia após dia. É rebolando o traseiro que Dinho comemora a libertação das drogas, o início de uma vida cã.

O principal jornal gaúcho, Zero Hora, documentou o rito de passagem. Numa terça-feira, no final de março, Dinho ocupou toda uma página do tablóide. Vestido com um luzidio colete negro da Polícia Federal, exibia um porte altivo. Sua carreira de agente terminava ali. Para tristeza dos colegas, o maior farejador da história da Divisão de Repressão a Entorpecentes do Rio Grande do Sul pendurava a coleira.

Como alguns aposentados neuróticos, que não conseguem se reciclar, ele continua a freqüentar o local de trabalho. Mas, enquanto outros labradores aguardam novas missões, é espalhadão no assoalho, junto aos pés de seu parceiro de trabalho, Arthur Vargas, que Dinho desfruta do ar-condicionado.

Vargas e Dinho viveram mais de oito anos no estilo Cosme e Damião: um não trabalhava sem o outro. A parceria começou no Canil Central da Polícia Federal, em Brasília, onde todos os cães-agentes são treinados desde pequenos. A vida de um farejador começa a tomar forma aos dois meses de idade. Nessa idade, os labradorzinhos (ou springerzinhos spaniels, ou mallinoisinhos ou pastorzinhos alemães) previamente selecionados, por serem filhos de outros farejadores, fazem uma espécie de vestibular, no Distrito Federal. Os hiperativos e possessivos passam para uma segunda fase. Ao completarem um ano, estão prontos para a “universidade”: um curso intensivo de três meses, de segunda a sexta-feira, em período integral.

“Cada cão faz três drogas de manhã e três de tarde”, explica Vargas, com a voz calma e um par de óculos de clínico geral. O treinamento é todo feito com a mesma ferramenta: um tubo de PVC branco, do tamanho de uma lanterna grande, dentro do qual é colocado outro tubo de PVC branco um pouco menor, com alguns furos ao longo de sua superfície. Dentro do recipiente interno são postas, alternadamente, embaladas em sacos de plástico, as cinco drogas que os farejadores brasileiros são treinados para detectar: cocaína, crack, maconha, ecstasy e, mais recentemente, heroína. É com este mesmo bastão de PVC, cada vez aromatizado por um narcótico, que os cães federais brincarão até o final de sua vida – ou melhor, até, como Dinho, se aposentarem.

Gaúcho de São Borja (como Getúlio), Vargas explica que a atividade dos farejadores se reduz a encontrar o tubo branco, e com isso ganhar afagos de seu parceiro e treinador. Os cães não são premiados com biscoitos, com bistecas ou com roupinhas de lã. Nos treinamentos, nos quais o brinquedo de PVC com narcótico é escondido das mais variadas formas, eles são recompensados com uma saudação do tipo “boa, garoto!”.

Para evitar que tenham seus 240 milhões de células olfativas corrompidas (os humanos, temos no máximo 12 milhões delas), os agentes-farejadores comem apenas um tipo de ração, não convivem com outras pessoas que não seus treinadores, não passeiam livremente e são impedidos de cheirar florzinhas, postes, xixis e secreções de outros cachorros. Quando são usados em operações em aeroportos, em batidas policiais nas estradas ou em buscas e apreensões, eles apenas querem o brinquedo de PVC.

Em 55 flagrantes, Dinho detectou mais de uma tonelada de cocaína e quatro de maconha. É um recorde nacional. Seu talento olfativo fez com que fosse o escolhido para representar o Brasil no exterior. “1º Seminário Sudamericano Canino 1999 – Bolívia”, lê-se no diploma ao lado da mesa de Vargas. Embora não fosse um encontro competitivo, Dinho foi, diz seu parceiro, o único entre os cães hermanos que conseguiu detectar as drogas em todos os testes.

A excelência do filho de um cão inglês (o senhor Book) e de uma brasileira (madame Bruska) fez com que ele fosse requisitado para missões pelo Brasil afora, e representasse a Polícia Federal na Semana Farroupilha e em algumas festas da uva, como atestam dezenas de fotografias afixadas na maior sala do canil porto-alegrense, onde ele vivia.

No mesmo ambiente, fica uma ferramenta importante do trabalho da dupla Vargas-Dinho. Em um cofre cinza-esverdeado, semelhante aos que os Irmãos Metralha tentavam abrir nos quadrinhos da Disney, ficam recipientes com cocaína, maconha, crack e ecstasy (a heroína anda em falta). Vargas, e os demais treinadores, precisam das substâncias para manter os tubos de PVC com o cheiro da droga tal como ela é comercializada: fresca. A cocaína e o crack são as que perdem o seu buquê mais rapidamente. Com isso, o canil da PF recebe com regularidade pacotes com drogas da melhor qualidade. A mistura de drogas faz com que, ao ser aberto, o cofre exale o bafo de um pântano.

Quando Vargas se aproxima do canil com um bastonete de PVC devidamente aromatizado, os cães ali hospedados fazem uma algazarra que picanha alguma provoca numa cachorrada normal. Sob o olhar blasé de Boss, um rotweiller que não faz parte da brigada de farejadores, e que fica por ali apenas para proteger os demais cães, é com a agilidade de um Michael Jordan que Astro, um labrador, tenta alcançar as mãos do policial.

Dinho, cuja aposentadoria faz com que se desapegue progressivamente do brinquedo anabolizado, ensaia alguns pulos, mas logo se acomoda, de língua de fora. Enquanto isso, Vargas dá os comandos para Astro: “zit!“, “nein!“, “up!“. Isto por que a Polícia Federal adotou a escola alemã de treinamento de farejadores, e é nesse idioma que eles aprendem os principais comandos. Se na escola inglesa os cães trabalham com coleiras, e costumam ser exibidos ostensivamente, na alemã tudo é feito na miúda: na maior parte das missões, os cães não ficam à vista, e tentam achar seus tubos de PVC nos bastidores dos aeroportos.

Para Dinho, tudo isso é passado. Com exceção de uma ou outra missão na qual é levado como “supervisor”, a vida dele agora é feita de ar-condicionado, sonecas à vontade e todo um novo universo gastronômico. Eros, seu filho, Astro, o neto, e o Luky, o bisneto continuarão seu legado farejador na PF. Para o velho labrador, que completou 10 anos e foi adotado pelo parceiro Arthur Vargas, nada mais de ouvir gritos em alemão e de correr atrás de drogas. Ele cansou da cocaína e se ligou no chocolate.

Cassiano Elek Machado

Cassiano Elek Machado foi jornalista de piauí entre 2007 e 2008.

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