esquina

Chute em cachorro morto

Uma crise de animais insepultos no Distrito Federal

Graça Ramos
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2006

Nas superquadras que formam o Plano Piloto de Brasília, um contêiner de lixo instalado próximo ao Clube Social Unidade de Vizinhança Número 1, localizado na entrequadra 108/109 Sul, exibe o corpo sem vida de um cachorro da raça bassê, de pêlo castanho. Como não há indício de atropelamento, parece que alguém decidiu se desfazer do seu bicho de estimação.

Garis comentam que aumentou o número de caixas e sacos de lixo arremessados nos gramados do Plano Piloto com um corpo de animal dentro. “Espeto muito cachorro morto”, diz Altair Xavier de Lima, uma gari cearense de 43 anos. Segundo o serviço de limpeza urbana da capital, até maio eram recolhidos em média 240 cachorros mortos por mês.

Parte das carcaças vem da classe média. São animais de gente que compõe o mais alto Índice de Desenvolvimento Humano do Brasil, mas não tem onde enterrar seus bichos. A cidade tem 2,2 milhões de humanos e 300 mil cães e gatos. Desde maio, estão suspensos os sepultamentos no cemitério público para animais.Depois de trinta anos de existência, descobriu-se que era clandestino; estava em área não regularizada na Gerência de Controle de Reservatório e Zoonose da Secretaria de Estado de Saúde.

Muitos Rexs, Ladys, Bolas, Sigfrieds e Lulus estão sepultados ali. Calcula-se em quatro mil o número de sepulturas edificadas, sem contar as covas rasas. Por mês eram enterrados cerca de noventa corpos.

Em nome da lei, o Ministério Público determinou a remoção do cemitério. Argumentou que em terreno contíguo, em área cedida pela mesma Secretaria de Saúde, está sendo erguido um hospital para tratamento do câncer infantil. A proximidade dos túmulos seria danosa aos pacientes, em termos sanitários e emocionais. Com o encerramento das atividades, as clínicas veterinárias começaram a receber outro tipo de demanda de seus clientes. “Os proprietários querem saber onde enterrar os animais”, diz o veterinário Ricardo da Costa Guerra Martins, dono de uma clínica na Asa Norte. “Já cheguei a contratar um carroceiro para enterrar cães de grande porte”, relata Jarí Martins Batista, dono de outras duas clínicas. Um veterinário que atende no exclusivo bairro do Lago Sul e prefere não ser identificado conta que já fez o favor de enterrar alguns corpos de ex-pacientes na chácara que tem em Sobradinho.

Quando morrem nas clínicas veterinárias e o corpo não é reivindicado pelos donos, os animais são encaminhados para o lixo hospitalar da Gerência de Zoonoses e de lá seguem para a incineração na cidade de Ceilândia. Muitos proprietários não concordam com o procedimento. Para aumentar o deus-nos-acuda, a boca do forno do incinerador tem apenas 30 centímetros de diâmetro e animais com mais de dez quilos não passam por ele. “Mandamos uma carta aos proprietários de clínicas veterinárias, pedindo que esquartejassem os animais grandes antes de enviá-los para a incineração”, diz Expedito Apolinário Silva, responsável pela Superintendência de Orientação, Controle e Fiscalização da Limpeza Urbana.

Veterinários que tiveram conhecimento do teor da carta rebelaram-se. “Não temos que fazer esse tipo de trabalho”, disse Ricardo Martins. O Conselho Regional de Veterinária precisou intervir. Ficou decidido que a única obrigação dos veterinários é acondicionar corretamente os corpos. Diante da resistência dos profissionais em despedaçar cadáver de ex-paciente, o governo resolveu enterrar os cachorros de grande porte num depósito de lixo, situado entre o Plano Piloto e a cidade de Taguatinga.

O remendo de solução poderá trazer novos perigos: “Eles estão jogando os corpos a céu aberto no lixão e o risco de termos problemas ambientais é grande”, denuncia a presidente da Associação Protetora dos Animais do DF, Simone Gonçalves de Lima, bióloga e professora da Universidade de Brasília. O corpo de um animal com virose pode contaminar o lençol freático.

Desde 1998, vigora uma lei que estipula a criação de um cemitério público para animais no Distrito Federal. No dia 18 de outubro, o governo do DF finalmente anunciou já ter um endereço para o novo cemitério, mas ainda serão necessários estudos de impacto ambiental e sanitário para avaliar se o local é adequado. Enquanto a solução não vem, vigora o ditado popular: estão chutando cachorro morto em Brasília.

O corpo insepulto do bassê encontrado na lata de lixo não terá direito às lápides e epitáfios do velho cemitério — “Lobo, nunca esqueceremos de sua fidelidade”, ou “Baby, por toda a minha vida, sei que vou te amar”. Por ter morrido em meio a uma batalha sem desfecho, ele chegará anônimo ao seu destino final, atirado num lixão de periferia.

Graça Ramos

Graça Ramos, piauiense radicada em Brasília, é jornalista e doutora em história da arte. Autora de Ironia à brasileira (Paulicéia).

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