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Ciranda eleitoral

Os volteios de Marta Suplicy na campanha de 2020

Thais Bilenky
ANDRÉS SANDOVAL_2020

Marta Suplicy dançou. Sem inibição, um pouco fora de ritmo. No vídeo, seu filho, o músico João Suplicy, canta ao violão (Just Like) Starting Over, de John Lennon, enquanto ela balança os ombros e estala os dedos, com os olhos fechados. Sobre a mesa, repousam duas taças de vinho vazias. Depois de alguns minutos de embalo, Marta Suplicy se recosta no sofá – e respira fundo.

Em outro vídeo, ela aparece com os netos, dançando o hit adolescente Say So, de Doja Cat. Sempre um passo atrás das crianças, ela dá soquinhos no ar e faz retângulos com os dedos. Com outro neto, tenta acompanhar a coreografia do sucesso mundial Savage Love, de Jason Derulo e Jawsh 685. Rindo timidamente, o neto pré-adolescente mostra à avó como fazer o “passinho”, com pequenos saltos e girando o corpo de um lado para outro.

Por causa da quarentena, a página de Marta Suplicy no Instagram é repleta de vídeos e imagens assim, com cenas domésticas, pequenas alegrias do dia a dia ao lado da família, o lazer na piscina, as caminhadas ao ar livre, as gracinhas dos animais domésticos, a beleza das flores. “Novo arranjo. Estou firme nas experiências”, escreveu ela junto a uma foto de vasos de orquídeas. “Ousei. Vocês gostam?”, anotou na imagem de outro arranjo.

 

A ex-prefeita, ex-ministra e ex-senadora também dançou durante a campanha política do final do ano passado.



Como apoiadora da reeleição do tucano Bruno Covas (PSDB) à Prefeitura de São Paulo, a ex-petista de 75 anos desfilou num “Martamóvel”, como foi apelidado o veículo adaptado para levá-la às ruas protegida do novo coronavírus. Inspirado no papamóvel, o micro-ônibus tinha no lugar da carroceria uma cabine cercada por grandes paredes de vidro nas laterais e no fundo. Um sistema de som permitia que ela discursasse lá de dentro.

De calça jeans e camisa azul – a cor emblemática do PSDB – Marta Suplicy seguiu por regiões de São Paulo dentro do Martamóvel, com máscara anti-Covid, mas muito animada. Discursou à vontade ao lado de Covas e soprou beijos para o público. Animada pela música dançante do veículo e pela multidão, também arriscou alguns passos de dança. Uma cena foi filmada e viralizou na internet. Alguém comentou no Facebook: “Eles trancados e bem protegidos por vidros de cristal, enquanto pagam miseravelmente os cabos eleitorais para sacudir as bandeiras sem proteção alguma.”

O engajamento de Marta Suplicy na campanha de Covas veio ao fim de uma ciranda mirabolante. Para as eleições de 2020, ela primeiro tentou uma reaproximação com o PT, partido ao qual esteve ligada por 33 anos, até sua ruidosa saída em 2015, a aproximação com o MDB de Michel Temer e o voto pelo impeachment de Dilma Rousseff, de quem havia sido ministra da Cultura.

Cogitou entrar na disputa pela Prefeitura de São Paulo como vice de Fernando Haddad, mas não pelo PT, e sim pela Rede Sustentabilidade, partido com o qual negociou sua filiação. Mas Haddad declinou da candidatura, o PT não quis saber de Marta Suplicy na chapa e acabou escolhendo outro petista para vice do candidato Jilmar Tatto: o deputado federal Carlos Zarattini.

Marta Suplicy chegou a fazer uma aproximação com o PDT. Como não funcionou, ela deu mais um salto, para o lado do Solidariedade, comandado pelo deputado federal Paulo Pereira da Silva, o Paulinho da Força. Ao mesmo tempo, decidiu apoiar o PSDB. Ocorreu, porém, que o Solidariedade já estava fechado com Márcio França, do PSB. Num novo salto, Marta Suplicy abandonou o Solidariedade.

“O problema foi o Márcio”, resumiu Paulinho da Força, “Não o Márcio França, mas o marido dela.”

 

O empresário Márcio Toledo, ex-presidente do Jockey Club de São Paulo, é um homem que prefere atuar nos bastidores. Não gosta de dar entrevistas ou aparecer em público, mas as negociações políticas de sua mulher é ele quem conduz.

“É o Márcio quem manda”, afirmou Paulinho da Força. “Na verdade, a gente nunca teve reunião com a Marta. Foi sempre com ele. Reuniões que duram seis, sete horas. Ele fica bebendo e falando…”

Calma e educadamente, Toledo refutou, numa breve conversa telefônica com a piauí, que seja o negociador político de sua mulher. “Contribuo muito, tentando analisar o cenário político. É disso que eu gosto, é a minha vocação. Mas não ajo como operador, não para alterar a política”, disse. “Interlocução é com a Marta.”

Os motivos que levaram Toledo a fechar com Covas geram muito bafafá nos círculos paulistanos. Políticos especulam que haja interesses comerciais na negociação, mas não apresentam provas. “Isso não procede”, afirmou o empresário, antes de anunciar que encerraria a conversa.

Marta Suplicy – que não quis falar com a piauí – pediu para sair do Solidariedade antes que fosse expulsa por apoiar Covas, de quem ela pleiteou ser vice, sem sucesso. Acabou justificando seu apoio como um gesto em prol de uma “frente ampla” para derrotar o presidente Jair Bolsonaro. E foi mais longe: tentou articular um arco heterogêneo de alianças “em defesa da democracia”. Não deu certo, pois o candidato apoiado por Bolsonaro no primeiro turno, o deputado federal Celso Russomanno (Republicanos), apoiou Covas no segundo. O cabide de empregos de Russomanno na administração municipal, o Procon, foi desmontado pela Prefeitura às vésperas da campanha – e depois das eleições, as relações políticas foram restauradas.

Marta Suplicy conseguiu seu espaço: deve ficar com a Secretaria de Relações Internacionais (a pasta foi reservada para ela no início de dezembro, mas o mapa da nova prefeitura feito pelo time de Covas está sempre sujeito a alterações). Com a indicação para uma secretaria de pouca visibilidade e com muito trabalho de gabinete, os tucanos querem poupá-la de agendas de rua, por causa da idade e da pandemia, e retribuir o apoio que, segundo eles, ajudou Covas a vencer em todas as zonas eleitorais da capital paulistana no primeiro turno, inclusive em redutos petistas na periferia. “Marta está numa fase de vida diferente, muito legal. Fiquei surpreendido positivamente”, disse Wilson Pedroso, coordenador da campanha de Covas.

A recíproca é verdadeira. No Instagram, entre as imagens domésticas, Marta Suplicy registrou vários momentos da campanha e mandou por Twitter um recado para Covas: “Foi uma grande campanha! Que estamina você tem!”

Thais Bilenky

Repórter na piauí. Na Folha de S.Paulo, foi correspondente em Nova York e repórter de política em São Paulo e Brasília