esquina

Cliques no arranha-céu

O novo début do velho Martinelli

Vitor Hugo Brandalise
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2019

Na fila do elevador do Edifício Martinelli, um segurança começou a contar uma versão sinistra da história do prédio. Disse que o primeiro arranha-céu de São Paulo era o orgulho da cidade quando foi inaugurado em 1929, mas virou motivo de vergonha entre os anos 60 e 70. Falou do jovem homossexual assassinado e jogado no fosso do elevador; da mulher loira que morreu ao despencar da escadaria e cuja alma ficou por ali; da clínica de aborto clandestina do 9º andar; dos traficantes, das ocupações irregulares, dos diversos crimes ocorridos no local.

A série de casos era um pouco demais para a estudante do ensino médio Ana Carolina Bombarda, de 14 anos, que aguardava na fila com a mãe, o irmão de 5 anos, uma fotógrafa e um cinegrafista, todos provenientes de Primavera do Leste, em Mato Grosso, a 1 400 quilômetros do Centro de São Paulo. Naquela manhã de 13 de maio, segunda-feira, Ana Carolina buscava no prédio apenas um cenário de época em sintonia com o tema da sua festa de debutante, “Baile de máscaras em Veneza”, e adequado aos cliques do ensaio fotográfico que celebrará o seu rito de passagem. “Não sabia que o Martinelli tinha uma história tão triste”, comentou a jovem.

Antes, o grupo de mato-grossenses tinha feito fotos no Museu do Ipiranga, na Estação da Luz e na avenida Paulista. Para cada ponto turístico, Ana Carolina escolhera um vestido diferente, todos comprados na rua São Caetano, conhecida em São Paulo como “a rua das noivas”.

Para as fotos no topo do Martinelli, ela elegeu um vestido longo com transparências e bordados cor-de-rosa e uma máscara enfeitada com um penacho roxo e lantejoulas prateadas. A debutante acordara às seis da manhã para se maquiar e viera paramentada para a fila, com os cabelos castanho-claros soltos e os olhos castanhos bem marcados com um delineador. Ao vê-la vestida assim no Martinelli, uma criança pediu para fazer uma foto com a “princesa da Disney”.

 

O Martinelli ficou fechado para visitação por dois anos para que fossem resolvidos problemas de segurança. Desde a reabertura, em 19 de abril, turistas formam fila na lateral do prédio, no calçadão da avenida São João, aguardando sua vez de subir ao topo, onde fica a principal atração. Para cada um dos oito horários de visitação por dia, há apenas quinze vagas – uma medida da prefeitura, dona da maior parte do prédio, para fiscalizar o que ocorre lá no alto.

Foi o suicídio de um visitante, em março de 2017, quando as regras de circulação no terraço eram mais frouxas, que motivou o fechamento. Agora, além do número reduzido de turistas, apenas uma área restrita das varandas pode ser visitada. Grades de aço delimitam a circulação e impedem que se chegue perto dos parapeitos. As visitas duram quarenta minutos e são vigiadas por quatro funcionários.

O prédio de arquitetura eclética tem trinta andares e 105 metros de altura. O insólito casarão de quatro andares no topo, onde viveu o empresário do ramo naval Giuseppe Martinelli, foi construído para provar que um edifício tão alto, uma novidade na época, não corria o risco de cair. O contraste entre as linhas neoclássicas do casarão e a arquitetura caótica dos prédios no horizonte de São Paulo é o que mais fascina os fotógrafos.

No fim de março, a prefeitura anunciou que o terraço, mais três andares do prédio e uma loja no térreo serão entregues à iniciativa privada. A reabertura serve para exibir o potencial do espaço. A ideia é que sejam instalados no topo do Martinelli um café, um restaurante e um espaço expositivo sobre a história do prédio e do empresário que o construiu. A previsão da prefeitura é publicar as regras da concessão neste mês de junho. A empresa vencedora poderá cobrar ingressos para as visitas e lucrar com o aluguel para eventos.

 

Depois de trinta minutos de espera na fila do elevador, no hall sombrio do Martinelli, chegou a hora de Ana Carolina, a fotógrafa e o cinegrafista subirem – a mãe da jovem, Giseli Bombarda, tem medo de elevador e o irmão não estava preocupado com o passeio, e sim com um videogame portátil.

Logo que as portas do elevador se abriram, a debutante fez uma expressão de maravilhamento. As paredes da casa, os ornamentos nos parapeitos (mesmo repletos de rachaduras), os suportes dos torreões – era tudo cor-de-rosa, como Ana Carolina sonhara. Nos dezoito minutos seguintes, a debutante posou para 87 fotos e para um vídeo que será exibido na festa.

No topo do prédio, ela ouviu uma versão menos funesta da história do lugar. A animada guia turística falou do arquiteto húngaro Vilmos Fillinger, autor do projeto, e da construção, que começou em 1924 e só foi totalmente finalizada dez anos depois. Citou o granito vermelho na base do prédio, as portas de pinho-de-riga, os lustres de cristal belga (hoje imitações). Relembrou os bons tempos, quando o edifício abrigava partidos políticos, jornais, cinema e um hotel de luxo, o São Bento. E chegou ao declínio: após a falência do hotel, as 247 unidades viraram moradia barata e, em fins dos anos 60, veio a fase de cortiço. A recuperação só ocorreu depois que a prefeitura desapropriou o prédio, em 1975, e instalou nele, quatro anos depois, repartições públicas, como a Secretaria da Habitação, que hoje ocupa grande parte dos andares.

Depois de circular pelo terraço, a debutante perguntou onde estava o café charmoso que vira em Órfãos da Terra, da Rede Globo. “Tudo cenográfico”, explicou a guia, sobre as cenas no prédio mostradas na novela. Aos poucos, a admiração da moça foi dando lugar à frustração: o casarão de Giuseppe Martinelli e o salão de festas estavam trancados. Na busca por um ângulo melhor para as fotos, Ana Carolina quis ultrapassar a área delimitada pelas proteções. Foi barrada.

Ao reencontrar a mãe no térreo, a jovem resumiu suas impressões: “Deviam embelezar o prédio, e não marcá-lo com histórias ruins. Mas a vista é fantástica.” A família da debutante é dona de uma loja de pneus e guarda dinheiro há cinco anos para a festa – que será realizada em 7 de setembro, numa chácara. “Era um sonho antigo meu, e a Ana embarcou na ideia”, disse a mãe.

Depois da visita ao Martinelli, o grupo dirigiu-se a uma loja de fantasias, para comprar trezentas máscaras para os convidados. No dia seguinte, pegaria o ônibus de volta para Mato Grosso e enfrentaria 25 horas de viagem até Primavera do Leste.

Vitor Hugo Brandalise

Jornalista, é autor de O Último Abraço - Uma História Real sobre Eutanásia no Brasil, pela editora Record

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