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Clube da Luluzinha

Produção independente no Brooklyn

Tania Menai
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2014

Três e meia da tarde de uma quinta-feira de janeiro, termômetro marcando 8 graus negativos. Em Park Slope, região nobre do Brooklyn, onde mora Bill de Blasio, o novo prefeito de Nova York, e onde se concentram algumas das melhores escolas públicas da cidade, também fica a Die Koelner Bierhalle. A gigantesca cervejaria que serve a bebida a litro, em clima de Oktoberfest, com seu rústico salão de madeira escura e música alta, foi o lugar escolhido para o primeiro encontro de um grupo de mães pouco convencional.

O ambiente em nada remete ao universo da primeira infância, mas quase todas estavam acompanhadas por seus bebês. Elas se conheceram na internet, por meio do site Park Slope Parents. O endereço eletrônico é uma referência para os pais do bairro e acolhe, entre os grupos de relacionamento, um chamado “Mães solteiras por opção”.

Nenhuma das mulheres participantes se separou do pai de seu filho ou ficou viúva. Na certidão de nascimento das crianças simplesmente não consta o nome do progenitor. Elas optaram pela maternidade sem parceiros, por meio da adoção, da inseminação artificial ou de acordos com “ficantes” eventuais. E, pelo menos em público, parecem bastante realizadas.

Apesar de a comunidade online contar com dezenas de “mães solteiras por opção”, apenas oito delas apareceram na cervejaria. Na faixa dos 40 anos, quatro eram advogadas, uma maquiadora, uma fotógrafa, uma editora e uma consultora. Nenhuma ali reclamava da falta de sono ou de ajuda em casa. As críticas e reclamações se dirigiam a outras mães, as casadas, que costumam manifestar restrições à opção pela produção independente.



Uma advogada que adotou seu menino no Texas contou que vinha recebendo visitas regulares de uma assistente social, incumbida de analisar meticulosamente como ela estava cuidando da criança. “Todos os pais deveriam passar por isso, não apenas quem adota”, opinou, enquanto dava mamadeira ao bebê de 5 meses. A editora, que gastou 50 mil dólares para fazer uma inseminação artificial, comentou que sua filha poderá saber quem é o pai assim que completar 18 anos. “Tenho mais informação sobre o doador de esperma do que muita mulher casada tem sobre seu marido”, afirmou, enquanto bebericava uma caneca de cerveja tamanho gigante.

Do outro lado da mesa, outra mãe contou ter feito as coisas pelas vias naturais: “Para que pagar por algo que você pode obter de graça?”, perguntou. A advogada Eva Golinger tinha acabado um casamento de sete anos quando resolveu ser mãe. Neta de venezuelano, ela passou dez anos em Caracas, onde se encantou pela revolución bolivariana, conheceu o ex-marido e se tornou uma celebridade como escritora politicamente engajada a favor do regime.

Apelidada de “A Namorada da Venezuela” pelo falecido Hugo Chávez, Eva, de 40 anos, é autora de seis livros, sendo o mais famoso El Código Chávez, sobre a participação americana no golpe frustrado contra o então presidente venezuelano. Ela é editora da versão internacional do Correo del Orinoco, um jornal chapa-branca, e desde 2010 apresenta um programa semanal no canal de televisão russo RT.

“Viajei o mundo inteiro, esta carreira me expôs a uma vida incrível, mas quis ter um filho”, disse Eva. “Aos 37 anos, descobri que tinha fibrose uterina, e por isso as chances de conceber diminuíam a cada dia. Meu médico falou: engravide agora.”

Eva chegou a pedir o “favor” para alguns amigos – todos rejeitaram a ideia. A saída foi “se divertir”. Por dois anos, ela teve diversos relacionamentos, deixando claro aos parceiros efêmeros que, mesmo se engravidasse, não queria compromisso de nenhuma espécie com eles. Até que um dia, bingo: o teste da farmácia deu positivo. Muita gente na Venezuela perdeu o sono para descobrir a identidade do pai. Mas Eva não divulgou. Na tarde em que se reunia com as amigas, disse que se tratava de um bonitão separado e pai de dois filhos, irmão de uma amiga, com quem saiu por um mês. “Deixei claro para ele que eu voltaria para Nova York, teria o bebê e ficaria perto da minha mãe – ele topou.”

O interesse pela história foi tamanho que, quando o menino tinha 3 meses (hoje ele tem 2 anos), Eva foi entrevistada ao vivo pela CNN en Español. “O repórter chegou a perguntar se o pai da criança era Chávez. Respondi que não era da conta dele.”

 

Eva disse que, à medida que o filho cresce, aumentam junto os desafios. Um deles: ensinar o menino a usar o penico em pé. A criança não tem uma referência masculina na intimidade, apesar de ter avô e tio. Mas Eva não se arrepende.

“Sem querer ofender os homens, não precisamos deles. Fui casada, e optei por não começar outro relacionamento no qual eu tivesse que cuidar de um marido, catando suas roupas, além de cuidar de uma criança. Não preciso deles financeiramente, e tenho a minha mãe que me ajuda algumas horas por dia”, comentou. Quando o menino começar a perguntar pelo pai, Eva planeja contar que ele vive na Venezuela, e que topa visitá-lo algumas vezes. Nada mais.

A mesa de bar era um microcosmo de uma tendência entre mulheres de mais de 30 anos nos Estados Unidos que já se reflete no mercado editorial. No site da Amazon, é possível encontrar dezenas de livros e guias dedicados ao assunto. Um deles foi escrito por uma participante das mães solteiras de Park Slope, a escritora Louise Sloan, mãe de Scott, de 7 anos. Intitulado Knock Yourself Up, ou Engravide-se, o livro traz na capa o slogan No Man? No Problem! Inclui depoimentos de mais de quarenta mulheres e dicas práticas e legais para quem optou pelo voo solo num país em que as babás cobram 15 dólares a hora.

Sloan mantém uma página na internet chamada Singlewith.com, que ela está transformando em uma revista online, com a intenção de oferecer serviços para pais e mães solteiros, incluindo… namoro. Afinal, nunca é tarde.

Tania Menai

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