questões criminais

A construção de um serial killer

Ele está preso e foi acusado de matar 21 pessoas. Sua história é um prodígio de imaginação

Mario Cesar Carvalho
Melo, no traço de Yoshiharu Kawasaki, profissional que já fez mais de 6 mil retratos falados
Melo, no traço de Yoshiharu Kawasaki, profissional que já fez mais de 6 mil retratos falados CREDITO: YOSHIHARU KAWASAKI_2020

O delegado Wagner Sales, um senhor de 50 anos, cabelos alourados e barba cuidadosamente aparada, preparou-se para a entrevista coletiva daquele 12 de dezembro de 2019. Na sala de imprensa da Polícia Civil de Minas Gerais, em Belo Horizonte, havia uma aglomeração de jornalistas e cinegrafistas. O delegado apareceu em cena e, com um ar grave, fez um anúncio incomum: a polícia havia prendido um assassino em série, responsável pela morte de 21 pessoas no Norte de Minas.

O nome do preso era Laércio Soares de Melo, estava com 55 anos e fora cabo da Polícia Militar. O delegado Wagner Sales descreveu-o como um psicopata, um homem de “perfil frio”, “que não respeita a vida humana, não respeita a dor alheia”. Sales ressaltou que Melo tinha atitudes que pareciam extraídas de filmes de ficção, como o hábito de confortar os parentes da pessoa que ele havia acabado de matar. “Após o desaparecimento da vítima, ele comparecia à casa da família, se colocava para consolá-la e para ajudar nas buscas pelo desaparecido.” O delegado também explicou o método criminal do ex-cabo. “A motivação era a cobiça pelos bens alheios. Ele passava confiança para essas pessoas, e elas se sentiam confortáveis em transferir os bens para ele”, disse. “Depois que ele estava com esse bem, ele ceifava a vítima.”

A notícia da captura de um serial killer se espalhou pelos jornais, tevês, rádios e sites noticiosos de Minas e de fora do estado. “Ex-PM é suspeito de matar ao menos 21 amigos por inveja em Montes Claros”, publicou o diário mineiro O Tempo. “Condenado por dois homicídios, ex-militar é investigado por mais de 20 assassinatos em Montes Claros”, estampou o jornal Hoje em Dia. O site R7 escreveu: “Ex-policial é suspeito de matar mais de 20 ‘amigos’ no Norte de Minas.” Mais discreto, o MG1, telejornal da Rede Globo em Minas, anunciou a prisão de “um ex-policial militar condenado por assassinato” e reproduziu parte da entrevista do delegado, depois de mostrar Melo algemado – e sorrindo.

Minas Gerais é o estado natal daquele que é considerado o maior assassino em série do país, Pedro Rodrigues Filho, que ganhou o apelido de Pedrinho Matador. Ele foi condenado a quatrocentos anos de prisão pela morte de 71 pessoas, embora tenha confessado mais de uma centena de homicídios. Passou 42 anos na prisão, foi solto em 2018 e vive em São Paulo. Ainda assim, apesar de não ser inédita, a notícia da prisão de um acusado de matar 21 pessoas chamou a atenção.



Laércio Soares de Melo, um sujeito atarracado, com 1,60 metro, teve uma infância pobre, virou policial militar com influência sobre seus colegas e, bem relacionado, chegou a entrar para a política. Nada sugeria que, por trás dessa história pessoal, houvesse um serial killer capaz de ceifar a vida de 21 pessoas integrantes do seu círculo de conhecidos.

Quando sua prisão foi anunciada, Melo já não era um homem livre. Ele cumpria prisão domiciliar em sua casa em Contagem, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, onde vivia modestamente. Tinha sido condenado pelo assassinato do despachante Francisco Santos Filho, ocorrido em 2009. Em janeiro de 2019, com uso de tornozeleira eletrônica, ganhou o direito à prisão domiciliar. Em Contagem, morava no primeiro andar de um sobrado de 50 m2, perto de uma favela. Andava com um Celta 2009, comprado à prestação. Pagava seu aluguel, avaliado em 600 reais, com serviços num sítio próximo, onde tomava conta das galinhas e dos porcos três vezes por semana.

Desta vez, Melo estava sendo preso pelo assassinato do comerciante Gilberto Martins, ocorrido em 2003, em Montes Claros. Neste caso, foi condenado por latrocínio, quando se mata com a intenção de roubar. Recebeu uma pena de 31 anos de cadeia. Sua prisão foi anunciada como um grande feito da Polícia Civil, embora o condenado estivesse em prisão domiciliar e não tenha resistido a cumprir as ordens judiciais. Na sentença de dezembro do ano passado, o juiz Rodrigo de Carvalho Assumpção disse que o réu apresentava “fortes indícios de psicopatia e periculosidade, principalmente pela frieza e ausência de remorso”.

As suspeitas de desequilíbrio mental não eram propriamente uma novidade. Em 2012, quando foi preso pelo assassinato do despachante Santos Filho, o ex-cabo já fora descrito como um psicopata. Naquela época, em entrevista coletiva, o então delegado Rodrigo Bossi de Pinho anunciou a prisão de um homem com “perfil de psicopata”, que adotara “a mesma tática em outros crimes”. O delegado comparou o homicídio do despachante com o do comerciante, cuja denúncia ainda não havia sido oferecida pelo Ministério Público.  Encontrou 21 coincidências entre os crimes. Concluiu que Melo era o autor de ambos e foi mais longe: anunciou que ele matara, no total, 21 pessoas.

Na época, a suspeita não ganhou destaque na mídia. Em dezembro de 2019, porém, quando Melo foi preso pela segunda vez e voltou a ser acusado de 21 homicídios, a notícia não passou em branco.

 

Francisco Santos Filho, o Chiquinho Despachante, desapareceu em 30 de dezembro de 2009, em Montes Claros. Tinha 38 anos, 1,70 metro de altura, era magro e costumava esconder a calvície com um boné, o que lhe dava um aspecto de garotão, reforçado pelo olhar inquieto e o sorriso largo. Era conhecido na cidade por seu carisma e simpatia.

Além de trabalhar como despachante, Santos Filho era “roleiro”, como se diz no interior de Minas: ganhava dinheiro com a compra e venda de carros usados, casas e terrenos. Também negociava com títulos públicos, os chamados precatórios, usados por prefeituras para saldar, por exemplo, dívidas com funcionários públicos, que podem reapresentar os papéis no futuro, em data incerta, e receber a quantia devida. O despachante comprava os títulos dos funcionários com desconto de até 50%, um bom negócio para quem precisava de dinheiro com urgência. Em seguida, os vendia pelo valor de face para empresas que podiam usar os precatórios para abater impostos devidos à prefeitura. No fim das contas, Santos Filho obtinha um lucro de 50%.

No dia do sumiço do despachante, sua mulher e os três filhos estavam de malas prontas, esperando por ele em casa para viajarem até uma praia no Sul da Bahia, onde passariam o Réveillon. “O que é que foi feito do Chiquinho?”, martelaram os parentes e amigos nos dias seguintes e durante mais de dois anos nas ruas de Montes Claros, em vão. Um jornal da cidade chegou a fazer um placar diário, publicado por mais de um ano, com perguntas como “Cadê Chiquinho?” e o número de dias que iam se acumulando sem que as autoridades policiais esclarecessem o desaparecimento.

O cabo Melo, que também era “roleiro”, foi a última pessoa a ver Santos Filho. Na versão do militar, os dois foram na manhã de 30 de dezembro ao bairro Lagoinha, na zona rural de Montes Claros, a fim de encontrar um amigo que emprestaria dinheiro ao despachante para ele quitar o precatório de mais alto valor com o qual já havia operado – 160 mil reais. Depois disso, voltaram juntos ao Centro da cidade, segundo Melo, que disse ter deixado Santos Filho à porta de uma agência do Banco do Brasil.

Um sitiante confirmou à polícia que viu os dois homens caminhando perto de uma estrada, na região da Lagoinha. Mas o restante da história de Melo foi logo pelos ares. O homem que ele disse que emprestaria o dinheiro ganhava apenas 150 reais por semana, como empregado de uma loja de material de construção. Havia outra prova mais contundente das mentiras do cabo: Santos Filho nunca mais voltou ao Centro, como atestou um relatório das empresas de telefonia com captações do celular do despachante, feito a pedido do delegado Bruno Rezende da Silveira, que iniciou a investigação em Montes Claros.

Depois do desaparecimento, o cabo Melo passou a espalhar pela cidade que o despachante estava em viagem no exterior, farreando com mulheres, e não tardaria a voltar. Quem ouvia o relato se perguntava: “Como só ele sabe disso?” Para dar veracidade à narrativa, o cabo recorria a fatos antigos, lembrando (como consta do inquérito policial) que Santos Filho tivera vários casos fora do casamento e, certa vez, passou quase um mês na França, sem dar satisfação a ninguém. A viúva do despachante, a advogada Elenice Soares Barbosa Santos, desmentiu tudo: disse que sempre soube onde o marido estava, porque pagava o cartão de crédito dele, e que a história contada por Melo contrariava os hábitos de Santos Filho, pois ele tinha o costume de sempre avisar à mulher e aos irmãos quando precisava se ausentar.

A Polícia Civil concluiu que o cabo agiu com método e frieza: após convencer o despachante a transferir bens para o seu nome, matou-o, desapareceu com o corpo e, para afastar suspeitas, começou a difundir mentiras, visitou os parentes da vítima para dar condolências e chegou a simular um atentado a tiros contra o seu próprio carro, como relatou um informante da polícia. Os investigadores nunca encontraram os suspeitos de participar da encenação.

O delegado Bruno da Silveira acredita que Melo criou um personagem para dar verossimilhança ao que dizia. “Durante a investigação, ele vivia recitando salmos bíblicos. Não falo isso com desprezo, porque sou religioso”, afirmou, numa das salas da Delegacia de Homicídios de Montes Claros, ao lado de uma imagem da Virgem Maria pendurada na parede. “Essa coisa de repetir trechos da Bíblia era parte de um personagem. Ele chamava as pessoas de ‘amado’ ou ‘amada’, era muito gentil, todo prosa, muito educado. Isso, para mim, é perfil de um sociopata.”

 

Em março de 2012, quando o desaparecimento de Santos Filho havia completado dois anos e três meses, Bossi de Pinho, o delegado de Homicídios de Belo Horizonte, conseguiu a prisão preventiva do cabo. A detenção foi obtida graças aos depoimentos incriminadores dados por duas testemunhas, ambas do submundo do crime em Montes Claros.

Uma das testemunhas, Waldeir Ferreira, contou que Melo o procurou no dia em que Santos Filho sumiu e lhe ofereceu 5 mil reais e uma motocicleta para que matasse o despachante. Como recusou a proposta, passou a ser ameaçado de morte. Três dias depois, o cabo, empunhando uma arma, obrigou Ferreira a ligar para familiares do despachante, dizendo que o tinha sequestrado. Não havia coerência nos pedidos de resgate. Numa primeira ligação, pediu 12 mil reais; num segundo telefonema, o valor saltou para 200 mil reais. A encenação era tão mambembe que Ferreira usou o próprio celular e nunca mais voltou a procurar a família.

O telefonema, porém, teve o efeito colateral de provocar conflitos entre os parentes de Santos Filho, contou uma de suas irmãs, a funcionária pública Umbelina Lucia Santos, de 51 anos, a quem todos chamam de Bela. O sequestrador – que parecia repetir palavras de alguém que estava ao lado dele, provavelmente Melo – reclamou que a família estava falando demais sobre o sumiço do despachante e deveria afastar a polícia do caso. “Vocês estão barulhando muito. Tem gente minha dentro da sua casa”, ameaçou o homem, referindo-se ao apartamento da viúva. Umbelina Santos disse que, em seguida, “um irmão começou a desconfiar do outro, a desconfiar dos amigos. Todos achavam que tinha um traidor entre nós”.

A outra testemunha foi Valdir dos Santos Pereira. Preso em regime semiaberto, ele fugiu ao perceber a aproximação da polícia, mas foi recapturado. Estava com medo de contar o que sabia, pois fora praticamente criado com Melo, que conhecia havia 23 anos e considerava seu “meio-irmão”. Pereira fez quatro revelações aos investigadores. A primeira foi que o cabo lhe pedira que arrumasse um menor de idade disposto a assumir, em troca de 100 mil reais, a culpa pelo assassinato de Santos Filho. Contou também que vizinhos do bairro onde ele e o militar foram criados estavam falando que o despachante fora forçado a assinar contratos antes de ser morto por Melo. Afirmou ainda que o cabo lhe perguntara se teria “coragem de matar duas pessoas”, inclusive um advogado, “um membro da OAB”. Por fim, acusou Melo de ter cometido outros crimes em Montes Claros e Monte Sião, a quase 900 km de distância.

 

Filho de um professor de escola rural, Laércio Soares de Melo nasceu em 1964, em Coração de Jesus, no Norte de Minas, numa família de dez irmãos, cinco dos quais seguiram carreira na Polícia Militar. Ele é careca, e seu olhar sempre busca um jeito de não mirar de frente o interlocutor. Teve uma infância dura, segundo o irmão que atingiu um posto mais graduado na PM de Minas Gerais, o capitão reformado Jeremias Soares de Melo. O pai professor exigia que os filhos fossem o exemplo da classe e não os autorizava a brincar nem mesmo nos intervalos das aulas.

Capitão Jeremias tem outro título importante: é a autoridade máxima da Loja Maçônica de Montes Claros. Como está registrado na sua Carteira de Identidade Maçônica, ele ostenta o grau mais alto da irmandade, o de número 33, considerado o de plenitude dentro da ordem – seu titular é chamado de grão-mestre ou mestre maçom. Não é pouca coisa em Montes Claros, onde os maçons são especialmente influentes. O anúncio da criação de uma Delegacia do Idoso na cidade, em vez de ter sido feito num local público, como prega o princípio republicano, ocorreu na Loja Maçônica. Apesar de preservar resquícios do passado, como a modorra de homens enrolando cigarros de palha nas pracinhas, a cidade tem 400 mil habitantes e é hoje um agitado polo econômico e educacional do Norte de Minas, alavancado pelo agronegócio e por duas universidades públicas.

O cabo Melo não era um simples policial em Montes Claros. No meio da Polícia Militar, tinha uma certa liderança política. Em 2004, foi escolhido por seus pares para ser o candidato deles a vereador pelo PMDB, recebendo 911 votos. Disputou em 2008 o pleito pelo PTB, mas teve apenas 1 587 votos e novamente não foi eleito. Dois anos depois, quando ainda não era suspeito da morte de Santos Filho, recebeu 2 689 votos ao concorrer a deputado federal pelo PTN. Chegou a suplente. Em Montes Claros, ele antecipou um fenômeno que se tornaria nacional na eleição presidencial de 2018, quando eleitores de Jair Bolsonaro elegeram PMs pelo país afora.

A mídia da cidade tratava bem o cabo Melo. Ele atuava num batalhão voltado para crimes ambientais e fazia as vezes de porta-voz da PM sempre que as tevês e os jornais precisavam de alguém para comentar alguma contravenção na área.

Quando a Justiça decretou sua prisão preventiva, em 2012, Melo recebeu tratamento privilegiado por causa de sua condição de policial. Ficou preso num batalhão da PM em Montes Claros, onde circulava à vontade pelas instalações, tinha acesso à internet e chegou a convocar uma entrevista coletiva para defender sua inocência. O atrevimento custou caro. A Justiça decidiu transferi-lo para uma instalação da PM em Contagem, atendendo também a um pedido da família de Santos Filho, que alegou que a Polícia Civil de Montes Claros não tinha autonomia para apurar o caso, por causa da pressão da Polícia Militar, junto à qual a família Melo gozava de prestígio.

Dois anos mais tarde, saiu a sentença: dezesseis anos de prisão (depois reduzida para catorze). Melo ficou encarcerado em Contagem. Em janeiro de 2019, cinco anos depois de sua condenação, o ex-cabo passou a ter direito a prisão domiciliar. (A Polícia Militar só expulsou Melo da corporação em 27 de dezembro de 2018, atendendo a um pedido do Ministério Público. A PM de Montes Claros não quis comentar as razões pelas quais nunca pediu a expulsão do cabo. O comandante da 11ª Região Militar, coronel Wanderlúcio Ferraz dos Santos, disse que não tinha interesse em responder às perguntas que a piauí enviou à assessoria de imprensa do órgão.)

Na mesma época em que o comerciante Gilberto Martins desapareceu, em 2003, foi encontrado um corpo na zona rural de Montes Claros, mas a polícia da cidade não investigou o caso, alegando não ter estrutura para tanto. Apenas em 2011, graças a um exame de dna, o corpo foi identificado como sendo o de Martins. Em 2012, quando Bossi de Pinho chamou Melo de serial killer pela primeira vez, já havia a suspeita de que ele houvesse assassinado o despachante. As investigações, porém, correram lentamente. Apenas no ano seguinte, a Justiça aceitou a denúncia do Ministério Público – e a sentença só foi dada em 2019.

Nos dois crimes, o de 2003 e o de 2009, Melo agiu praticamente da mesma forma. Primeiro, aproximou-se da vítima pouco a pouco, até se tornar seu amigo. Depois de ter conquistado a confiança da pessoa, pediu que ela transferisse para seu nome alguns bens, como se fosse um empréstimo e com a promessa de que devolveria o valor do patrimônio transferido, com juros. Feito o acordo, Melo cometeu o assassinato e ficou com os bens. Tanto no caso de Santos Filho quanto no do comerciante Gilberto Martins, ele conseguiu obter de cada uma das vítimas um carro e uma casa. “O Gilberto tratava o Melo como um irmão. Ele fazia parte da nossa família, era muito companheiro”, contou Silma dos Santos Almeida, 44 anos, viúva de Martins. Eram tão amigos que Melo havia combinado batizar o filho do casal, o que só não ocorreu porque o comerciante foi assassinado.

O corpo de Santos Filho nunca foi achado. Policiais da cidade suspeitam que tenha sido dissolvido em ácido.

 

O ex-cabo Melo está preso na cela E2 do pavilhão 12, na ala de ex-policiais condenados da Penitenciária Nelson Hungria, em Contagem. Pouco antes do início da pandemia, ele havia aceitado conversar com a piauí, mas, com as medidas sanitárias adotadas nas prisões, não foi possível realizar o encontro. O ex-cabo decidiu, então, enviar à revista uma carta de sete páginas, na qual afirmou que é inocente e foi condenado pelo assassinato de Santos Filho por causa da armação de um policial, seu rival político em Montes Claros. Sobre a condenação pela morte de Martins, disse que as acusações eram tão absurdas que nem contratou advogado. Deixou a defesa a cargo da Defensoria Pública, que, segundo ele, não teria se empenhado em provar a sua inocência. O julgamento caiu nas mãos de um “juiz irresponsável que sequer conhece a cidade de Montes Claros e muito menos o inquérito”.

Melo considera que foi vítima de “armações” do delegado Bossi de Pinho, que ele descreve como um “desafeto declarado da Polícia Militar”. Para ele, o delegado não foi responsável pela obtenção dos depoimentos de Valdir dos Santos Pereira e Waldeir Ferreira, que o incriminaram no caso da morte de Santos Filho. A gravação do depoimento de Pereira, disse o condenado, foi feita por um capitão da PM, Daílson Freitas, concunhado do despachante assassinado, outro adversário político seu, expulso da polícia em 2017 por fraudar concursos públicos.

Na versão de Melo, Bossi de Pinho recebeu a gravação e fraudou os depoimentos dos dois homens que testemunharam. “O próprio delegado ‘formalizou’ os depoimentos idênticos, com termos utilizados que jamais poderiam ser de autoria deles, sem nenhuma conexão com o inquérito.” Para o ex-cabo, as testemunhas carecem de credibilidade, pois Pereira tem “quinze passagens pela polícia” e Ferreira é “um pobre coitado e alcoólatra”. A piauí não conseguiu localizar as duas testemunhas. A defesa de Melo tentou anular a gravação, mas os desembargadores do Tribunal de Justiça de Minas consideraram a prova válida.

O ex-cabo classificou como “competente” o delegado Wagner Sales, que fez a segunda prisão, em dezembro do ano passado. Mas disse que Sales errou ao repetir acusações feitas em 2012 de que ele seria um serial killer, sem consultar os arquivos da polícia e verificar que não havia nenhum outro inquérito em aberto o acusando de homicídio. O delegado não quis falar à piauí sobre as razões que o levaram a requentar uma acusação.

Para ilustrar que antes da primeira condenação nunca tivera problemas com a Justiça, o ex-cabo evocou na carta seu passado político, ressaltando que jamais foi citado em “qualquer ato ilícito” durante o “fogo cruzado das campanhas” para vereador e deputado federal. Contou que teve sua vida virada do avesso em 2002, quando estava na Terceira Companhia do Meio Ambiente, em Montes Claros, e nada foi encontrado que depusesse contra ele. Naquele ano, essa companhia da Polícia Militar foi alvo de uma devassa no bojo de investigações sobre a chamada Máfia do Carvão, um grupo criminoso de policiais associados a desmatadores no Norte de Minas. “Fui submetido a uma das maiores investigações de desvio de conduta e corrupção na história da Polícia Militar. No final da operação, foram excluídos e presos 24 militares. Sou, com muito orgulho, um dos remanescentes e não indiciados desta companhia ambiental, onde atuei por 25 anos”, escreveu Melo na carta.

 

E o que dizer dos outros dezenove assassinatos do serial killer de Minas Gerais?

Algum tempo depois de esclarecer a morte do comerciante Gilberto Martins, o delegado Bossi de Pinho deixou o Departamento de Homicídios e foi promovido para o setor de polícia que apura fraudes. Com a mudança de Bossi de Pinho, as investigações sobre os outros supostos dezenove homicídios cometidos pelo ex-cabo foram interrompidas depois dos casos do comerciante e do despachante. Nenhuma outra informação sobre as demais mortes foi incluída nos relatórios e inquéritos feitos pelo delegado. Como as suspeitas não foram formalizadas, não houve prosseguimento das investigações, tanto mais que a Polícia Civil de Montes Claros alega não ter estrutura para investigar dezenove assassinatos ao mesmo tempo.

Bossi de Pinho morreu em 1º de janeiro último, vítima de um câncer no esôfago, e não teve tempo de explicar por que colocou o total de 21 homicídios na conta do ex-cabo, sendo que apenas dois foram comprovados. Não conseguiu sequer apontar a identidade dos outros dezenove mortos que teriam sido assassinados pelo ex-cabo. Policiais que atuaram no caso têm uma hipótese: o delegado tinha de fato informações sobre mais mortes, mas não teve tempo de investigá-las e usou a figura do serial killer para conseguir a prisão preventiva de Melo em 2012, baseado no relato de uma testemunha. É tática costumeira da polícia: pintar os criminosos como monstros para impressionar juízes e, assim, conseguir as medidas judiciais que reivindica.

Se o malandro é o barão da ralé, como canta Chico Buarque de Hollanda, o serial killer é a Lady Gaga do noticiário policial – uma espécie de popstar do crime, na comparação do professor de criminologia Scott Bonn, da Universidade Drew, nos Estados Unidos. Por isso, eles fascinam tanto a polícia e a mídia. “Nosso interesse tem a ver com o poder de atração de coisas que são assustadoras e incompreensíveis ao mesmo tempo”, escreve Bonn no livro Why We Love Serial Killers (Por que amamos assassinos em série).

O advogado Julio Antonio Canela Sobrinho, que defendeu Melo à época da primeira prisão, disse que tomou um susto quando soube que Bossi de Pinho acusou o ex-cabo de 21 mortes. “O Melo estava depondo amigavelmente. O clima era de respeito, de tranquilidade. Até que o delegado pediu para interromper o depoimento para dar a entrevista. Foi quando ele falou que o Melo tinha matado 21 pessoas. Quando ele voltou, pedi para o meu cliente ficar em silêncio. Imaginei que o delegado teria provas dessas 21 mortes, mas nunca apareceu nada de concreto.” Na época dessa primeira prisão, não foi realizado nenhum laudo psicológico sobre o ex-cabo. Na segunda prisão, apesar de reforçar o anúncio dos 21 assassinatos, o delegado também não fez laudo psicológico.

Atualmente, a única investigação que vem sendo feita a respeito de Melo é sobre sua participação num crime de estelionato ligado ao assassinato do despachante Santos Filho. Até o momento, ele é um serial killer apenas na imaginação da polícia de Minas.

 

Em Montes Claros, depois das acusações da política, o militar passou a ser visto com desconfiança e medo. Teme-se que, se voltar à liberdade, Melo poderá tornar a matar. Por isso, muitos preferem não falar sobre ele ou falam apenas anonimamente. No começo de março, todas os moradores entrevistados pela piauí disseram ter medo de retaliação, mesmo sabendo que Melo está preso a 427 km dali, em Contagem.

Alguns dias depois da conversa, três entrevistados se arrependeram e pediram que a revista “esquecesse” tudo que haviam dito e não publicasse seus nomes. “Você está mexendo numa história que não deveria”, avisou um parente de Santos Filho. “O Melo vai sair da prisão daqui a pouco, e você não estará aqui na cidade para aguentar o tranco. Mesmo preso, ele tem amigos poderosos dentro da Polícia Militar. Melhor deixar isso pra lá.”

Todos que falam sobre os crimes se espantam com a frieza e a crueldade de Melo, características de sua personalidade que ficaram claras com o assassinato de Santos Filho. No dia seguinte ao crime, o ex-cabo foi tomar café com o irmão do despachante, Domingos Aparecido dos Santos. Dois dias depois, apareceu na casa da mulher da sua vítima, para oferecer ajuda na busca. Três semanas mais tarde, foi visitar a mãe do amigo que ele tinha assassinado.

O irmão do despachante, que hoje cuida de seu pequeno sítio nas redondezas de Montes Claros, contou que a visita de Melo ainda está bem viva em sua memória, apesar de ter ocorrido há mais de dez anos. Nesse dia, Domingos dos Santos estranhou o comportamento do ex-cabo, que normalmente parecia uma pessoa calma, de fala mansa, como a de um “pastor evangélico”, e sempre se expressava com frases gentis que pareciam ensaiadas. “Ele chegou dizendo que queria comprar a minha casa em Montes Claros. Estava muito agitado. Nem sentou pra conversar. Ficou de pé, exibindo dois revólveres na cintura, um 38 e um 32.”

Pouco a pouco, percebeu que tudo aquilo fazia parte de um plano para afastar suspeitas. “Fiquei perplexo. Matar por dinheiro não é incomum. Mas matar por dinheiro e me visitar em seguida não é normal. Ele é um psicopata.” Dias depois, ao encontrar o cabo por acaso na rua, Domingos dos Santos não pensou duas vezes. Aproximou-se e disse, mirando firme os olhos esquivos do militar: “Você matou o meu irmão.”

Mario Cesar Carvalho

É jornalista, autor de Carandiru – Registro Geral (Wide Publishing)

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