esquina

Construção pesada

Uma casa em forma de elefanta

Daniel Camargos
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2017

Seria muito mais fácil para Stamar de Azevedo Júnior ter construído uma casa em homenagem a Sete-de-Ouros, o burrinho pedrês que protagoniza um dos contos de Sagarana, livro de João Guimarães Rosa lançado em 1946. Afinal, o terreno que pertence ao pedreiro de 57 anos localiza-se na avenida São José, distante apenas 1 quilômetro da moradia onde nasceu o célebre escritor, em Cordisburgo, às portas do sertão mineiro.

Mas não. Azevedo quis fazer diferente e fisgar de outra maneira os turistas que acorrem à cidadezinha de 9 mil habitantes para visitar o simpático museu roseano ou a magnífica gruta de Maquiné. Há oito anos, o mestre de obras projetou e começou a erguer uma residência de concreto em forma de elefante. Ou melhor: de elefanta, a Lakshmi. O nome é o mesmo da deusa indiana que personifica a beleza e a prosperidade. O pedreiro decidiu batizar a construção dessa maneira após ver um quadro em que a divindade do hinduísmo aparece junto de outro deus, Ganesha, representado por uma criatura de feições predominantemente humanas, apesar de ostentar quatro braços e cabeça de paquiderme.

Pelo menos do lado de fora, Lakshmi está finalizada. Com 12 metros de comprimento e 8,5 de altura, ocupa toda a área do lote irregular de 74 metros quadrados. Exibe cílios longos, olhos azulados, unhas cor-de-rosa e duas tetas generosas, cujos bicos de arame se posicionam logo acima de quem adentra o terreno. Quando ficar totalmente pronta, a casa irá dispor de um quarto, um banheiro, uma sala e uma pequena cozinha. “Também terá uma capela e uma cascata”, sonha Azevedo, envergando um chapéu Fedora com abas mais curtas que o habitual. Divorciado, pai de cinco filhos e avô de oito netos, ele não disfarça o orgulho sempre que o apontam nas ruas e dizem: “Lá vai o Professor Pardal.”

O mestre de obras calcula que sua criação já consumiu 240 sacos de cimento, três caminhões de areia e um de brita. “Construí tudo sozinho, nos dias de folga”, pavoneia-se. Por enquanto, gastou 63 mil reais do próprio bolso. Um empresário local doou outros 12 mil. De início, Azevedo planejava morar dentro do bicho, mas acabou desistindo. Preferiu transformá-lo em mais um ponto turístico de Cordisburgo.

Ultimamente, o pedreiro – que não completou o ensino fundamental – anda abatido. Recebeu uma multa de 487,81 reais por não cumprir exigências do Corpo de Bombeiros em relação à casa. O contratempo o levou a fechar Lakshmi para visitas. Até o dia 14 de fevereiro, quando se deu a mais recente inspeção, Azevedo cobrava 2 reais de quem desejasse conhecer o interior inacabado da elefanta cinzenta e subir as escadas que conduzem às costas dela, onde há uma espécie de mirante. Agora, resta aos curiosos apenas posar para fotos diante do peculiar imóvel. O fechamento, aliás, ocorreu em péssima hora. Recém-inaugurada, a rodovia LMG-754, que liga Curvelo a Cordisburgo, fez aumentar o fluxo de forasteiros na terra de Guimarães Rosa.

 

O Corpo de Bombeiros de Sete Lagoas, cidade polo da região, alega que Lakshmi – chamada simplesmente de “edificação” na letra fria dos burocratas – não possui o auto de vistoria. O documento atestaria que a residência cumpre os requisitos de segurança previstos na lei estadual nº 14130/01, sobretudo os relativos à prevenção de incêndio e à sinalização de emergência. Para obtê-lo, o mestre de obras precisaria aumentar as escadas de acesso ao lombo do animal, o que significaria abrir um talho de 10 centímetros em cada pata traseira e um buraco considerável na barriga. Azevedo, entretanto, se recusa a mutilar a elefanta.

Os bombeiros a inspecionam desde 2012 e, embora detectem falhas recorrentes, afirmam que nunca a interditaram. Foi o próprio pedreiro que, num gesto dramático, resolveu fechá-la. Irritado com o que tacha de burocracia, cogitou um ato ainda mais grandiloquente. “Pensei em comprar uma lona preta para cobrir Lakshmi de cabo a rabo e mostrar que estou de luto.” Recuou da ideia porque não perdeu completamente a esperança de solucionar o problema à moda dos mineiros – com jogo de cintura e fala mansa.

Entre um trabalho e outro como mestre de obras, Azevedo sempre gostou de esculpir. Fazia peças sacras, anões da Branca de Neve e burrinhos, ainda que não o Sete-de-Ouros. Em 2000, o então prefeito de Cordisburgo o convidou para erigir seis réplicas de animais pré-históricos na praça Otacílio Negrão de Lima, todos do período pleistoceno: uma preguiça-gigante, um tigre-dentes-de-sabre, um toxodonte, um tatu-gigante, uma preguiça-pequena e um mastodonte. Intitulado Zoológico de Pedra Peter Wilhelm Lund, o espaço presta tributo à memória do cientista dinamarquês que inaugurou a paleontologia no Brasil e realizou estudos importantes na gruta de Maquiné. “Houve um tempo em que eu bebia demais”, recorda o pedreiro. “Durante as bebedeiras, costumava prometer que, cedo ou tarde, iria construir uma casa com formato de elefante. A turma gargalhava e dizia: ‘O Stamar está ficando doido.’ Pois vejam o doido agora…”

 

No TripAdvisor, site especializado em turismo, Lakshmi recebeu 59 avaliações. Dez visitantes a consideraram uma atração excelente, 22 a classificaram como muito boa, 24 como razoável e apenas três como ruim. “Amo elefantes e achei tudo maravilhoso – os detalhes, o tamanho e a oportunidade de subir para ver a vista. Fantástico!”, escreveu alguém que se denominou alinearqurbanista.

Quando perguntam ao mestre de obras se existe o risco de as pendências com o Corpo de Bombeiros ganharem proporções maiores e transformarem a elefanta num elefante branco, a resposta é quase ríspida: “Não! Nada de elefante branco! Esse termo se refere a construções públicas que desperdiçam impostos. Não é o caso da Lakshmi. Eu a criei com meu dinheiro e suor. Ela é inteiramente minha!”

Daniel Camargos

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