esquina

Copa das conflagrações

Dilemas político-esportivos de um jovem comunista no Mineirão

Nuno Manna
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2013

No início da tarde de 26 de junho, o jornalista Terêncio de Oliveira estava em meio aos cerca de 50 mil manifestantes – segundo as contas da polícia – que se aglutinavam na avenida Presidente Antônio Carlos, em Belo Horizonte. Iniciavam a marcha rumo ao Mineirão, onde em breve o Brasil enfrentaria o Uruguai pela Copa das Confederações. Seu objetivo era chegar até o chamado “perímetro da Fifa”, zona de segurança delimitada pela organização do evento, que incluía a central de transmissão no ginásio do Mineirinho e o campus da Universidade Federal de Minas Gerais.

A poucos quilômetros dali, outra multidão percorria a avenida Presidente Carlos Luz, o outro grande eixo que liga a região central da cidade ao Mineirão. Para evitar o encontro com os manifestantes, era essa a via que a polícia recomendava aos 57 mil torcedores com ingresso para a semifinal. Nas duas avenidas, não era incomum identificar figuras exaltadas, enroladas na bandeira brasileira e com o rosto pintado de verde e amarelo. O grito de guerra da torcida foi puxado em ambas: “Sou brasileiro/ Com muito orgulho/ Com muito amor.”

Terêncio de Oliveira, um comunista autodeclarado de 27 anos, havia participado das manifestações anteriores na capital mineira. Herdou o ativismo do pai, Paulo Sergio Ribeiro de Pinho, ex-candidato ao governo e à prefeitura do Rio de Janeiro pelo PCO, Partido da Causa Operária. Na adolescência, Terêncio panfletou ao lado do pai e tentou articular a juventude do PCO na capital mineira, sem grande êxito.

Quando faltavam duas horas para o início da partida, o rapaz abandonou os colegas de protesto e tomou um ônibus que faria o trajeto pela Carlos Luz até o Mineirão. Afinal, não podia desperdiçar os ingressos comprados há meses para os jogos da Copa das Confederações em Belo Horizonte. Terêncio é apaixonado por futebol e chegou a escrever sobre o tema para revistas especializadas.

Acomodado numa cadeira do anel superior do Mineirão, vestindo uma camiseta surrada do Pink Floyd e bermudão camuflado, o jornalista disse não ver contradição em sua atitude. Trocar o protesto nas ruas para assistir à competição promovida pela Fifa, argumentou, não significava trair a causa. “Do mesmo jeito que não adianta eu simplesmente parar de tomar Coca-Cola”, comparou.

Na Antônio Carlos, o clima era de apreensão. Nas vésperas do jogo, o prefeito Marcio Lacerda declarou que haveria “tolerância zero contra o vandalismo”. O comandante da PM mineira recomendou a quem quisesse protestar que permanecesse no ponto de concentração, no Centro – quem saísse em passeata rumo ao Mineirão se submeteria “a um risco desnecessário”.

Quatro minutos após o início da partida, as primeiras bombas de gás e balas de borracha eram lançadas contra um grupo de manifestantes que se desviara da multidão e tentara avançar sobre o perímetro da Fifa. Alguns entoavam um grito recorrente naquela tarde: “Não vai ter Copa! Não vai ter Copa!”

 

Logo na entrada do estádio, funcionários diligentes da Fifa tratavam de recolher os “itens proibidos” conforme o código de conduta da organização. A lista incluía previsíveis armas, narcóticos e animais de toda sorte, mas também cartazes, bandeiras, folhetos e roupas que pudessem “tirar o foco desportivo do evento”.

Os poucos cartazes que passaram pelo crivo inicial reclamavam do estado das rodovias ao Novo Código Penal. Mas não tardaram a ser flagrados pelos fiscais que circulavam de colete laranja fluorescente e olhar grave – eram 1 050 no total. Um brigadista que reforçava a segurança notou um cartaz subversivo que escapara à vigilância e o denunciou a um fiscal: “Aquele ali é de protesto, ó.” O funcionário analisou o cartaz que exaltava em espanhol o burburinho das ruas – QUE LA CALLE NO SE CALLE– e não viu motivo para confiscá-lo. “Ah, não é em português, pode deixar.”

Nos momentos de jogo parado, Terêncio de Oliveira aproveitava para criticar as demandas intransigentes da Fifa e a submissão dos governantes brasileiros. “Mas nem sempre foi essa palhaçada”, ressalvou. “Em 1998 a Fifa não fez o que quis na França. Imagina se eles fecham a Sorbonne e enchem de militares, como fizeram na UFMG?”

Sem medo dos fiscais, Terêncio arriscou puxar um impropério contra a Fifa, mas os torcedores pareciam mais preocupados com o gol de empate do Uruguai que levaria o jogo à prorrogação. À Seleção de Luiz Felipe Scolari, reservaram o apoio incondicional. Hostilidades contra o juiz ou Galvão Bueno, por outro lado, tiveram ampla adesão. No segundo tempo, eclodiu uma discussão na arquibancada e um grupo de torcedores acionou o grito que ecoou pelas ruas de Belo Horizonte durante os protestos: “Sem violência! Sem violência!”

Quando a Seleção fez seu segundo gol, no final do jogo, qualquer tensão se dissipou, e o grito de orgulho e amor pelo país voltou a reinar contundente.

 

Fora do estádio, os manifestantes estavam alheios ao jogo. No intervalo, os bombeiros apareceram para socorrer um rapaz que, em meio ao tumulto, havia caído de um viaduto que cruza a Antônio Carlos. No Twitter, circulou um trocadilho com o lema da bandeira de Minas: Protestas Quæ Sera Tamen – Protesto ainda que tardio.

Ao final da tarde, o saldo era de lojas e agências bancárias depredadas, quatro veículos incendiados e cinco pessoas gravemente feridas – o rapaz do viaduto não resistiu e foi a quinta vítima fatal da onda de protestos. Mas o Brasil estava na final.

Caminhando pelas imediações do Mineirão, a satisfação de Terêncio com o resultado vinha amalgamada de angústia. O jovem comunista se sentiu momentaneamente realizado quando avistou por ali um homem vendendo chocolates: “Um ambulante no perímetro da Fifa”, observou, admirado. E completou com um riso agridoce: “Um herói da resistência.”

Nuno Manna

Nuno Manna é jornalista em Belo Horizonte.

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