esquina

Corona! Corona!

Em poucos dias, cinquenta cães foram despachados às pressas para o exterior

Giulia Paravicini
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2020

De Adis Abeba
Tradução de Heloisa Jahn

Quando o primeiro caso de coronavírus foi anunciado na Etiópia, em 13 de março, sexta-feira, corri para o Ministério da Saúde, na capital Adis Abeba, com o restante do pessoal da imprensa, ansiosa por notícias.

Eu havia passado semanas lendo sobre a escalada vertiginosa dos casos do novo coronavírus na cidade onde nasci, Milão, e na minha cidade de adoção, Bruxelas – a Itália e a Bélgica foram países severamente atingidos pela Covid-19. Também passei horas no Zoom e no WhatsApp respondendo quizes e bebendo vinho etíope barato, enquanto ouvia parentes e amigos em apartamentos desarrumados na Europa me contarem sobre suas quarentenas.

Nessas chamadas sempre havia um momento recorrente, em que o tom das vozes passava de brincalhão a sério para indagar como minha família e eu estávamos lidando com a pandemia na África. Claro, eles achavam que estávamos passando um mau momento, longe de casa, presos num continente conhecido por ter sistemas de saúde deficientes e privados dos confortos mais simples, como comida à vontade e banho quente.



É verdade que sinto muita falta de mozarela, mas a realidade é outra. Até aquela sexta-feira à tarde, a vida não tinha mudado em nada. O trânsito continuava maluco; rebanhos de cabras entravam na cidade para o abate depois da Quaresma; a hora do almoço, para alguns, ainda significava partilhar um prato de injera, que é uma espécie de pão achatado típico da culinária etíope, usando só as mãos, sem talheres.

Rodeada de dezenas de repórteres, Lia Tadesse, designada ministra da Saúde na véspera, anunciou que um japonês de 48 anos que havia chegado ao país vindo de Burkina Faso, testara positivo para a Covid-19. O anúncio era feito depois de dias de histeria na assim chamada comunidade de expats de Adis Abeba, composta sobretudo por funcionários de entidades humanitárias e diplomatas. A maior preocupação deles era com a perspectiva de haver um bloqueio total do espaço aéreo. Filhos e cônjuges foram despachados em voos de preços inflados. Em menos de 48 horas, todos haviam voltado para suas cidades, muitas vezes localizadas em países onde o número de casos beirava as dezenas de milhares. Até 28 de maio, a Etiópia registrava apenas 831 casos de coronavírus, com sete óbitos.

A histeria se transformou em pânico para os que eram forçados a ficar, mas queriam mandar seus cachorros de volta, pois, caso houvesse uma evacuação oficial, seus amigos peludos não seriam aceitos a bordo. Em poucas semanas, cinquenta cães, inclusive meia dúzia de chiuauas e um buldogue de 70 kg – cuja passagem para Washington, D.C., custou mais de 1 500 dólares – foram retirados da Etiópia, para espanto do pessoal do aeroporto, que bem depressa aprendeu a nunca chamar um cachorro de “cachorro” na frente de seus afeiçoados donos.

Mais cedo neste ano, minha cadela Joon dera à luz cinco filhotes, alguns dos quais já haviam sido adotados por famílias de expats. Mas tão logo o novo coronavírus chegou a Adis Abeba esses filhotes me foram rapidamente devolvidos. Assim, no fim de março, eu estava com sete cachorros, já que também havia adotado o pai, um vira-lata etíope.

Enquanto isso, em Adis Abeba, metrópole esparramada e superpovoada de 4 milhões de habitantes – e onde uma em cada cinco pessoas não tem acesso a água corrente –, o avanço do coronavírus já se fazia sentir.

 

Moramos, eu e meu companheiro, em Ferensay, um bairro de muitas ladeiras e com calçamento de paralelepípedos, que antigamente era um reduto da oposição e o lugar onde viveram membros da família do imperador Hailé Selassié, que governou a Etiópia de 1930 a 1974.

Como no meu bairro não existem supermercados, costumamos comprar nossas frutas e verduras diretamente de vendedores ambulantes. Alguns dias depois que a Etiópia anunciou seu primeiro caso de Covid-19, o preço do alho, do limão e do gengibre, todos supostamente remédios contra o vírus, dispararam, e muito depressa esses produtos acabaram. Em poucas horas o suprimento de máscaras, desinfetantes e luvas se esgotou em todas as farmácias. Táxis e Rides – versão local do Uber – passaram a não aceitar passageiros estrangeiros. Se o paciente número 1 era estrangeiro, então a doença também tinha de ser estrangeira – foi o que se ouviu nas ruas. Uma manhã, saímos eu, meu companheiro e um dos nossos cachorros para correr, e os vendedores ambulantes gritaram para nós: “Corona! Corona!”

No começo, o governo determinou o fechamento das escolas por tempo indefinido, impôs uma quarentena obrigatória de catorze dias a quem vinha do exterior, a ser passada em hotéis designados pelo Estado, e, para limitar o tráfego, implantou um rodízio de veículos conforme as placas – pares ou ímpares em dias alternados.

Só que não proibiu oficialmente reuniões de cunho religioso, e os etíopes se voltaram para Deus. A igreja cristã ortodoxa é a religião preponderante neste país de 110 milhões de habitantes, praticada por cerca de um terço da população. Em segundo lugar, vem o islamismo. Milhares de fiéis envergando os trajes brancos tradicionais se aglomeraram do lado de fora das centenas de igrejas da capital desde as primeiras horas do dia, desafiando as medidas de distanciamento social e as advertências dos serviços de saneamento público. As autoridades não tiveram outra saída senão proibir todas as reuniões que envolvessem mais de quatro pessoas.

Inspirados na Europa e nos Estados Unidos, vários outros países do continente africano optaram por medidas mais severas, como lockdowns totais e fechamento completo do espaço aéreo, o que a Etiópia descartou fazer. A Ethiopian Airlines, maior companhia aérea da África e importante fonte de receita para o governo, manteve seus voos e já declarou perdas de mais de 1 bilhão de dólares com a pandemia.

A Etiópia registrou um número muito menor de casos do novo coronavírus e óbitos do que os vizinhos Somália e Quênia, e muitas pessoas aqui alimentavam a esperança de ver a normalidade restaurada em agosto. Contudo, a previsão do Centro de Controle e Prevenção de Doenças da União Africana (Africa CDC), sediada em Adis Abeba, e da Organização Mundial da Saúde é de que os casos atingirão o pico quando for verão no continente (entre junho e setembro) – e dizem que é cedo para ser otimista.

Diferentemente dos que fugiram há alguns meses, agora estamos presos em Adis Abeba e não podemos viajar pela Etiópia em busca de notícias porque muitas regiões adotaram restrições e quarentena, inclusive para viagens domésticas. Assim, enquanto a Europa começa a se abrir e a viver um novo tipo de normalidade, permaneço confinada em Adis Abeba. Meu parmesão e meu azeite de oliva já acabaram. Estou tentando convencer nossas duas galinhas a pôr ovos, sem sucesso. Talvez tenhamos um longo verão.

Giulia Paravicini

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