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Um vereador de Minas Gerais e sua quarentena virtual

Malu Gaspar
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2020

“Foi o diagnóstico mais injusto”, disse o médico do vereador Gabriel Azevedo quando soube do resultado positivo para o teste de Covid-19. Isso porque o político do Patriota em Belo Horizonte andava tão preocupado com o avanço do vírus que adotara uma série de providências para evitar a contaminação.

No dia 12 de março, ao tomar conhecimento que a Organização Mundial da Saúde tinha declarado que o mundo vivia uma pandemia, Azevedo mandou os oito funcionários do gabinete trabalharem em casa. Depois, ligou para o pai, de 79 anos, e o chamou para ficar isolado com ele. Era o dia do aniversário de 34 anos do vereador, que tinha programado um happy hour com a família e a equipe, mas, por precaução, acabou trocando o programa por um jantar só com os pais e a tia.

No dia seguinte, mesmo sem ninguém apresentar sintomas, marcou um teste num laboratório privado para os pais, a tia, a avó e os funcionários.

Na segunda-feira, dia 16, participou da primeira reunião da comissão da Câmara Municipal criada para discutir o enfrentamento da pandemia em Belo Horizonte. À tarde, ficou sabendo que o deputado federal Tiago Mitraud (Novo), com quem havia se encontrado na sexta-feira, dia 13, estava doente. Imediatamente, fechou-se em casa e postou no Instagram uma foto trabalhando de calça jeans e chinelos na biblioteca de seu apartamento, tendo a seus pés o buldogue Winston Churchill: “Estou entrando em quarentena. Não sinto nada, mas abracei o deputado federal @TiagoMitraud na festa do @MateusSimoesBH na sexta-feira e uma notícia acaba de ser publicada afirmando que ele é um caso suspeito de coronavírus.”



Na terça-feira, Azevedo recebeu uma ligação do laboratório. E soube que, de seu grupo de testes, ele era o único contaminado.

 

Primeiro, o vereador se sentiu mal. “Fiquei péssimo. Eu tinha colocado meu pai no meu apartamento para protegê-lo, e sem querer o expus ao vírus!” Depois, pediu a um amigo que abrigasse Churchill e seu outro cão, Charles de Gaulle, com medo de transmitir o vírus aos bichos. A seguir, voltou ao Instagram, onde tem 42 mil seguidores, e postou uma foto do teste e um vídeo com uma explicação em tom grave. Ao fundo, viam-se as bandeiras do Brasil, de Minas Gerais e de Belo Horizonte. “Importante deixar claro: o Brasil está em guerra. Nosso adversário é invisível e pode ser letal. Estudei sete anos em escola militar de Belo Horizonte e aprendi que a palavra convence, mas o exemplo arrasta. O que posso fornecer de mais precioso a vocês neste momento é o meu exemplo.”

Após reconstituir a rotina dos dias anteriores, Azevedo concluiu que havia boas chances de ter contraído o vírus na noite de sexta-feira, 13 de março. Foi quando ele compareceu à festa de aniversário de Mateus Simões, seu amigo e secretário de governo de Romeu Zema, e encontrou não só o governador, mas parlamentares que na véspera tinham se reunido com o presidente da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais, Flávio Roscoe – um dos 23 integrantes da comitiva de Jair Bolsonaro aos Estados Unidos que pegou a doença. Outros sete convidados foram contaminados. Embora já houvesse mais casos do novo coronavírus na capital mineira, o de Azevedo foi o primeiro de transmissão comunitária, uma vez que ele não havia viajado para o exterior nem tido contato direto com ninguém que chegara do estrangeiro.

Dado o risco, a Câmara foi fechada ao público e passou a funcionar online. Do “gabinete virtual” instalado na sua biblioteca, Azevedo, ainda sem sintomas, passou a receber uma enxurrada de mensagens em suas redes sociais e no aplicativo desenvolvido pelo gabinete, o Meu Vereador. Em 21 dias de confinamento, foram mais de 3 mil mensagens – o quíntuplo do normal. Quase todas sobre a doença e muitas de gente que dizia estar infectada e sofrendo preconceito. “Nessa hora, o que as pessoas mais precisam é falar com as outras, porque sempre há discriminação. Uma moça me contou ter sido chamada de irresponsável na empresa em que trabalhava. Outra estava mal porque foi xingada e hostilizada pelos parentes.”

O próprio Azevedo passou por um episódio incômodo. “Vereador que está com coronavírus fez festa para duzentas pessoas há seis dias”, dizia o título de uma reportagem publicada no UOL e reproduzida em vários sites. Da forma como estava redigido, o título parecia sugerir que Azevedo havia espalhado o vírus, o que o expôs aos ataques das redes sociais. A festa, porém, não fora no dia 12, como dizia a matéria, e sim no dia 7, dez dias antes de Azevedo ter os primeiros sintomas.

As imagens do aniversário, também publicadas pelo vereador no Instagram, mostravam vários políticos e colunáveis de Belo Horizonte se divertindo num grande baile de Carnaval à fantasia: Azevedo de bobo da corte, o senador Antonio Anastasia (PSD) de sultão. Naquela noite, uma partida entre Atlético e Cruzeiro reuniu mais de 53 mil pessoas no Mineirão. O Brasil registrava apenas treze casos da doença e nenhum em Belo Horizonte. Azevedo procurou os veículos que publicaram a matéria e conseguiu que a informação sobre a data da festa fosse corrigida. Ele diz que também entrou em contato com dezenas de convidados, por telefone e via redes sociais, e não encontrou ninguém que tivesse contraído o vírus.

 

A febre, os calafrios, a tosse e uma forte dor no peito vieram em 19 de março, dois dias depois do diagnóstico. O vereador caiu de cama. Os antipiréticos não funcionavam. “Senti uma solidão terrível.” Na porta de seu apartamento, os vizinhos e amigos deixavam comida, oração, cartinhas, livros. “Lá dentro, era só eu e meus anticorpos.” Emocionado, postou um agradecimento no Instagram. Depois, afastou-se das redes sociais – por ordem do médico, que receitou apenas descanso, paracetamol e boa alimentação. Nada de hidroxicloroquina.

Ao voltar às redes, já visivelmente melhor, mas ainda fraco, Azevedo exibiu a cabeça raspada. Também informou que seu pai tinha contraído uma pneumonia bacteriana e estava internado. Não era o novo coronavírus.

Apesar da preocupação, o vereador seguiu publicando alertas sobre a Covid-19, fotos e indicações de livros de sua biblioteca. No sábado à noite, dia 4 de abril, ainda isolado, mas cheio de animação, postou um vídeo em que, sem camisa, cantava Eu Te Amo, Te Amo, Te Amo, de Roberto e Erasmo Carlos, a plenos pulmões. Sucesso de público, o vídeo também rendeu muitas cantadas virtuais. Estava já claramente recuperado, mas só deixaria o isolamento no dia 9 de abril.

Nesse dia, recebeu o resultado de um novo exame, agora mostrando que não tinha mais a doença. Colocou uma máscara de tecido militar camuflado, pegou a bicicleta e foi fazer uma radiografia, para completar o check-up. E descobriu que os pulmões ainda guardavam resquícios de infecção, o que o obrigaria a tomar antibióticos e permanecer mais algum tempo em casa. Foi o que ele explicou ao postar nas redes sociais a imagem radiológica, assim como a foto do ecocardiograma e o vídeo da retirada do sangue. “Sou um homem transparente”, escreveu ele, no post. “E de carne e osso.”

Malu Gaspar

Repórter da piauí, é autora do livro Tudo ou Nada: Eike Batista e a Verdadeira História do Grupo X, da editora Record

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