questões de estilo

Correio literário

Como chegar (ou não chegar) a ser escritor

Correio literário
31ago2018_07h15
Conselho a um aspirante a escritor: “Tudo neste mundo se desgasta com o uso constante, menos as regras gramaticais. Faça uso delas sem medo – tem bastante para todos.”
Conselho a um aspirante a escritor: “Tudo neste mundo se desgasta com o uso constante, menos as regras gramaticais. Faça uso delas sem medo – tem bastante para todos.” ILUSTRAÇÃO_NEGREIROS_2018

Tradução e apresentação de Regina Przybycien

O nome é difícil – Wisława Szymborska – e a língua na qual ela escreveu – o polonês, com suas fileiras de consoantes – é quase inconcebível para os brasileiros. Apesar disso, a poeta tornou-se conhecida e estimada entre os leitores no Brasil, principalmente depois da publicação de duas coletâneas: Poemas (2011) e Um Amor Feliz (2016), ambas pela Companhia das Letras.

Szymborska nasceu em 1923, em Bnin, no oeste da Polônia, mas viveu em Cracóvia dos 7 anos até a morte, em 2012. Começou sua atividade literária nos anos 40. Durante o período stalinista teve de se adaptar às exigências da ideologia vigente, escrevendo poemas engajados que depois renegou. Considerava como a sua verdadeira estreia literária o livro Wołanie do Yeti [Chamando pelo Yeti], de 1957. Em 1996, foi agraciada com o Prêmio Nobel. Sua poesia, mesmo ao explorar temas extremamente densos, mantém certa leveza graças ao humor.

Além da produção poética, Szymborska se dedicou ao jornalismo literário. Inicialmente tentou escrever resenhas, mas não se adaptou às exigências desse tipo de texto. Percebeu que algumas obras, como dicionários, livros de autoajuda e de popularização da ciência, eram negligenciadas por seus colegas resenhistas. Decidiu então utilizá-las como ponto de partida para crônicas divertidas sobre os temas nelas abordados. Durante décadas publicou-as sob o título “Leituras não obrigatórias”.

Em 1953, foi contratada pela revista Życie Literackie para chefiar a coluna de poesia. A correspondência enviada para a redação era tão volumosa que, em 1960, os editores decidiram criar uma nova rubrica, “Correio Literário”, para responder as cartas. Grande parte dos remetentes era constituída de escrevinhadores que submetiam seus textos para publicação.

Szymborska e o crítico e filólogo Włodzimierz Maciąg, responsáveis pela rubrica, respondiam as cartas anonimamente. Sendo a única mulher na redação, ela adotou uma estratégia para não ser reconhecida como autora das respostas: utilizava o plural “nós”, pois, como em polonês alguns tempos verbais têm gênero, a primeira pessoa do singular poderia revelar sua identidade. Graças a esse recurso foi possível identificar as respostas da poeta nos arquivos da revista, uma vez que seu colega escrevia na primeira pessoa do singular.

Na introdução da coletânea Poczta Literacka – Czyli Jak Zostać (Lub Nie Zostać) Pisarzem [Correio Literário – Como se Tornar (Ou Não) um Escritor], publicada em 2000, Szymborska declara haver mais diversão do que valor didático nas suas respostas aos aspirantes a escritor. Nas tiradas irônicas pode-se perceber, porém, o rigor de seus julgamentos. Nesta seleção de textos publicados pela piauí, traduzidos diretamente do polonês, o leitor tem a oportunidade de conhecer a poética de Szymborska e ao mesmo tempo deleitar-se com seu senso de humor.

REGINA PRZYBYCIEN

 

Observador,
Cracóvia

O senhor nos acusa injustamente de destruir os jovens talentos literários. “É preciso” – lemos – “tratar com carinho essas plantinhas frágeis e não, como vocês fazem, criticar sua fraqueza e incapacidade de produzir um fruto já maduro.” Não somos partidários do cultivo de plantas literárias em estufas. Elas devem crescer em ambiente natural e ir se aclimatando desde cedo às suas condições. Às vezes a plantinha acredita que vai ser um carvalho, mas nós vemos que ela não passa de uma folhinha de relva comum. Nem o mais zeloso dos cuidados vai fazê-la virar um carvalho. Às vezes, é claro, podemos errar no diagnóstico. Mas, ora, nós com certeza não proibimos essas plantas de crescerem, não as arrancamos com as raízes. Podem continuar a crescer para um dia darem testemunho de nossa falibilidade. Com entusiasmo reconheceremos nosso erro. Ademais, se o senhor lesse nossa coluna com mais boa vontade poderia perceber que, quando encontramos algo digno de elogios, tentamos sublinhá-lo. O fato de haver poucos elogios já não é culpa nossa. O talento literário não é um fenômeno de massa.

 

M. Z.,
Varsóvia

A vida de um redator do Correio é cheia de surpresas. Exigem de nós coisas impossíveis. Por exemplo, de quando em quando nos pedem para escrever uma carta (particular!) dizendo como e o que escrever para ser publicado. Outros nos pedem para juntar materiais para tarefas escolares ou para escrever artigos acadêmicos. Outros ainda solicitam uma lista completa dos livros que devem ser lidos, como se o desenvolvimento do escritor não exigisse total autonomia nessa área. O senhor, seu Marek, contribuiu de maneira simpática para esse registro nos enviando um punhado de poemas finlandeses (no original!), propondo que escolhamos para publicação os que quisermos – e, uma vez feita a escolha, o senhor se compromete a traduzi-los. Bem, pela aparência todos os poemas nos agradam: escritos num papel bonito, a fonte impressa de forma limpa e clara, os espaços e as margens regulares, só uma palavra riscada com caneta azul, o que não desfigura demasiado o poema e, além disso, atesta que o autor corrigiu cuidadosamente o texto datilografado.

 

J. G., Szczecin, A. Z., Łódź,
H. K., Distrito de Gniezno

A primavera. Ah, a primavera. Moças cruéis trocam uns poetas por outros e o resultado é um reduplicado afluxo para a redação de versos cheios de: a) dor na consciência: “Elogiavas meus feitos, mesmo eu tendo muitos defeitos”; b) determinação: “Mas o esforço é em vão, o mundo inteiro não te arrancará do meu coração”; c) amargura: “Não estavas a meu lado, quando fui sepultado, mas minha alma está contigo e do céu eu te bendigo”; d) promessas precipitadas: “Não permitirei que um destino incerto te abandone só no deserto”; e) um amável incentivo: “E quando eu finalmente for teu, tu te banharás nos olhos meus”… Tudo isso é humano e de algum modo cativante, mas é de estranhar que na redação cada nova primavera desperte em nossos espíritos um terror difícil de definir?

 

P. Z. D.,
Chorzów

“Me deem alguma esperança de ser publicado ou pelo menos me consolem…” – depois da leitura, somos obrigados a escolher a segunda alternativa. De modo que – atenção – estamos consolando. Espera-o um destino fantástico, o destino de um leitor, e de um leitor da melhor espécie porque desinteressado; o destino de um amante da literatura, que dela será sempre o parceiro mais forte, ou seja, não aquele que precisa conquistar, mas que é conquistado. Você lerá as coisas mais variadas pelo simples prazer de ler. Não perseguindo os “recursos”, não ponderando se isso ou aquilo poderia ser mais bem escrito, ou tão bem quanto, mas de outra maneira. Sem inveja, sem crises depressivas ou ataques de desconfiança que acometem os leitores que também escrevem. Dante para você será Dante, quer ele tenha tido ou não uma tia na editora. À noite não vai torturá-lo a pergunta “Por que o fulano, que não escreve em rimas, foi publicado, e eu, que rimei tudinho e contei nos dedos as sílabas não mereci nem mesmo uma palavra de resposta?” Você não vai estar nem aí para a cara do editor e nem ligar, ou então ligar bem pouco, para as caretas dos revisores. E outra vantagem considerável é que frequentemente se diz “um escritor fracassado”, mas nunca “um leitor fracassado”. Existem, é claro, montes de leitores fracassados – naturalmente não o incluímos nesse círculo –, mas para eles dá na mesma, ao passo que, se alguém escreve e não se sai muito bem, todos ao redor ficam logo pestanejando e suspirando. Mesmo com a própria namorada não dá muito para contar. E então? Você está se sentindo como um rei? Mas claro!

 

Łubin

Como se tornar um escritor? Você faz uma pergunta incômoda. Igualzinho àquele menino que perguntou como se fazem as crianças e, quando a mãe respondeu que explicaria depois porque no momento estava muito ocupada, começou a insistir: “Então me explique pelo menos a cabeça…” Bem, tentemos também nós explicar pelo menos a cabeça: é que tem que ter um pouco de talento.

 

Marlon,
Bochnia

Nem todo mundo que sabe desenhar um gato sentado, uma casinha com fumaça saindo da chaminé ou uma cara composta de um círculo, dois traços e dois pontos vai ser um grande pintor no futuro. No momento, querido Marlon, os seus versos estão exatamente no estágio desses desenhos. Escreva mais, pense sobre a poesia, leia poesia, mas procure adquirir um ofício prático, independente da proteção das musas. Segundo dizem, elas são histéricas, e nas histéricas não dá para confiar.

 

Halina W.,
Białystok

Vamos dizer de uma vez algo muito chocante: a senhora é uma pessoa simples e ingênua demais para escrever bem. Nas entranhas do escritor de talento se agitam diversos demônios. E, mesmo se cochilam (ou deveriam cochilar) antes ou depois de escrever, no momento da escrita têm uma atividade frenética. Sem a ajuda deles o escritor não poderia ter empatia pelas complicadas vivências de seus personagens. Nada do que é humano me é estranho – ah, sob essa frase não se escondem biografias de santos bem-comportados. Nossos sinceros cumprimentos.

 

H.C.,
Cracóvia

A falta de talento literário não é nenhuma desgraça. Pode acontecer a pessoas inteligentes, esclarecidas, nobres e extremamente talentosas em outras áreas. Quando dizemos que um texto é pobre, não pretendemos ofender ninguém nem lhe tirar a fé no sentido da existência. Mas, de fato, nem sempre proferimos o nosso julgamento com uma cortesia chinesa. Ah, os chineses. Esses sabiam, em tempos idos, antes da Revolução Cultural, responder aos poetas pouco afortunados. A resposta era mais ou menos assim: “Os seus poemas superam tudo que já foi e que ainda será escrito. Se fossem publicados, sob sua luz ofuscante empalideceria toda a literatura, e os outros autores que dela se ocupam sentiriam dolorosamente o seu próprio nada…”

 

Buscador,
Kudowa

Não, não temos manuais de escrita de romances. Parece que nos Estados Unidos se publicam coisas assim, mas nos permitimos duvidar de seu valor, isso porque o autor que conhecesse uma receita infalível para o sucesso literário preferiria ele próprio se valer dela em vez de ganhar a vida escrevendo manuais. Simples, não é? Simples.

 

Ula,
Sopot

Uma definição de poesia em uma frase – puxa! Conhecemos pelo menos umas quinhentas definições, mas nenhuma nos parece precisa e ampla ao mesmo tempo. Cada uma expressa o gosto de sua época. Nosso ceticismo inato nos impede de formular uma nova definição. Mas recordamos um belo aforismo de Carl Sandburg: “Poesia é um diário escrito por um animal marinho que vive na terra e quer voar pelos ares.” Serve por ora?

 

Pal-Zet,
Skarżysko-Kamienna

Da leitura dos poemas que nos enviou conclui-se que você não percebe que há uma diferença significativa entre poesia e prosa. O poema “Aqui”, por exemplo, é uma despretensiosa e prosaica descrição de um quarto e dos móveis que ele contém. Na prosa, uma descrição desse tipo tem sua função estritamente definida: estabelece o pano de fundo no qual se desenrola a ação. Em um instante a porta vai se abrir, alguém vai entrar e algo vai começar a se passar. Na poesia o que “se passa” é a própria descrição. Tudo se torna importante e significativo: a escolha das imagens, a sua composição e a forma que assumem nas palavras. A descrição de um quarto comum tem que se tornar ante nossos olhos a descoberta desse quarto, e a emoção dessa descoberta deve ser partilhada por nós. Do contrário, por mais que o autor tenha dividido com cuidado as frases em versos, a prosa continua sendo prosa. E, o que é pior, sem uma sequência.

 

L.P.,
Kutno

Seria lindo e justo se a intensidade do sentimento pudesse decidir por si só o valor artístico do poema. Nesse caso, com certeza Petrarca seria um zero à esquerda em comparação com o jovem de sobrenome – digamos – Bombini, já que Bombini realmente enlouqueceu de amor, ao passo que Petrarca conseguiu conservar o equilíbrio emocional adequado para a invenção de belas metáforas.

 

Alcybiades,
Żywiec

O poema, cautelosamente assinalado com três asteriscos, começa assim: “Me tiraram a casa/refúgio para meu medo/me tiraram o ar/e o mofo das alcovas…” Uma coisa é certa: alguém aqui está se lamentando, mas quem? Algo que o poema até o final não esclarece. Alcova traz à mente acontecimentos antigos. Quais? Ou pode ser também que os fatos estejam acontecendo em nossos dias, mas num prédio antigo. Mistério. E quem são esses malfeitores? Me tiraram a casa! Tiraram o ar! Se tiraram o ar quer dizer que o sufocaram. Mas num único assalto tiraram também o mofo, o que afinal merece certo reconhecimento. Com que objetivo fizeram ao mesmo tempo uma coisa e outra? Quatro versos e cem dúvidas. Cem? Nenhuma. O autor simplesmente não sabia o que estava escrevendo. Não é o primeiro nem o último. E a vida vai passando.

 

K. K. K.,
Katowice

Um romance policial em nada pior dos que se costuma ler na revista Panorama. Não desprezamos de modo algum esse gênero, pois é o único que se pode ler com certa atenção na sala de espera do dentista. Mas a verdadeira literatura só começa quando os personagens vivos intrigam mais do que o misterioso cadáver. Cordiais saudações.

 

Ewa,
Bytom

Quem sabe, talvez algumas forças poéticas dormitem no fundo da sua alma, mas o fato é que ainda não conseguem aflorar. Você lhes põe obstáculos amontoados em pilhas de metáforas soltas, tantas que não dá para ver o mundo além delas. O esforço para ser poético é a fraqueza mais comum dos poetas iniciantes. Temem a frase corriqueira e complicam, dificultando a vida deles mesmos e dos outros. De cada dez, um supera esse maneirismo e simplesmente se torna um bom poeta, cinco deixam de escrever de vez, um se volta para a prosa (esperemos que com melhor resultado!) e quatro continuam a escrever, estranhando somente, cada vez mais, que seus poemas não impressionem ninguém. Se formos contar, os dez de repente viraram onze. Enquanto escrevíamos isso, parece que alguém se juntou ao grupo.

 

M.O.,
Trzebień

“A despedida do verão brota como um peito branco de uma túnica presa com uma joia.” Várias perguntas se colocam: por que como um peito, por que necessariamente branco, por que brota e por que de uma túnica? O restante do poema deixa nossa inquietude sem resposta. Em vez disso, surge Adão tentado pela serpente, uma audaciosa novidade que, contudo, provavelmente não vai pegar. A humanidade absorveu com grande prazer a ideia de que Eva é culpada de tudo.

 

Br. U.,
Varsóvia

Um poema à primeira vista ultramoderno, aqui e ali uma escadinha, aqui e ali um “e” escrito num verso isolado, naturalmente nenhuma vírgula ou ponto, algumas letras no meio das palavras escritas em maiúscula (novidade!), mas, quando se lê, então aparecem, em toda sua melancolia de museu, “granizada de beijos” e “chuva de lágrimas” e “ri palhaço”. Tudo isso junto é como um Alfa Romeo que não sai do lugar porque, em vez de gasolina, encheram o tanque de aveia.

 

Mił,
Brzesko

As descrições da natureza não fazem parte dos serviços obrigatórios de um escritor. Se não se encontram palavras frescas o suficiente para fazer com que o relato seja interessante, é melhor esquecer o brilho da lua na água. Ademais, o fragmento de romance que nos enviou fala do roubo de uma vaca. Num momento como esse nem o ladrão nem a vaca conduzida do estábulo têm cabeça para admirar os encantos da natureza.

 

P.F.,
Cracóvia

Sr. Piotr, o senhor não vai evitar o sentimentalismo só pelo fato de escolher um tema duro. O sentimentalismo é uma atitude que pode se manifestar com qualquer tema e em qualquer situação. Concordamos que é algo que falseia a vida, mas não vamos nos deixar convencer de que tomar vodca é a única atitude verdadeira e de que o único lugar autêntico no mundo é o bo-tequim. Ultimamente esse tema e esse cenário têm estado na moda na prosa dos nossos jovens. Temos lido um grande número de narrativas boas e más dessa espécie. Os mesmos tipos, as mesmas conversas, os mesmos estados fisiológicos, a mesma ressaca. Em resumo, tudo isso é extremamente sentimental às avessas. Um antissentimentalismo programado também tem seus esquemas que logo se tornam enfadonhos. Que horror!

 

Kamila W.

O que separa as pessoas? Um muro invisível. Com que se deve comparar uma grande cidade? Com uma colmeia ou selva. Como é o vazio? O vazio é estéril. O que faz uma corda tesa? Arrebenta, é claro. O que decepcionou este editor? Isso.

 

B.G.,
Tarnów

O desejo do autor de que seus escritos causem uma impressão inesquecível no leitor é completamente normal. O problema às vezes é a pobreza da escolha dos recursos estilísticos para causar essa impressão. Não pela primeira, mas talvez pela septingentésima octogésima nona vez advertimos que o uso de termos exagerados enfraquece o todo ou produz um efeito absolutamente não desejado pelo autor. Na sua narrativa aparentemente acontecem coisas apocalípticas: alguém “tritura” a maçaneta com a mão, ao passo que bastaria dizer que apertou com força a mão na maçaneta. O trem, é claro, corre “como louco” – quer dizer que se avizinha uma catástrofe? Nada disso: logo depois ficamos sabendo que chegou à estação e, ademais, com atraso. O vento “sopra feroz”, alguém sente “um inferno” dentro de si, uma moça espera na estação como “uma estátua de dor” e, para que fique mais assustador, uma estátua “atingida por um raio”. E, depois disso, notamos que todos continuam vivos, caminham, comem, constituem uma família e que de fato nada aconteceu. Como leitura desintoxicante, recomendamos a comedida descrição estilística da explosão de um vulcão feita por Plínio, o Jovem.

 

Kar. M.,
Sędziszów

Os médicos têm sorte; sempre podem receitar algum comprimido. Para o nosso ramo, a indústria farmacêutica ainda não inventou nada. Por isso recomendamos a gramática da língua polonesa três vezes ao dia após as refeições.

 

Kali,
Łódź

Somos partidários do velho princípio de que o escritor deveria saber um pouco mais sobre seus personagens do que eles próprios. Ou, no mínimo, o mesmo tanto. Com certeza nunca menos. Como se explica a decisão de Marek de, sem mais nem menos, largar o trabalho na fábrica? Não há nenhuma justificativa na narração para essa atitude e, no entanto, é um fato crucial na vida do protagonista, decisivo para o seu futuro. Para cada pequeno ato de uma pessoa existe uma infinidade de razões. O escritor ambiciona descobrir essas razões, criar uma hierarquia segundo o grau de importância e, com frequência, trazer à luz razões até então despercebidas. A palavra “porque” é a mais importante na língua terrestre e talvez também nas línguas de outras galáxias. O escritor deve conhecê-la e fazer uso dela. Para começar – procure descobrir algo mais sobre o seu Marek.

 

B.D., Piastów,
Perto de Varsóvia

O pecado original de um escritor debutante: a fé na onipotência do tema. Parece que basta inventar um tema para que a parte maior e mais importante do trabalho já tenha sido realizada – e o pouco que resta, ou seja, a sua narração, é um detalhe sem a menor importância. Ainda mais quando o tema em si é atraente: o amor. O amor de uma jovem por um homem casado que acaba por vontade própria, bem no espírito dos conselhos que aparecem nas revistas femininas. Entretanto, as coisas são muito diferentes. O tema é a parte mais fácil e em si mesmo não tem nenhum valor literário. Começa a tê-lo quando está inserido numa realidade psicológica ou social, quando aparece documentado pela observação e experiência do autor. Na sua narração tudo é superficial e apenas esboçado: uma cidadezinha qualquer, uma jovem qualquer, um homem qualquer. No coração da jovem misturam-se “vários sentimentos contraditórios”, o homem “cerra os seus lábios com um beijo”… Pode-se escrever assim, mas escrever assim não se deve.

 

Ewus,
Chełm, Região de Lublin

E de novo, pela segunda vez nesta semana, nós, redatores, recebemos autorização para fazer todas as correções que julgarmos necessárias. A literatura não vai se beneficiar com debutantes tão pouco sérios como esses. Ficamos imaginando se o Comitê Olímpico Polonês alguma vez recebeu cartas com o seguinte teor: “Pretendo ganhar o campeonato mundial – autorizo-os a treinar por mim…”

 

Paulina,
Jelenia Góra

Fábulas com animais que apresentam uma moral estão meio fora de moda; sendo assim, ocupar-se desse gênero exige nova invenção, ainda que, pelo menos, nos tipos de animais introduzidos. Na sua história, outra vez o leão, outra vez o lobo, outra vez a ovelha. Rogamos que busque animais que Esopo deixou de lado. As bactérias, por exemplo.

 

Marek,
Varsóvia

Temos um princípio: todos os poemas sobre a primavera são desqualificados automaticamente. Esse tema deixou de existir na poesia. Na vida, é claro, continua existindo. Mas são duas coisas distintas.

 

Leon e Tymoteusz

A descrição da sra. Grażyna e do sr. Robert na cama cumpre com os requisitos do realismo (do pequeno realismo[1] porque pequeno, mas enfim). A ressaca depois da mistura de conhaque com cerveja dá a sensação, quando se lê, de uma verdade fisiologicamente experimentada. A topografia dos locais de entretenimento de Łódź é impecável. Só não se sabe exatamente do que vivem os protagonistas. Perguntamos não porque gostaríamos de viver como eles, o que seria demasiado enfadonho e implicaria a obrigação de manter conversas pouco inteligentes – como se depreende dessa novela. Perguntamos porque na prosa realista é uma informação importante. Balzac introduziu essa dificuldade e ela permanece.

 

Ludomir,
Olsztyn

Pelos poemas que nos enviou chegamos à conclusão de que você está apaixonado. Alguém disse que todo apaixonado é um poeta. Mas talvez seja um exagero. Nossos votos de sucesso em sua vida pessoal.

 

Leo W.,
Gdańsk

Valorizamos um romance com digressões, principalmente se forem filosóficas. E ainda mais se nele divaga um “cientista de extraordinário talento” – como você define o seu principal protagonista. Infelizmente, o peso específico dessas digressões é bastante fraco. E, pior, esse cientista tem na cabeça um melancólico galimatias. Corrigimos só o que pode ser colocado em frases curtas: 1) Lineu não era romano; era sueco; 2) A doutrina de Epicuro não tem nada a ver com o epicurismo no sentido comum do termo. Outra pessoa talvez não, mas um intelectual ambicioso deveria saber disso quase que antes de nascer; 3) Ptolomeu não era um cretino, mas um sábio que se equivocou. Como esse é apenas o começo do romance, que certamente está permeado de mais divagações, avisamos cortesmente que entre a filosofia de Descartes e a visão de mundo de Cartesius não há grandes discrepâncias. Isso só por precaução.

 

Michał B.

Lemos a sua narrativa com impaciência porque o estilo não augurava nada de bom. Entretanto nos surpreendeu o final, que revela sensibilidade psicológica. Nas próximas tentativas use as grandes palavras com o cálculo de um boticário ou, melhor ainda – não as use até nova ordem. Para algumas delas você pode voltar depois de algum tempo. Para outras, como esses “absolutos da satisfação” e esses “infernos do vício” – nunca, em nenhuma hipótese, porque não são boas companhias.

 

Bolesław L-K.,
Varsóvia

Parece que essas dores existenciais lhe vêm muito fácil. É um pouco demais para nós esse desespero e essa profundidade tenebrosa. “A profundeza do pensamento” – escreveu nosso caro Thomas (Mann, pois quem mais seria) – “deveria sorrir.” Lendo Oceano, chapinhávamos numa poça rasa. Pense na vida como uma aventura extraordinária que lhe aconteceu. Esse é – por hora – nosso único conselho.

 

O autor de O Mundo do Pianista

Recomendamos que – pelo menos por alguns meses – você leia unicamente os grandes humoristas. Não será uma perda de tempo porque, como se sabe, eles proporcionam imenso prazer e descanso para a imaginação cansada do próprio lirismo e, por fim, dão uma boa lição do ridículo que é toda seriedade desmedida. Após essa cura você verá os seus poemas com outros olhos. A atmosfera de O Mundo do Pianista lhe parecerá bem tensa e a metáfora “a vida nos lambe com a língua dos contrastes” não despertará pela segunda vez o orgulho do seu autor. Saudações.

 

Z.O.,
Olsztyn

O verso livre foi inventado antes da criação do nosso semanário. Quanto ao prosaísmo, há séculos a poesia não faz outra coisa que buscar formas prosaicas e se libertar da poeticidade existente. Mas sempre cria novas regras e novos vícios da imaginação dos quais com o tempo se livrará, e assim sucessivamente. E, por fim, será mesmo a coisa mais importante classificar uma obra literária em determinado gênero? Não valeria a pena, de vez em quando, lê-la sem se importar se é poesia ou prosa? Talvez ela seja apenas interessante e expresse algo muito atual?

Baśka

“Meu namorado diz que sou bonita demais para escrever boa poesia. O que acham dos poemas em anexo?” Achamos que você é de fato uma moça linda.

 

Tomasz K.,
Chełm, Região de Lublin

“Por acaso escrevi vinte poemas. Gostaria de vê-los publicados…” Infelizmente tinha razão o grande Pasteur quando disse que o acaso só favorece as mentes preparadas. A musa o encontrou espiritualmente em trajes menores.

 

K.T.,
Łódź

“Amo o sublime, o nobre, o belo/Amo as noites e as flores/e amo teu olhar singelo/que converto em mil cores…” Gostaríamos de saber como se faz isso e com que objetivo.

 

C.P.,
Szczecin

“Em relação à cor verde sou como um amante num filme erótico. Sinto um grande desejo de lançar as bases para o conteúdo fantástico de um romance em homenagem a meu amigo, o cibernético.” Com essas palavras começa o capítulo “Desespero profundo”. O título substitui a nossa avaliação.

 

Żegota,
Białystok

Caso publiquemos o texto, pedimos que envie o endereço atual de Kazimierz Przerwa-Tetmajer[2] para que possamos mandar a ele o pagamento de 80% dos direitos autorais.

 

“Homo”,
Trzebinia

Você nos pergunta qual é a nossa opinião sobre Homero. Até agora a melhor possível. Por quê? Aconteceu alguma coisa?

 

Melissa V.,
Cracóvia

Tudo neste mundo se desgasta com o uso constante, menos as regras gramaticais. Faça uso delas sem medo – tem o suficiente para todos.

 

A. Ł.,
Varsóvia

Tente se apaixonar em prosa.

 

Malina Z.,
Krynica

“Modifiquem o que quiserem, mas publiquem!” Modificamos por inteiro e resultou nas Líricas de Lausanne.[3] Infelizmente já publicadas.

 

A. K.,

Zagłębie

O melhor poema é o sem título: ali já aparecem trechos poeticamente bastante maduros. Em um poema, trata-se sempre de causar a impressão de que essas e não outras palavras há séculos esperam se encontrar para constituir um todo agora indissolúvel. Pedimos que nos envie algo mais e, caso passe por Cracóvia, visite nossa redação e as tumbas do Castelo de Wawel.

 


[1] Corrente literária polonesa dos anos 60 do século XX.

[2]  Kazimierz Przerwa-Tetmajer (1865-1940): poeta ligado ao decadentismo do final do século XIX.

[3] De Adam Mickiewicz (1798-1855), poeta romântico polonês.

Este texto integra o livro Poczta Literacka, inédito no Brasil.

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