esquina

Costuras suprapartidárias

Um alfaiate da República

Tai Nalon
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2015

Era uma tarde quente de janeiro e o Congresso Nacional estava às moscas. Severo Silva, no entanto, não tinha um minuto a perder. Aos 70 anos de idade, 42 de profissão, ele tinha apenas dez dias para entregar mais de vinte encomendas. A sede do Legislativo seria invadida por uma horda embalada em lã fria no dia 1º de fevereiro, data da posse dos parlamentares eleitos em 2014. Parte das vestimentas, alinhavadas a mão, viria das agulhas e linhas de Silva, responsável pelos ternos de figuras notórias da República, como o ex-deputado e vice-presidente Michel Temer.

Um senhor de baixa estatura e cabelos pintados de castanho-escuro, Severo Silva tem sua oficina numa sala modesta do Conic, famoso centro comercial de Brasília. Ali, auxiliado por três oficiais de alfaiataria – os profissionais que costuram as peças –, ele confecciona cerca de trinta ternos por mês. Sob o calor seco de 35 graus, usava camisa social azul-marinho e calça cinza. “É janeiro, minha filha, e eu só visto terno quando sou obrigado.”

No início do ano, período de recesso do Congresso, o alfaiate apronta as indumentárias encomendadas com antecedência. Nos demais meses, reserva as terças e quartas-feiras para circular pelos corredores e gabinetes da Câmara e do Senado. Lá, com a mesma dedicação com que corta tecidos, busca clientes novos e, dos antigos, recebe pedidos para a renovação do guarda-roupa. Contou preferir os tecidos de procedência italiana, de textura super 120, adequados, na medida do possível, ao clima brasileiro.

Natural de Patos de Minas, mas com a carreira toda feita em Brasília, Silva guarda em casa os moldes da clientela. As segundas-feiras são dedicadas à parte mais delicada do trabalho: o corte do corpo do paletó — mais ou menos curto, mais ou menos acinturado, com lapela maior ou menor. As mangas, proporcionais ao corpo, são colocadas depois. As calças, se dispensam grandes detalhes, vêm por último.

A verdade, afirmou, é que um terno é muito parecido com o outro: dois botões, sem pregas, barra lisa. Quanto mais fina a gravata, menor a lapela. Quanto menor a lapela, mais justo o terno. “Aí é que entra a diferença entre um homem que precisa de um terno e um homem que quer um bom terno. O que quer um bom terno sabe que as diferenças estão nos pequenos detalhes”, disse.

 

O código do Legislativo é estrito, e o do Judiciário, mais ainda. Nos plenários do Congresso, quando há sessões em andamento, só se entra de terno e gravata. Nas sessões solenes, o uso do costume é obrigatório inclusive nos espaços de circulação das duas Casas. Nos tribunais, não se atravessa a portaria sem terno.

Já tentaram derrubar a obrigatoriedade da vestimenta, sob a alegação de não ser ambientalmente correta, mas ela prevalece como marca indelével do poder em Brasília. Até 2013, vinha acompanhada de mordomia para deputados e senadores – o auxílio-paletó. Ao final de um mandato de quatro anos, a ajuda somava 53,4 mil reais. Um ano depois, a Operação Lava Jato reafirmou a importância do traje no ambiente brasiliense: cortes de tecidos nobres integravam presentes destinados a políticos, numa lista apreendida pela Polícia Federal numa construtora.

Classe em extinção, o alfaiate sobrevive, ao menos na capital, graças aos regimentos internos dos Poderes republicanos. Um conjunto de calça e paletó by Severo Silva custa no mínimo 1 500 reais. Seu principal concorrente são as lojas de ternos prontos, não customizados, que podem cobrar menos da metade desse valor e ainda parcelar a compra. Esse comércio, menosprezou Silva, costuma usar tecidos da China, mais baratos e, segundo ele, de qualidade inferior. “Não existe mais pano nacional. Os chineses vieram com tudo”, queixou-se.

Silva costuma trabalhar em parceria com Luiz Carlos Fernandes Bargas, conhecido por Luiz Laporta, que costura camisas sob medida para políticos, juízes e advogados. Laporta – cuja oficina fica na sobreloja de uma padaria na Vila Planalto, bairro popular de Brasília – fez dos dois filhos seus sucessores na profissão, mas reclama que a escassa mão de obra encarece as peças além do que gostaria. Camisas de 250, seu preço mínimo, mal pagam o profissional qualificado.

 

Independentemente da coloração partidária dos clientes, os ternos confeccionados por Severo Silva são invariavelmente em tons de azul, preto ou cinza. Do alto de sua experiência, entretanto, ele afirma que a posição ideológica tem, sim, influência na roupa. Quanto mais à esquerda, menos o sujeito é preocupado com a aparência. Seus clientes mais assíduos vêm do baixo clero e das siglas nanicas. “O PT daquele pessoal do sindicalismo não liga muito pra essa coisa de se vestir bem.”

Embora atenda “o mais elegante homem do governo”, Michel Temer, o cliente favorito de Silva é o ex-deputado Roberto Jefferson, do PTB do Rio, condenado no mensalão. O alfaiate apanhou duas tiras de pano azul – um de padronagem brilhosa, outro liso. “Está vendo estes tecidos? É pro casamento do Roberto Jefferson. É, ele vai se casar daqui a uns três meses. Não sabia? Vou mandar essas amostras pra ele ainda hoje. O tecido que ele queria eu não estou encontrando.”

O ex-deputado se veste com Silva desde antes da cirurgia bariátrica – foram mais de 200 ternos sob medida. Outro comprador assíduo é o ex-senador piauiense Heráclito Fortes, que voltará a Brasília em fevereiro, como deputado, e encomendou seis conjuntos de calça e paletó para a reestreia no Legislativo. “Mais do que isso não falo. Os outros que eu não citar podem ficar com ciúme”, disse Silva.

Ele pretende se aposentar em três anos. Suas décadas de trabalho, de gabinete em gabinete, pagaram a casa e a criação dos três filhos. Nenhum deles seguiu a profissão. Todos, porém, são funcionários da Câmara dos Deputados. O mais novo precisa de um terno, contou, porque vai trabalhar na posse. “Já avisei que vou comprar na loja. É mais barato. Como é que se diz? Santo de casa não faz milagre. E com o dólar alto desse jeito é que não faço mesmo.”

Tai Nalon

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