diário

Cotidiano de silêncio forçado

Como é viver sem ruídos desagradáveis e sem a beleza da música

João Carlos Carreira Alves
Com o aparelho TDD que tem em casa, João Carlos faz ligações telefônicas sem precisar ouvir ou falar. Comunica-se por escrito
Com o aparelho TDD que tem em casa, João Carlos faz ligações telefônicas sem precisar ouvir ou falar. Comunica-se por escrito FOTO: ROGÉRIO REIS_2007

AOS 3 ANOS DE IDADE, JOÃO CARLOS CARREIRA ALVES TEVE SARAMPO, CUJAS SEQÜELAS POSSÍVEIS SÃO A CEGUEIRA E A SURDEZ. NA ÉPOCA, FOI TRATADO COM ESTREPTOMICINA, ANTIBIÓTICO QUE TEM A SURDEZ COMO UM DOS POSSÍVEIS EFEITOS COLATERAIS. JOÃO CARLOS, HOJE COM 53 ANOS, MORA NO RIO DE JANEIRO E TRABALHA COMO ANALISTA DE TECNOLOGIA DA INFORMAÇÃO NA DATAPREV, A EMPRESA DE PROCESSAMENTO DE DADOS DA PREVIDÊNCIA SOCIAL

 

TERÇA-FEIRA Comecei o dia com uma ida ao cartório do Catete para reconhecer minha firma num documento. Chegando lá, peguei uma senha e passei a monitorar o painel eletrônico. Não funcionava. Fui ao balcão para avisar que meu número era o 642 e que, como sou surdo, não poderia ouvir quando fosse chamado. Pedi que me fizessem o favor de acenar com a mão quando chegasse a minha vez. O tempo passou e notei que as pessoas que chegavam depois de mim estavam sendo atendidas. Só quando fui reclamar caiu a ficha do funcionário. Isso ocorre com freqüência porque consigo falar quase normalmente, o que não torna óbvia, à primeira vista, a minha surdez. Perdi a audição ainda pequeno, quando já havia aprendido a falar. Felizmente, minha mãe fez um trabalho insistente de manutenção da minha fala, corrigindo erros de dicção que costumam se acumular quando a pessoa perde a audição. Se tivesse ficado surdo antes de aprender a falar, meu perfil seria bem diferente.

Ainda no cartório, recebi pelo celular uma mensagem de texto de uma amiga. Ela confirmou que me acompanharia até Niterói, onde eu faria exame médico, marcado para os aprovados num concurso público para o magistério estadual. Esses exames sempre me dão medo. Até porque tive péssima experiência no ramo. Lá pelos idos de 1978, minha mãe tinha encaminhado o meu pleito e agendado uma audiência com um secretário do governo do Estado, cujo nome não recordo. Mas me lembro de ter sentado na frente dele, em seu gabinete, sem notar que havia um assessor escondido atrás da cortina, que começou a falar pelas minhas costas. Evidentemente, não ouvi nada, pois, sem vê-lo, não poderia fazer a leitura labial do que dizia. O teste acabou com o assessor saindo de trás da cortina e comunicando o seu veredicto ao secretário: “O senhor está vendo? Ele é surdo mesmo. Não pode ser professor”. E, para mim, acrescentou: “Daqui a alguns poucos anos, você pode alegar incapacidade física e solicitar aposentadoria”.

Hoje, mais esperto, fiz uma combinação com minha amiga: quando chamassem o meu nome, ela me daria uma cotovelada discreta e eu me apresentaria como se tivesse ouvido o chamado. Deu certo. Eu já tinha recolhido os aparelhos auditivos e retirado as pilhas, para não correr o risco de eles apitarem inadvertidamente. Fiquei contando com o fato de que poucas pessoas percebem minha condição de surdo (ou deficiente auditivo, vá lá). Durante o exame, ajeitei os óculos, abri bem os olhos e imitei a coruja. Ou seja, prestei uma baita atenção, principalmente nos lábios do médico que fazia os exames, que eu já sabia de cor e salteado como são feitos, inclusive aquele em que se fica de costas e o médico pede para a gente respirar fundo. Passei no exame. Foi moleza. A cada toque do estetoscópio nas costas, contava até dois e inspirava e expirava fundo. Depois de vários procedimentos, o médico sentou-se na minha frente e passou a escrever as respostas às perguntas que me fazia. De frente, felizmente. “Já sofreu alguma cirurgia?”, perguntou. “Nunquinha”, respondi. Com o meu olhar grudado nos lábios do médico, veio a pergunta: “Você sofre de alguma deficiência?” Gelei, mas fui rápido: “Claro que não”. O médico, com alguma ênfase: “Sofre, sim. Você usa óculos! Hahahahahahá”. Tratei de concordar que a piada era para lá de boa.

Saí aliviado e feliz. Não sei se por ter enganado o médico ou porque iria exercer o magistério.

QUARTA-FEIRA Ao acordar, notei que havia um bilhete embaixo da porta. Chamei o porteiro que explicou ter sido ele o autor do recado, passado a pedido de um amigo meu, já que eu não atendera nem ao interfone nem à campainha. Expliquei que, como me mudei recentemente, ainda não tinha instalado aquele dispositivo que todo surdo deve ter em casa, que acende uma lâmpada quando alguém toca o interfone ou a campainha.

Hoje me propus a cancelar o meu cartão de crédito Federal Card. Como na minha casa nova ainda não tenho TDD – o telefone especial para surdos, composto por um visor e um teclado –, fui até o bairro de Laranjeiras usar o aparelho público do Instituto Nacional de Educação de Surdos. De lá, liguei para a Central de Atendimento ao Surdo, CAS, da Oi para pedir uma ligação telefônica intermediada. A ligação intermediada funciona assim: o surdo liga para uma central de atendimento – onde um grupo de telefonistas treinadas o atende – e, usando um TDD, ele tecla a sua “fala”. A telefonista lê a mensagem e liga para a pessoa com quem o surdo quer conversar. Quando essa pessoa atende, a telefonista lê o que o surdo escreveu pelo TDD e lhe repassa o recado. A resposta percorre o caminho inverso. Ou seja, a operadora ouve o que é falado pela pessoa do outro lado da linha e escreve a resposta para o surdo no teclado de um TDD. O processo fica completo quando o surdo lê no TDD o que a telefonista ouviu, e assim sucessivamente.

Voltando ao assunto: quando a funcionária da CAS atendeu, ela informou que a Caixa Econômica, onde tenho o tal cartão de crédito, já consegue dar atendimento a surdos via TDD. Sem precisar de intermediação telefônica, portanto. Achei ótimo e liguei para lá. Depois que forneci uma série de dados “de segurança”, me pediram para esperar um momento. Enquanto eu ainda estava no TDD, meu celular recebeu um chamado de voz, de São Paulo. Minha experiência de surdo dizia que era uma ligação da própria Caixa Econômica, querendo conferir alguma informação diretamente comigo, coisa que não fariam se o pedido inicial tivesse sido feito por uma ligação de voz convencional, e não pelo TDD dos surdos. Passei meu celular a um colega de trabalho, que atendeu e informou ao banco estar falando em nome do titular do cartão – eu. A ligação estranhamente caiu, e, pelo TDD, o atendente me comunicou não ser possível cancelar o meu cartão de crédito porque havia sido detectado “um procedimento indevido”, eufemismo para “tentativa de fraude”. Percebi logo que não acreditaram no que meu colega disse: que eu, João Carlos Carreira, estava ao lado dele, atendendo o celular. Coisa de doido. Então, para que criaram esse serviço de atendimento direto ao surdo se não confiam, e se insistem em ligar para o celular dele tentando conferir se é surdo mesmo? Vou esperar passar a raiva e depois ligo de novo.

QUINTA-FEIRA Hoje é aniversário da minha filha Julia, de 22 anos. Vou lhe mandar uma mensagem de texto pelo celular e ver se podemos nos encontrar. Como ela não é surda, bem que eu poderia telefonar normalmente e dar os parabéns, mas não conseguiria entender sua resposta. Uma alternativa seria falar pelo MSN, usando webcam, pois ela sabe língua de sinais, minha segunda língua. Verei isso mais tarde.

Meu café da manhã preferido: leite de soja com leite de vaca. Três das minhas filhas acham essa dieta esquisita, mas uma delas provou e gostou. Isso e mais umas fatias de pão integral com queijo e uma fruta me sustentam até a hora do almoço.

Depois segui para a Dataprev, onde trabalho. Detesto esquecer meus aparelhos auditivos em casa. Praticamente só os removo para dormir ou fazer manutenção. Ou quando não tenho 3 reais no bolso para comprar uma pilha nova, que dura cerca de vinte dias; as do aparelho antigo, que não eram de tecnologia digital, duravam quinze dias, no máximo. Mesmo quando estou de aparelho, é complicado participar de reuniões de trabalho com muita gente. Sem o aparelho, então, é impossível. Ele é como a muleta de quem perdeu uma perna. O cara pode voltar a andar, mas nunca poderá jogar futebol. Sempre faço essa comparação quando as pessoas reclamam que estão me chamando e não estou ouvindo, e perguntam se meu aparelho está ligado. Quase sempre está, mas isso não quer dizer nada. Já tentei até dormir com ele ligado. Mas não dá certo porque ele “apita”, devido à microfonia provocada pela pressão da cabeça sobre o travesseiro. Os “apitos”, de altíssimo volume, geravam protestos da ex-companheira e dos eventuais hóspedes. Pior: eu corria o risco de danificar a engenhoca – e cada uma custa 7 mil reais.

Ao chegar na Dataprev, estranhei a correria dos guardas da segurança à minha volta, procurando algo nos corredores por onde eu passava. Nem perguntei o que estava acontecendo para não atrapalhar. Entrei na sala onde trabalho, cumprimentei todo mundo e liguei o computador da minha mesa. Mas a cena dos guardas não me saía da cabeça pois me inquieta não saber o que ocorre por perto. Com os cabelos já secos do banho, coloquei os aparelhos auditivos, que são sensíveis à umidade, e fui ver o que era toda aquela correria. Só então percebi que meu aparelho do ouvido esquerdo tinha ficado ligado e, portanto, já vinha “apitando” desde que saí de casa. Avisei à minha supervisora que os guardas talvez tivessem interpretado o apito como o alarme de incêndio. O setor de segurança confirmou que, de fato, o alerta fora provocado por um ruído móvel, altíssimo, agudo, persistente. Todos morreram de rir e voltamos ao trabalho.

SEXTA-FEIRA Na hora do almoço, liguei o TDD e telefonei outra vez para a Caixa Econômica a fim de tentar, pela segunda vez, cancelar meu cartão de crédito. Prevendo que eles iriam ligar para meu celular, tentando conferir a autenticidade do portador, deixei outro colega de sobreaviso. Não deu outra. Através dele, me fizeram várias perguntas, às quais me recusei a responder, pois eu já estava falando com eles pelo TDD na outra linha, paralelamente. Por que eles não desconfiam das pessoas com quem falam no telefone comum e só desconfiam dos surdos? Desligaram no celular e continuei a ligação pelo TDD. Recebi a seguinte mensagem escrita: “Senhor João Carlos, não podemos cancelar seu cartão porque ouvimos sua voz no celular. Você fala muito bem. Você não é deficiente auditivo. Dirija-se a uma agência. Boa tarde”. E desligaram sem ao menos me deixar explicar que sou surdo e não mudo, e que o fato de eles terem ouvido minha voz próxima à pessoa que falava por mim no celular não significava que eu tenho condições de entabular uma conversação normal por celular.
É incrível quantas pessoas ainda usam a expressão “surdo-mudo”. Organicamente, é raro encontrar um surdo que seja mudo no sentido literal da palavra. No meu caso – como no da maioria dos surdos –, tenho meu aparelho fonador intacto. A diferença é que nem todos os surdos conseguem pronunciar as palavras, porque aprender a falar bem, sem ouvir, é muito difícil. Além disso, nem todos têm a sorte de receber a tempo um atendimento fonoaudiológico adequado, e, uma vez expostos à língua de sinais, acabam não aprendendo a se expressar oralmente. Muitos se comunicam quase que exclusivamente por meio da língua de sinais. Eu faço leitura labial razoável e falo quase perfeitamente. O ideal é aprender as duas línguas, simultaneamente. O fato de eu falar gera um probleminha: os ouvintes, pessoas que não têm problemas de surdez, quando mal-informados, pensam que também sou ouvinte e a confusão se instala. Portanto, já vi que vou penar para conseguir cancelar esse maldito cartão de crédito…

À tarde, fui convocado a uma reunião pela gerência da Dataprev. Ao entrar na sala, pedi para sentar ao lado do gerente, pois, sendo ele quem mais falaria, eu teria menos dificuldade de compreender. Mesmo assim, nessas reuniões, tenho de pedir a colegas que falem sem as mãos diante da boca. Ler os lábios, no meu caso, ajuda, mas depende muito de como cada um articula as palavras. Tenho um colega que fala feito metralhadora, quase sem abrir a boca. Aí, não tem leitura labial que dê jeito. No final da reunião, tiro minhas dúvidas.

DOMINGO Acordei tarde por causa de um filme que passou ontem na televisão, à meia-noite. O enredo era bom e tinha legendas do tipo closed caption (especiais para surdos, mais completas que as legendas normais), o que não é comum. Oportunidade imperdível, portanto.

Almocei bastante salada num restaurante por quilo. Na pesagem, o empregado me disse o preço e, para ter certeza de que entendi direito, repeti o valor em voz alta. O funcionário confirmou com a cabeça. Na hora de pagar, o preço era outro e o mesmíssimo funcionário simplesmente decretou que entendi errado. Depois eu é que sou surdo…

À noite, para saber quando o interfone ou o telefone tocam, já que não tenho sensibilidade à luz quando durmo, instalei campainhas bem fortes presas ao estrado da cama, que vibram quando acionadas. Problema resolvido. Fica faltando apenas os condôminos do meu prédio se conscientizarem de que tenho direito a uma adaptação visual para o alarme de incêndio. Espero que o prédio nunca sofra um incêndio quando eu estiver dormindo.

SEGUNDA-FEIRA Hoje não corri com a mesma empolgação de ontem, mas completei uma boa distância: 8 quilômetros. Em casa, fiz uma coisa absurda para meus hábitos: bebi meio litro de suco de açaí. Depois, peguei o ônibus da linha 422 e fui para o Sindicato dos Empregados em Empresas de Processamento de Dados – ao qual sou filiado -, localizado na avenida Presidente Vargas. A assembléia começou antes de o meu intérprete chegar. Tive de me virar para entender o que se discutia. Claro que foi quase impossível, pois todos falavam ao mesmo tempo. Como escuto mais os sons graves, como no caso de vozes humanas em coro, fico aturdido. Na hora da primeira votação, ninguém se lembrou de mim e tomei o microfone da mão de um dos diretores. Impedi a decisão, dizendo que tinha o direito de saber o que ia ser votado. O pessoal nunca lembra que surdo é surdo, não escuta nada, nada, e segue falando. A assembléia optou pela greve.

Recebi um torpedo com convite para ir ao cinema. Era de uma amiga, atriz de teatro amador, ex-geógrafa e, como eu, descendente de espanhóis. Por isso, temos o hábito de trocar e-mails em espanhol. Pessoalmente, conversamos em português. Escolhemos Scoop, de Woody Allen. O filme me deu “um calor” em várias cenas com predominância de cores brancas, o que dificultava a leitura das legendas. Como não havia legendas para os sons em off, me senti um idiota no meio da platéia que dava risadas (daí a importância do closed caption). Só algumas cenas depois eu entendia o motivo da graça.

TERÇA-FEIRA Greve no meu trabalho. Fui acompanhar o piquete reunido em frente à Dataprev. Ao descer do ônibus vi, de longe, quando todos os colegas dispararam em direção à entrada do estacionamento. Corri junto, claro, mesmo sem saber do que se tratava. Só depois fiquei sabendo que era apenas medo de um bueiro – com o peso dos carros, o concreto em volta dele se soltara, e alguns pedaços foram arrancados e jogados para o alto, pondo em risco outros carros e pedestres que passavam por perto.

Lembrei-me da vez em que eu estava ao volante do meu carro, em Caxias, parado num sinal vermelho. De repente, um carro atrás de mim começou a piscar o farol alto de forma insistente. Pus a cabeça para fora e me dei conta da confusão involuntária que estava provocando: havia uma ambulância com a sirene ligada. Dei passagem imediatamente e, no momento em que o veículo piscador passou ao meu lado, os ocupantes, irritadíssimos, esbravejaram: “Você é surdo?!” Não deu tempo de dizer que era mesmo.

QUINTA-FEIRA Acordei ansioso porque iria reencontrar uma amiga surda que tinha se mudado para a Itália e casado com um italiano, também surdo. Peguei o 433, que é mais rápido, pois vai pelo Aterro do Flamengo, atropelando tudo quanto é buraco no caminho e jogando nossas cabeças de encontro ao teto. Fiquei admirado ao ver como minha amiga brasileiro-italiana se comunicava com o marido: não usava nem a língua de sinais brasileira nem a língua de sinais italiana. Usava uma mistura das duas. Muito interessante. Quem não conhece o mundo dos surdos acha que a língua de sinais é universal. Não é. Cada país tem a sua própria língua oral e a de sinais. Existe uma língua de sinais artificial mundial, o Gestuno, equivalente ao Esperanto, mas é pouco conhecida e usada só de quatro em quatro anos, nos congressos mundiais de surdos. O último ocorreu em julho passado, em Madri. A participação custou 400 euros! Êta congressozinho caro!

SEXTA-FEIRA De acordo com minha agenda, hoje termina o recesso no curso de letras-libras na Universidade Federal de Santa Catarina. Libras significa Língua Brasileira de Sinais, idioma oficial reconhecido por lei federal. (Não concordo com o termo, pois é uma língua de sinais brasileira.) Trata-se de um curso ministrado à distância para alunos surdos, com algumas aulas presenciais em língua de sinais. O material didático também é oferecido em Libras ou em Português.

A aula foi no auditório e contou com a exibição de um filmete didático sobre fonética e fonologia. Para mim, por motivos óbvios, é complicado estudar teoria sobre os sons da fala, mas pode vir a ser útil para as fases posteriores do curso. Por sorte, a professora sabe língua de sinais, além do português oral. Quando o professor não é bilíngüe, há um intérprete para os alunos. Por ter estudado a vida toda em escolas comuns, sempre estranho o tamanho do silêncio de uma aula em que professores e alunos só se comunicam na língua de sinais.

No final do dia, ainda dei uma passada numa imobiliária porque estou interessado na compra de um apartamento. Aproveitei para lembrar minha corretora de que não deve ligar para meu celular por voz, mas somente enviar mensagens de texto. Ela sempre se esquece disso.

Gosto de escutar música quando volto para casa. Hoje peguei o CD do Bolero, de Ravel. Muitas vezes me perguntam como eu escuto música. A resposta é simplíssima: “Eu escuto música ouvindo, uai!” Uso fones de ouvido. Evidentemente em volume bem alto. Como meu audiograma indica perda de audição concentrada nas faixas de freqüência média e aguda, consigo ouvir alguma coisa na faixa de sons graves. Os sons agudos e médios, só consigo captar, e mal, com aparelhos auditivos. Já os sons agudíssimos, como os do mosquito, não ouço nem a pau. No caso do Bolero, em que a orquestração e o volume vão aumentando ao longo do andamento, modifico o balanço do aparelho de som, coloco os graves no nível mínimo e os agudos no máximo. Os vizinhos que não sabem da minha surdez devem pensar que sou um nerd musical. Os que me viram pela janela, então, devem ter imaginado que fico ensaiando, pois costumo ouvir “regendo a orquestra”.

Enquanto ouvia Ravel, lembrei-me das adaptações que meu pai fazia para me ajudar, como a construção de uma grande caixa de madeira, onde foram colocados os alto-falantes retirados de uma antiga televisão da família. Lembro como fiquei feliz com isso. Eu segurava a caixa bem juntinho do ouvido, ocasião em que descobri a vibração das membranas dos alto-falantes em pleno funcionamento, o que me levou a concluir que ouço melhor os sons graves do que os agudos. Estes quase não vibravam as membranas.

Aliás, foi justamente pelo fato de os sons agudos não provocarem vibrações tatilmente perceptíveis que me desinteressei de usar esse recurso, o da sensação tátil. É por essa razão que uso aparelhos auditivos quando escuto música: para poder captar os sons agudos das flautas e das cordas mais baixas do violão, por exemplo. Ou seja, chorinho em MP3 Player não dá. A apreciação fica incompleta. Canções interpretadas por vozes muito agudas, também não. Óperas? Nem pensar. Não capto nada mesmo!

SÁBADO O alarme vibratório do despertador não funcionou. A carga da pilha deve ter acabado. Meus colegas gostam de dizer que durmo com um vibrador. Na verdade, é um relógio-despertador comum, com alarme vibratório semelhante ao dos celulares, que se sacode todo em vez de fazer barulho.
Cheguei atrasado na aula de fonética. Saber qual som é feito com a ponta da língua tocando o alvéolo é complicado demais para quem não ouve. Teríamos uma prova à tarde. Quando faltavam poucos minutos para a distribuição das turmas, meu celular tocou. A identificação da chamada indicava que era a minha corretora. Ligação por voz de novo! Não havia nenhum ouvinte que pudesse atender a ligação para mim… Como dizem os japoneses: “Shikataganai”, ou seja, “não há nada que se possa fazer”. Comecei a fazer a prova e o celular tocou, ou melhor, vibrou de novo. Shikataganai! Como a prova terminou tarde, às 18h30, não dava mais tempo de ir à corretora de imóveis.

DOMINGO Fui correndo até a imobiliária, que fica a 1 quilômetro de distância de onde moro. Cheguei esbaforido, chamei a corretora, que colocou um catálogo na bolsa, me pegou pelo braço e me carregou rua afora, às carreiras. No caminho, me falou que tinha um apartamento do jeito que eu queria, na rua com que eu sonhava e no preço que eu podia pagar, mas que estava preocupada porque, na véspera, como eu não atendi a ligação no celular, outro corretor poderia ter levado algum interessado para visitar o imóvel. Não deu outra: ao chegar ao local, o porteiro disse que o imóvel fora mesmo vendido.

De volta ao meu prédio, abri minha caixa de correio. Havia apenas uma correspondência. Era da Caixa Econômica. Abri o envelope e vislumbrei o fim de minha via-crúcis: o comunicado de cancelamento de meu cartão de crédito. Acho que eles ficaram com medo de ser processados pela enésima vez. Depois fui arrumar a casa para receber minhas quatro filhas, todas ouvintes. Duas delas de um relacionamento com uma surda (por isso, elas têm bom conhecimento da língua de sinais) e as outras duas com uma ouvinte. Emociona-me ver que as quatro se dão tão bem.

Nunca me preocupei com a eventua-lidade de ter um filho surdo. Se tivesse, lhe daria uma educação bilíngüe e multicultural, com plena liberdade de escolher a língua com a qual se sentisse melhor para viver e se comunicar.

João Carlos Carreira Alves

João Carlos Carreira Alves é analista de tecnologia da informação na Dataprev, empresa de processamento de dados da Previdência Social e do INSS.

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