esquina

Coworking da quebrada

Empreendedores do Campo Limpo

Juliana Faddul
ILUSTRAÇÃO_ANDRÉS SANDOVAL_2018

Era quase hora do almoço. Thiago Vinicius organizava planilhas em seu notebook da Apple e escrevia e-mails para possíveis investidores. Nos breaks, fazia stories no Instagram com os cartazes nas paredes da agência dirigida por ele. Sentia-se o cheiro do molho de tomate-cereja orgânico preparado na cozinha – em breve, seria servido com um ravióli de massa integral recheado com ricota e espinafre.

“A Solano Trindade é um coworking com várias startups, tá ligada?”, definiu o CEO, antes de ser interrompido por uma notificação do celular. “Me dá um minutinho?” Alguém tinha mandado o print de uma matéria sobre ele na revista Monocle. “Olha só, tá em inglês”, avisou, assim que bateu os olhos. “Caraca, me chamaram de street hero”, disse, sorrindo. “‘From São Paulo to the world’. Tô chique demais!”

Vinicius é um rapaz negro falante e simpático de 28 anos. Diferentemente de outros personagens que aparecem na descolada publicação britânica, ele não fez faculdade, não veste ternos bem cortados e não fala inglês. Depois de integrar grupos de leadership para jovens e se aventurar no mercado financeiro aos 19 anos, notabilizou-se por ser um dos criadores de um banco comunitário que emite uma moeda alternativa – a $ampaio – usada por moradores e comerciantes do Campo Limpo e do Capão Redondo, regiões periféricas na Zona Sul de São Paulo, onde nasceu e foi criado. “A moeda incentiva a economia local e faz com que o pessoal consiga botar comida na mesa até o fim do mês”, explicou, exibindo uma cédula com a efígie de Paulo Freire que vale o equivalente a 50 centavos de real.

Por essa iniciativa, Vinicius foi convidado em 2010 a falar num evento da série TEDx, uma prestigiosa franquia internacional de palestras. Dois anos depois montou a Agência Popular Solano Trindade, que ele gosta de definir como o primeiro coworking da periferia. A ideia era criar um espaço que impulsionasse empreendimentos nascidos na comunidade. “A periferia não precisa de assistencialismo”, defendeu. “Precisa crescer sem depender de ninguém.”

A agência está sediada há três anos numa casa de dois andares e mais de 100 metros quadrados, na rua Batista Crespo, no Campo Limpo. O centro nevrálgico é o escritório de Vinicius, com uma parede gigante que faz as vezes de lousa. Há ainda uma sala de reuniões, uma copa e duas salas de empreendedores, além de uma pequena sala de jantar, uma cozinha com forno industrial, uma vendinha de produtos orgânicos e um jardim nos fundos, onde ocorrem festas e feiras. Nas paredes, versos de rappers como Mano Brown e Edi Rock convivem com obras da artista plástica Raquel Trindade, filha do poeta e pintor que batiza a agência. Os grafites e as obras de arte são cortesia dos autores, mas para equipar o local Vinicius gastou mais de 15 mil reais, arrecadados numa vaquinha na internet.

 

Os empreendedores associados ao coworking podem usar a infraestrutura – impressora, internet, programas de computador, cozinha – e contar com a consultoria de Vinicius. “Aqui é uma espécie de Sebrae: organizo os negócios, analiso os gastos, explico os riscos, o que está dando certo ou não”, afirmou. O CEO tem planilhas para acompanhar todas as brands que integram a Solano Trindade. “Estou atento aos detalhes para dar um feedback certeiro.”

Com clientes que vão de artesãos a estilistas e restaurantes, ele lida com todo tipo de problema. “A gente explica de vitrinismo a legislação e regulamento da Anvisa.” A agência tem 75 empreendedores cadastrados e 32 na waiting list. “É como naquela música: ‘Quem tá fora quer entrar/Mas quem tá dentro não sai.’”

Não é preciso pagar mensalidade ou taxa de adesão, mas os empreendedores associados se comprometem a participar das iniciativas organizadas pela agência, como saraus, feijoadas ou o Festival Percurso, um evento que reúne projetos de economia solidária e atrações musicais, e atrai um público hipster vindo da Zona Oeste. Quem quiser pode dispor de um espaço fixo na casa mediante uma mensalidade de 300 reais, como fizeram o produtor cultural Jaime Lopes, de apelido Diko, e Michelle Fernandes, que se apresenta como “CEO da Boutique de Krioula”, uma loja criada em 2012 que vende turbantes, roupas, bijuterias e artigos de identidade afro.

A casa tem também uma moradora fixa, dona Cleunice Maria, uma cozinheira de 54 anos que é a mãe do CEO. Ela dorme num aposento nos fundos e acorda às quatro da manhã para cozinhar os pratos que vende na região por 15 ou 20 reais. Aderiu aos ingredientes orgânicos depois de fazer um curso que mudou seu jeito de enxergar a alimentação. “As pessoas comem muito mal e a periferia precisa ficar mais saudável”, disse, enquanto ajeitava os raviólis com a mão. Seu próximo passo será oferecer pratos veganos e macrobióticos.

Os recursos para bancar a casa, da ordem de 5 mil reais mensais, vêm da venda de comida e produtos orgânicos, do aluguel de espaços e equipamentos e da arrecadação com eventos. A iniciativa já recebeu ajuda da prefeitura, interrompida na gestão João Doria. Na visão do CEO, o empreendimento tem cumprido com sucesso a missão de criar condições para que os negócios locais prosperem mesmo longe do centro econômico da capital. “Sempre houve talentos e vontade de trabalhar na periferia”, disse Vinicius. “Só faltava organização para a casa-grande contratar a senzala de igual para igual.”

Apropriar-se do jargão corporativo dos coworkings de Pinheiros é parte da estratégia. “É uma disputa de narrativas”, explicou o CEO. “Se eu falar em economia solidária, vão dizer que não precisam de ajuda”, argumentou. “Já se eu falar em coworking, conquisto as duas pontas: o pobre, que se individualiza ao se espelhar nos moldes dos ricos, e o rico, que vê que estamos nos organizando e que pode confiar no nosso trampo.” Seja qual for o rótulo, continuou, a economia colaborativa sempre existiu na periferia. “Mas só colocando um nome em inglês para a mídia vir”, arrematou. Get it?

Juliana Faddul

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