concurso literário

Crime e castigo

O vencedor e os finalistas do mês

CRIME E CASTIGO
Gabriel Oliveira

O Tinder pode ser um tanto bizarro. Você vai passando por um cardápio humano – apenas nomes, fotos e um par de frases clichê – até escolher o que lhe parecer mais apetitoso. Dois dias e uma longa e constrangedora troca de emojis depois, você está em frente ao espelho testando batons até escolher uma cor que indique que você não quer mais que apenas uns beijinhos nesta noite (mas que também não espera menos do que isso), uma tênue linha entre tons de rosa e vermelho.

Dá uma última olhada no espelho, ajeita o vestido, passa a mão no cabelo, passa de novo para tentar voltar ao jeito de antes, ai meu Deus, o Uber já chegou e eu nem saí de casa ainda, corre, entra no carro, dá um sorriso amarelo, recebe um olhar de ódio de volta, pode seguir o gps?, sim, por favor, os Ubers não oferecem mais água nem bala, era só para conquistar o coração das pessoas até eles se revelarem como taxistas do século xxi, ufa, chegamos, quatro estrelas pois ele era antipático, procura um homem de camisa branca que seja mini-mamente parecido com as fotos do perfil (e acredite, quase nunca isso acontece), mas não é que aconteceu?, anda até a mesa, recebe um sorriso, beijinho na bochecha, prazer, o prazer é meu, senta-se na cadeira de madeira e expira com força.

Parece que não respirava desde que saiu de casa. Agora relaxa um pouco. Tudo parece ok, o cara é mais bonito do que nas fotos, coisa rara; o restaurante parece legal, um pouco chique, sofisticado, mas sem perder o charme casual, perfeito para um primeiro encontro.



– Você é mais bonita pessoalmente – ele diz.

Depois de muito tempo, ela tem fé em um encontro romântico. Conversa vai, conversa vem, ela toma gim-tônica, ele pede um drinque de nome estranho que solta fumaça como se fosse um experimento de aula de química. O canudo é de papel, para alegria das tartarugas. Os dois estão mais à vontade, ela pergunta:

– Nikão? De onde vem seu nome? É apelido pra quê? Nicácio? Nick? Níquel?

Ele parece um pouco sem graça, mesmo assim responde.

– Meu nome na verdade é Raskolnikov.

– Uau – é o que ela consegue responder.

– Pois é, meu pai era fã de literatura russa. Aí ele demonstrou sua paixão na hora de nomear os filhos.

– Ah, você tem irmãos? Todos com nomes tão… diferentes?

– Bem, tem eu, o Pushkin, o Karamazov e a Ana.

– Ah, de Anna Karenina?

– Não, é Ana Maria, meu pai também era muito fã daqueles bolinhos recheados.

Ela conseguiu segurar a risada ao ver a cara séria de seu acompanhante, tão séria quanto a dos russos que deram nome a ele e a seus irmãos.

– E em que você trabalha, Nikão? – era melhor continuar com o apelido, para não tocar em pontos mais sensíveis.

– Eu sou instrutor de Crossfit – mais tarde ela perceberia que as bandeiras de alerta tinham começado cedo, mas naquele momento, depois de três gins, um lugar agradável e uma vontade enorme de beijar alguém, pelo amor de Deus, ela deixou passar.

– Nossa, que interessante, você deve estar bastante em forma, hein – ela conseguiu dar o tom de flerte?

– Ah, acho que sim, mas, mais do que exercício, é por causa da minha dieta vegana.

Em um dia normal, um alarme antibomba já estaria soando na sua cabeça, mas ela tinha olhos apenas para os lábios carnudos de Raskolnikov. Eles eram carnudos? Não dava pra ver direito por causa da barba espessa. Nikão arrumou seu coque enquanto o garçom recolhia os copos vazios da mesa.

– Nós temos drinques novos na casa se os senhores quiserem experimentar – falou o garçom. – São drinques feitos com jujubas. Quer dizer, é uma redução de jujubas vaporizadas, decantadas lentamente no escuro. Está fazendo muito sucesso com o público da casa, sabe como é, pessoas ousadas, audaciosas, com mindset e resiliência etc. etc. Nosso chef é muito inovador, e as pessoas gostam de ser indulgentes com suas loucuras criativas. Tudo que ele inventa as pessoas pedem mais. Não se assustem se alguém pedir uma jujuba azul.

O garçom deu uma risadinha de maître francês. Ela riu também. Que absurdo. Quem é o psicopata que gosta de jujuba azul? As vermelhas são ótimas, as verdes dão pro gasto, mas azuis? São como bombom de café na caixa de sortidos.

Mas Raskolnikov não riu. Com sua frieza eslava e seus hábitos veganos, ele falou, sem traço de vergonha:

– Parece bom, me vê um desse aí de jujuba azul.

A risada morreu nos lábios do garçom, o restaurante ficou quieto de repente. O alarme finalmente se fez ouvir na cabeça dela.

– Você está brincando, né? – ela perguntou, ainda esperançosa. Ele fez que não com a cabeça. Um asco repulsivo subiu pelo estômago dela. Não era possível, que azar era esse que ela tinha com homens?

– Só me responda uma coisa, Raskolnikov. Qual seu m&m preferido?

– O marrom.

Ela jogou o resto de gim na cara dele e saiu do restaurante aplaudida de pé pelos outros clientes.

 

CONCURSO OSTENTAÇÃO

Se você acalenta alguma pretensão literária, aqui vai uma dica: participe do nosso paleolítico concurso Encaixe a frase.

Todo mês, lançamos uma frase obrigatória e um ingrediente improvável que deverão ser incorporados a uma história com começo, meio e fim, e que não ofenda substancialmente a gramática. Envie um texto de até 5 mil toques ou uma história em quadrinhos de 1 página até o dia  20 de março para concurso@revistapiaui.com.br.

Além de ser publicado na próxima edição da piauí, o vencedor ganha uma passagem pra Disney na comitiva do Paulo Guedes.

FRASE DO MÊS:
“No cume calmo do meu olho que vê assenta a sombra sonora de um disco voador”
Elemento estranho: Noviça rebelde

AO VENCEDOR, NOSSOS RAPAPÉS: A frase do mês passado era “Não se assustem se alguém pedir uma jujuba azul”, e o elemento estranho era “Raskolnikov”. O campeão é  Gabriel Oliveira, a quem saudamos vivamente por ter ultrapassado seus trinta concorrentes. Os outros dois finalistas estão abaixo.

Confira aqui as regras do nosso paleolítico certame literário.

*

Textos finalistas

A SALA SECRETA
Isadora Pacello

As três figuras descem do Uber em frente ao que parece ser uma casa de adoração. Passa um pouco da meia-noite e há uma fila densa dobrando a esquina. O interior do edifício é escuro, e à porta um segurança barra os recém-chegados com uma enorme cruz.
Os três vão direto para o início da fila, e um dos rapazes fala alguma coisa com o segurança, que, imediatamente, reconhece-o da igreja – “Se não é o filho do pastor Almir Mastarde!” – e deixa-os entrar, causando furor nos que estão esperando há horas. Eles se
encaminham para o caixa, onde pagam o dízimo antes de serem admitidos na D-Vout, a boate mais famosa da cidade.

Não se assustem se alguém pedir uma jujuba azul – diz Pedro, filho do pastor, o único que já conhece a boate. – É o apelido de uma substância que te faz ver o Paraíso.

Eles se esgueiram com dificuldade por entre a multidão que dança no escuro. À primeira vista, parece uma balada normal, cheia de jovens bebendo, dançando, trocando beijos. No entanto, um olhar mais atento revela que a bebida mais popular se chama Santa-Água Selvagem e o refrão da música ensurdecedora é uma declaração de amor a Deus. Quanto aos beijos, os amigos logo percebem que se trata de uma fervorosa oração conjunta.

– É logo ali. – Pedro aponta para um banheiro.

Eles se encaminham para o local indicado. À porta, um rapaz parece observar a festa despretensiosamente. Quando os três se aproximam, no entanto, o jovem se empertiga e assume uma expressão mais séria ao encará-los.

Raskolnikov – diz Pedro. Ao ouvir a senha, o rapaz assente com a cabeça e, num gesto discreto, abre a porta do banheiro, que os amigos cruzam rapidamente.

Para a surpresa dos novatos, o banheiro é, na verdade, uma pequena biblioteca, abarrotada de livros – nas estantes, em pilhas no chão… A maioria são títulos há muito desaparecidos das bibliotecas e livrarias convencionais, como Macunaíma, Memórias
póstumas de Brás Cubas, O castelo e até mesmo um Atlas escolar. E, no meio de todos aqueles livros, muitos jovens se espremem para vasculhar as estantes avidamente.

– Eis a biblioteca secreta de que eu falei – anuncia Pedro aos dois companheiros. – Comecei a reunir o pessoal aqui desde que os livros começaram a ser confiscados. Meu pai, é claro, não sabe que ela existe, muito menos que eu sou o fundador.

– É incrível! – exclama Júlio, correndo os olhos em volta.

– Será que posso levar este para a minha irmãzinha? – pergunta-se Bia, apanhando um exemplar de Chapeuzinho Vermelho, banido desde o longínquo 2022, devido à descarada apologia cromática ao comunismo.

Os três se espalham para avaliar os títulos. Tiram-nos das estantes, leem trechos como quem tem sede sorve goles d’água, passam para o próximo, numa ânsia desesperada e infrutífera de apropriar-se de tudo. A biblioteca secreta, embora pequena, é
completa – possui até um Kama sutra, considerado absolutamente exterminado como parte das medidas para evitar a gravidez indesejada na adolescência.

Algumas horas mais tarde, o rapaz que guarda a entrada da sala secreta bate à porta – é o sinal de que a biblioteca será fechada em breve. Aborrecidos, os três amigos se reúnem e despedem-se dos tão amados livros, antes de se verem outra vez na pista de
dança da D-Vout.

Antes de alcançarem a saída, são abordados por um garoto com um olhar maníaco:

– Abençoados, vocês têm uma jujuba azul?

Lá fora, o dia está quase amanhecendo, e boa parte das pessoas ainda resiste na fila à porta da boate; essa, sim, é uma fé inabalável.

Enquanto esperam o Uber, Bia cutuca os amigos e tira discretamente um livro da bolsa, animadíssima.

– Peguei na seção de fantasia – explica.

Na capa, os garotos leem: Um futuro para a Amazônia.

 

DE POSTOS BEM FECHADOS
Mateus Fernandes

Com os olhos cobertos, Antônio sentia o suor escorrer pelas têmporas enquanto era levado a passos apressados para dentro de um longo corredor. A julgar pelas luzes amareladas que penetravam a touca, imaginou se tratar de um esconderijo do tráfico ou do estoque de uma loja de departamento. “Esse povo deve gastar uma nota na conta de luz”, pensou quando o pararam de repente, tiraram suas vestes e o deixaram ali, encapuzado com uma cueca militar à mostra.

Desde que se mudara para o Rio de Janeiro não imaginava que a rotina de praia/trabalho seria interrompida com uma piada proposital do vizinho deputado. Enquanto lavava o carro numa manhã dominical, um sujeito alto de pança à mostra parou ao lado enquanto ligava a mangueira:

— Opa, cuidado com essa mangueira aê, meu companheiro!

— Desculpe, molhei o senhor?

— Não, não, fica tranquilo, tô falando pra você ficar ligado. Ou você gosta de pegar na mangueira?, hahahahah. É brincadeira, pô, vamo dá uma risada aê! Qual seu nome?

— É Antônio, e o senhor é o…?

— Tadeu, muito prazer. O senhor que é o rapaz da empreiteira? Que veio de Brasília?

— Sim, eu mesmo.

— Pô, que bacana, mas vem cá, o senhor já tá sabendo da reunião que fazemos aqui? A gente tem um grupo só dos mais chegados, dos bem vividos, toda última quinta-feira do mês?

— Humm.

— É um combinado que, como você sabe, foi feito para cada um se ajudar como pode, ainda famílias como as nossas… e tem um bônus, óbvio. Você vai gostar, têm uns comes e bebes, um networking! É importante pra quem tá chegando, ir se enturmando. O que me diz?

Monossilábico com propostas indeclináveis, obviamente, na semana seguinte, Antônio se postou como planejado na frente de um restaurante da Tijuca, a espera de “um sujeito com roupa da seleção” que viria ao seu encontro. Embora estivesse frio, vestiu apenas a camisa azul de punhos e gola branca, levando consigo um exemplar recém-comprado do “O Imbecil Coletivo”, debaixo do braço. Pela “boa educação entre vizinhos”, não questionou as ordens dogmáticas quanto às vestimentas de baixo.

No mesmo tempo que checava o papel com o endereço e a senha no bolso, foi abordado por um velho grisalho, de terno cinza e mocassins folgados que entrava suando pelo boteco, segurando dezenas de envelopes. Ao perceber a camisa da CBF por baixo da fantasia de banqueiro, soprou ao pé do ouvido a senha para o encontro:

— Se mulher sair, o PIB dobra?

— O molusco já tá preso, babaca! – respondeu e deu de ombros, o sujeito apontou um carro preto, com a traseira adesivada em branco: “E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. Antônio engoliu um seco. Sentado entre dois seguranças, decidiu romper o silêncio que durava quase meia hora de trajeto:

— Além de mim, tem mais alguém que está indo pela primeira vez no Foro do 38?

— Você e o Geovani do 613 estão indo pela primeira vez, mas não se preocupe, a primeira noite é sempre a mais tranquila. Eles normalmente separam todo mundo em grupos e pedem pra vocês se ajudarem.

Soltou um leve riso até perceber o carro parando do lado de uma estátua da liberdade. Antes de sair, o motorista ordenou que colocassem o capuz.

Não se assustem se alguém pedir uma jujuba azul. — murmurou o sujeito de terno.

No breu, foi arrastado por dezenas de salas, corredores e escadas, até chegar a um espaçoso e barulhento salão, onde retiraram suas vestes e o fizeram ajoelhar junto de outros. Um círculo de mascarados se formava, todos com vestes longas, porém com chinelos nos pés.

Saindo de uma das bordas, caminhando em direção a Antônio, o mestre de cerimônia ergueu uma caneta bic, retirou a máscara do deputado Éneas e mandou sacarem os capuzes dos novos associados:

Verba volant, scripta manent! — proclamou, fazendo todos se aproximarem. De longe, um anão saltitava às pressas, trazendo um filhote de javaporco. — Antes de ler a ata do dia, vamos dar graças aos novos membros de nossa companhia. QUE COMECE A CERIMÔNIA DE INICIAÇÃO!

Tambores arderam em um ritmo compassado por violentas trombetas e, só então a multidão avançou sobre seu corpo, agarrando-lhe costelas, jogando-lhe para o alto, beliscando sua pele. Na palma de uns, era possível ler “Pátria, família e Raskolnikov”, hierarquizados em três linhas. Uma saudação que era repetida por toda sala:

— PERGUNTA LÁ!

— NO POSTO IPIRANGA

— PERGUNTA LÁ!

— NO POSTO IPIRANGA

— PERGUNTA LÁ!

— NO POSTO IPIRANGA

Sentiu a cabeça latejar e as pernas se enrolarem. Desmaiou ao primeiro contato gelado do grunhido do javaporco. Já no chão, foi socorrido pelos asseclas com tapas no rosto, despertando do transe.

— Você tá bem, Antônio? – questionou o vizinho Tadeu, retirando a máscara de Alexandre Garcia que agora, junto dele, revelava um leve bafo de laranja.

— Meu Deus, se eu sair do grupo, quem assume é o Aécio?

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