esquina

Crime na cabeça

O delito oblíquo de um tatuador brasiliense

Luciana Barreto

Uma cabeça humana não é o que se espera encontrar em um jardim, especialmente se estiver separada do corpo que um dia a sustentou. Foi diante dessa infausta situação que se viu o jardineiro Regimar da Silva, o Régis, funcionário do Hotel Nacional, em Brasília. Em 20 de julho, ele se preparava para aliviar as plantas da proverbial secura da capital federal. Foi com o regador na mão que ele avistou, em meio aos lírios, pousado sobre folhas de plástico-bolha, um inequívoco crânio humano. Estava quase todo descarnado, com uns parcos fios de cabelo a lhe ornar o crânio. Repugnado, Régis virou o rosto e cobriu os olhos com as mãos. “Uma cabeça!”, exclamou de si para si, o coração descompassado.

Para não deixar as digitais, o jardineiro nem triscou a cabeça trágica. Saiu correndo e deixou a torneira jorrando. Aos atropelos, deu a notícia ao segurança Cleiton Neves. “Achei uma cabeça”, disse, esbaforido e pálido como a morte. “Uma cabeça humana?”, indagou o colega. “Sim, o problema todo está aí”, retrucou judiciosamente. Cleiton, homem de estômago sensível, fez cara de repulsa – não podia com sangue. Refeitos, os dois se aproximaram a passos curtos do impensável e se puseram a deliberar sobre o que fazer. O melhor, concordaram, era participar a descoberta à autoridade máxima do edifício: o síndico, que, sensato, tratou logo de chamar a polícia.

Que crime era aquele? De quem era a hedionda cabeça? Por que foi deixada no jardim de um cinco estrelas? Em minutos, apareceram dois policiais. “Um deles disse que a arcada dentária devia ser de um jovem de 17 anos”, contou Régis. O parecer oficial cabia ao Instituto de Criminalística, que não tardou a chegar. Enquanto isso, o cenário do crime foi isolado com cones e fita listrada. Um policial militar postou-se ali e, bom profissional, dali não arredou pé.

Moscas revolviam à volta da caveira, disputando os poucos restos de matéria orgânica que ainda a cobriam. “Uma cabeça de verdade, vejam quanta mosca”, filosofou um cidadão que se juntara à pequena multidão de curiosos que já se formara. Pistas surgiam. Documentos foram encontrados nas imediações. Circulou o boato de que, noutro canto da cidade, um esqueleto sem cabeça havia sido localizado – tudo se encaixava. Não passou muito tempo até correr a notícia que um braço fora encontrado em frente ao hotel.

O personagem-chave para a solução do crime, mal sabiam todos, circulava a poucos metros dali, silente, espreitando a azáfama. O tatuador Jerson Curado, de 31 anos, é um rapaz franzino e de aparência invulgar. Possui duas grandes perfurações nas orelhas e o corpo coberto por dezenas de tatuagens. Ele próprio é incapaz de dizer quantas – “depois da vigésima quinta, vira tudo uma só”. Após observar o tumulto, voltou à sua loja situada na galeria do hotel, colocou na porta um aviso de “Voltamos logo” e saiu.

Os repórteres deram destaque ao caso – alguns noticiaram que a cabeça estava congelada. Dois delegados e seis agentes da 5ª Delegacia de Polícia apuraram a autoria do crime. O segurança Cleiton assistiu, com a polícia, às fitas das câmeras do prédio. E lá estava o sacripanta: Jerson, olhando por cima dos ombros, avançando pela grama, pé ante pé, e depositando o crânio com os gestos silenciosos de um punguista. Cleiton ficou incomodado: “Não sabia se devia entregá-lo, era um condômino. Fui perguntar ao síndico.” Reafirmando pela segunda vez sua inquebrantável sensatez, o homem deu ao vigia o aval para delatar o tatuador.

Às 12h22, chegaram dois peritos criminais. Olharam a cabeça de longe. Percorreram as redondezas e encontraram uma carteira de identidade de mulher, que talvez pertencesse à vítima. Chegaram mais perto do crânio e não sentiram qualquer odor. Argutos, desconfiaram. A vida lhes havia ensinado que o mau cheiro é um dos mais eloquentes indícios da morte. E ali, nada. O local era um tédio olfativo. Cinco minutos de análise bastaram-lhes para afastar qualquer suspeita: o crânio era de mentira. “Era muito leve, de resina, e nem mandíbula tinha”, disse Wagner dos Santos, diretor-adjunto do Instituto de Criminalística. É verdade que a caveira estava recheada de matéria cinzenta, mas tratava-se de jornal amassado. Amostras das tiras de carne que a cobriam foram levadas ao laboratório. “Parecia um bifinho com gordura”, comparou Wagner. Era acém.

O cerco se fechava. A polícia procurou Jerson na loja e na casa dele, sem êxito. “Avisamos a um familiar que ele tinha que comparecer à polícia”, disse o delegado Edson Medina. Acuado, Jerson não teve outra saída senão se entregar. “Fui espontaneamente com meu advogado”, contaria mais tarde.

O tatuador revelou aos policiais os detalhes do crime. Tudo começou à noite, na cozinha de seu sítio no Lago Oeste. Jerson fatiava bifes para congelá-los, enquanto a esposa cuidava do bebê do casal. Manejando o acém, veio-lhe à cabeça, vai-se lá saber por que, a ideia de cobrir um velho crânio de resina com as sobras da carne. “Coloquei bastante pelanca.” Quando concluiu a obra, mostrou-a à mulher, que decretou: “Está horrível.” Era o elogio que lhe faltava.

Animado, Jerson decidiu aguardar o dia seguinte para levar a cabo seu intento. O bife, de fato, amanheceu menos úmido. “Achei mais real”, disse Jerson, com rigor estético. Após tomar café da manhã e dar milho às galinhas, lá se foi ele para a loja de tatuagem com o crânio debaixo do braço embalado em plástico-bolha. Quando viu que o jardineiro se aprestava a regar as plantas, resolveu pregar-lhe um susto.

Caso encerrado. De quem era a cabeça? Ora, do próprio Jerson, que a comprara em São Paulo. O motivo? Assustar o jardineiro. E houve crime, afinal? O delegado Medina não tem dúvidas: sim, crime houve. Um crânio, mesmo que de resina, deixado em lugar público configuraria uma nítida afronta à lei. “Brincadeira tem limite”, disse. O tatuador foi enquadrado no artigo 340 do Código Penal, que trata de comunicação falsa de crime. “Ao colocar a cabeça ali, ele induziu o jardineiro a chamar a polícia”, esclareceu o delegado. “Houve crime por via oblíqua.”

O juiz que julgou o caso não concorreu com tão dura opinião. “Verificou-se a ausência da vontade livremente dirigida à falsa comunicação, uma vez que a intenção do autor era zoar com os funcionários do local”, afirmou a sentença algo coloquial publicada no fim do mês. O tatuador foi absolvido e continua solto como dantes, protegido pelo manto da lei. Está na Áustria e só volta no fim de setembro. Até lá, a paz deve imperar nos jardins do Setor Hoteleiro Sul.

Luciana Barreto

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