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Culpa dos cupins?

A origem controversa dos murundus

Bruno Cirillo
IMAGEM: ANDRÉS SANDOVAL_2017

Roy Funch desceu do carro encostado à beira da estrada de terra que leva ao município de Palmeiras, a 50 quilômetros de Lençóis, na Chapada Diamantina, no sertão baiano. Passou com destreza por baixo de uma cerca de arame farpado, sem deixar o chapéu enganchar, e caminhou pasto adentro até onde os enormes maciços de terra clara começavam a despontar. Estavam espalhados por toda a extensão da propriedade, com aparência homogênea e distribuídos regularmente, o que dava à paisagem um ar alienígena. Nenhuma alma rondava o local naquele sábado escaldante.

Os montes de terra tinham até 10 metros de diâmetro, e alguns chegavam a 4 metros de altura. Conhecidos como murundus, eles são o objeto de estudo de Funch, um biólogo americano radicado na Bahia. Indiferente ao calor, o pesquisador escalou um deles, áspero e duro feito rocha. “Esses campos começam mais ao norte da Bahia e vão até Minas Gerais”, disse Funch, acrescentando que eles se espalham por pelo menos 112 mil quilômetros quadrados na porção sul da caatinga. “Essa é a casa dos bate-cabeças”, completou o biólogo, referindo-se a uma espécie nervosa de cupins – do gênero Cornitermes – que se locomovem em bandos e produzem estalidos quando batem a cabeça contra o solo.

A presença de cupins não seria fortuita. Funch defende que os murundus são obra desses insetos – um ponto de vista que não é compartilhado por outros estudiosos. Nas estimativas do biólogo, os cupins foram os arquitetos responsáveis pela construção de 90 milhões de estruturas similares, em concentrações que chegam a 35 maciços por hectare.

De volta ao carro, Funch indicou uma área de mata mais densa. Queria mostrar um campo de murundus conservado, pois os primeiros exemplares estavam numa área desmatada. Na floresta intocada, a maior parte dos montes é invisível a distância e se ergue entre as árvores baixas e retorcidas típicas da caatinga. “São características únicas – como o solo que dá para compactar bem, pouca chuva e esse tipo de vegetação – que garantiram a prosperidade dos murundus”, afirmou o americano numa clareira, ao lado de um maciço coberto por arbustos.

 

Roy Richard Funch é um homem de 69 anos cujas feições lembram as de um Abraham Lincoln de barba branca. Nascido em Staten Island, uma das cinco ilhas de Nova York, o biólogo se mudou para Lençóis em 1978, quando a cidade amargava a pobreza deixada pela decadência do garimpo nas minas de diamantes. Na Bahia ficou conhecido como Rui, uma forma abrasileirada do seu nome. Atuou como guia de turismo na Chapada Diamantina, foi secretário do Meio Ambiente de Lençóis e lutou pela criação de um parque nacional na região, que veio a chefiar quando a reserva foi formalizada, em 1985.

Os murundus logo chamaram a atenção do biólogo, que naquele mesmo ano escreveu um artigo de divulgação científica propondo que os cupins estavam por trás da sua origem. Mas levaria outras três décadas até emplacar sua hipótese na literatura científica, num trabalho publicado no Journal of Arid Environments. No artigo, o americano sustentava que os cupins revolveram um volume de terra equivalente a 900 pirâmides de Gizé, no Egito.

Funch calcula que os murundus foram construídos ao longo de milhares de anos, camada por camada, por sucessivas gerações de cupins. Ele baseia sua hipótese na análise de estruturas que ainda estão em formação na caatinga, escavadas com pá e picareta. Garante ter visto microtúneis construídos pelos insetos, que atestariam a origem biológica daquelas formações. Mas não conseguiu abrir os murundus mais maduros, inquebrantáveis para suas ferramentas.

As alegações de Funch não reverberam entre seus colegas. A visão predominante dos especialistas é a que surgiu do estudo de outro tipo de murundu, encontrado no cerrado – são montes de terra menores que os da caatinga, de distribuição mais irregular. Num artigo de 2010, pesquisadores dessas formações refutaram a hipótese de que são obra dos cupins. Para eles, os murundus se formam pela erosão da água: por terem alta concentração de dióxidos de ferro e alumínio, esses maciços são mais resistentes às inundações na época das chuvas. Quando a água baixa, o resto do terreno cede, deixando os murundus de pé.

Para os colegas, Funch defende uma hipótese datada que já não tem crédito. “A ideia de que os murundus são cupinzeiros estava em voga nos anos 70 e 80”, disse Éder Martins, da Embrapa Cerrados. Uma dissertação de mestrado defendida em 1981 na Universidade de Brasília debruçou-se sobre a questão. O biólogo Mário Diniz de Araújo Neto, autor do estudo e hoje professor da UnB, disse à piauí que de fato havia a suspeita de que os cupins podiam ser os responsáveis. “Mas em 4 hectares só encontramos um ninho embutido”, afirmou.

 

Quando publicou seu trabalho em 2015, Funch enfrentou resistência da academia. “Os revisores do artigo pediram provas de que os murundus são de origem biogênica, e não resultado de ação física ou de qualquer coisa que não seja cupins”, contou. O pesquisador ainda não conseguiu evidências irrefutáveis para convencer seus pares.

Disposto a mostrar que tem razão, Funch lançou-se em um novo estudo que pretende explicar como os Cornitermes teriam construído seus abrigos antitérmicos e à prova de tamanduás. No novo trabalho, planeja incluir os resultados de uma análise de solo remetida por ele aos Estados Unidos e uma estimativa precisa da idade dos murundus. Funch pretende usar uma retroescavadeira para abrir os murundus mais rígidos e descobrir se há cupins lá dentro.

“A hipótese de que a água criou tudo isso é inconcebível para mim”, insistiu, contemplando os montes de terra em volta. À vontade no papel de outsider, o americano está convicto de que os colegas se renderão à sua hipótese. Já vislumbra, inclusive, o título do artigo que lhe dará a palavra final: “A prova de que os murundus são biogênicos.” Resta ver se, desta vez, os revisores concordarão.

Bruno Cirillo

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