anais da sociedade do espetáculo

Curtindo a vida adoidado

Com suas frases impagáveis, agressões a mulheres, teorias conspiratórias sobre o 11 de Setembro e seu exibicionismo, Charlie Sheen supera o Império do Entretenimento e redefine o papel da celebridade no panorama cultural

Bret Easton Ellis
Charlie Sheen, sobre os executivos do Império do Entretenimento: “Eles se deitam com suas mulheres feias diante de seus filhos feios e contemplam suas vidas fracassadas”
Charlie Sheen, sobre os executivos do Império do Entretenimento: “Eles se deitam com suas mulheres feias diante de seus filhos feios e contemplam suas vidas fracassadas” ILUSTRAÇÃO: NATHAN FOX_WWW.FOXNATHAN. COM

“Drogas” é a primeira palavra que Charlie Sheen profere na sua única cena de Curtindo a Vida Adoidado, uma relíquia cinematográfica de 1986. A cena transcorre numa delegacia de polícia, onde Jeannie Bueller (Jennifer Grey), esperando sua mãe pagar a fiança para tirá-la do xadrez, e reclamando da vida anárquica e encantadora do irmão Ferris (ele viola todas as regras e é feliz; ela segue todas as regras e está infeliz), percebe que está sentada ao lado de um sujeito boa-pinta (bota boa-pinta nisto!), de olhar taciturno e jaqueta de couro, que parece ter passado vários dias numa orgia de drogas.

Mas ele não é um pirado. Está apenas cansado e sedutoramente calmo, seu rosto é de um pálido quase violeta. Aborrecida, Jeannie lhe pergunta: “Por que você está aqui?” Ao que Charlie Sheen, impassível, responde, sem um pingo de arrependimento: “Drogas.” E então, lentamente, ele desarma a irritação de Jeannie com uma calma escancaradamente sexy, transformando o aborrecimento dela em prazer (eles acabam namorando). Aí percebemos Sheen pela primeira vez, nesse momento-chave de sua carreira cinematográfica (que sintetiza tudo o que veio depois).

Ele nunca voltou a ser tão divertido. Até agora. Ao ser demitido da série Two and a Half Men, esse filho mimado do Império do Entretenimento transformou-se no seu mais talentoso achincalhador. Sheen entrou na era pós-Império, e tenta nos explicar o que significa hoje ser uma celebridade. Se você gosta ou não, é irrelevante. É onde estamos, cara. Estamos aprendendo algo. Rock’n’roll. Dance conforme a música.

O pós-Império apareceu com força total no ano passado, quando o “Fuck You” de Lo Green abafou alegremente toda a música em volta. As Kardashian sacaram. Lady Gaga, ao chegar à entrega do Grammy num ovo gigante, sacou; e sacou também no programa de Anderson Cooper, quando disse a ele que gosta de apertar unzinho ao compor – e o desafiou: “Você não pode me impedir, seu mané!” Nicki Minaj saca quando canta Right Thru Me e vira um de seus vários alter egos num tapete vermelho. (Christina Aguilera como estrela de Burlesque não sacou absolutamente nada.) Ricky Gervais, ao entregar os Globos de Ouro, sacou. Robert Downey Jr., ao se aborrecer com Gervais, não sacou. Ao ridicularizar sutilmente a própria carreira, e o Globo de Ouro que ganhou pelo conjunto da sua obra, Robert De Niro sacou.

James Franco, ao não levar a sério a transmissão do Oscar, e ao tratá-lo com suave desrespeito (que é exatamente o que o programa merece), sacou tudo. (Anne Hathaway, infelizmente, não sacou, mas mesmo assim gostamos dela: por ficar nua e transar com Jake G.) Pós-Império é Mark Zuckerberg falar que A Rede Social e o livro que lhe deu origem (ele cria o Facebook porque é rejeitado por uma guria pentelha!) sacaram tudo errado (e Zuckerberg tem razão, sinto muito Aaron Sorkin, roteirista do Império).

 

Para cada celebridade do Império que adotava o gênero não-estou-nem-aí, como Muhammad Ali, ou Andy Warhol, ou Norman Mailer, ou Bob Dylan, havia uma dezena de Madonnas (uma das rainhas do Império que nunca foi verdadeira ou engraçada o suficiente para sacar as coisas – tudo o que ela teve de interessante parece, em retrospecto, terrivelmente honesto) e Michael Jacksons (a suprema vítima da cultura da celebridade do Império – um amante torturado de meninos e viciado em drogas que, não tendo nenhum senso de humor, negava as duas coisas).

Para alguém da minha idade (47 anos), o Keith Richards (67) do seu livro de memórias, Vida, exibe uma transparência excêntrica e saudável, típica do pós-Império. Para meus amigos mais jovens, essa atitude não é mais uma raridade; virou a norma. Mas nada se compara, ainda, à transparência exibida por Charlie Sheen nas últimas semanas – desdém pela celebridade, por sua profissão e pela velha ordem mundial do Império do Entretenimento.

Para os vigilantes do Império, Sheen é perigoso e parece precisar de ajuda porque está destruindo (e confirmando) ilusões sobre a natureza da celebridade. Ele sempre foi um modelo para certo tipo de fantasia masculina. Degradante, talvez, mas não é assim boa parte das fantasias masculinas? Sheen sempre foi encrenqueiro, algo que faz parte do seu carisma – junto a homens e mulheres. O que Sheen fez foi virar um exemplo e iluminar o momento atual da cultura: aquele no qual não se importar com o que o público pensa de você ou da sua vida pessoal é o que importa – e isso faz o público adorar você ainda mais (embora a CBS ou o criador do programa que o enriqueceu não compartilhem a adoração).

Trata-se de um narcisismo diferente do habitual no Império do Entretenimento. Quando surgiu, Eminem foi o personagem pós-Império mais sincero. Subitamente, ele nos colocou a anos-luz de distância da dor autobiográfica de, digamos, Blood on the Tracks, de Bob Dylan (um dos momentos mais altivos e elegantes do Império). Hoje, a autoexpressão é diferente – mais bruta, menos diluída. Em The Marshall Mathers LP, Eminem mostra com muito mais transparência do que Dylan, ou qualquer outro artista do Império (incluindo aí o Bruce Springsteen do grande Tunnel of Love), sua raiva contra a idiotice dos seus próprios erros, o fracasso do seu casamento, seus vícios e fantasias, registrando sem medo o falso assassinato de sua ex-esposa por suas próprias mãos enraivecidas, um ato de desafio que Bob ou Bruce Springsteen nem sequer cogitariam. Blood on the Tracks e Tunnel of Love possuem um bom gosto e elegância imperiais que não fazem mais sentido no pós-Império. Isso não nega o poder e o talento artístico dos dois. Significa apenas que estamos em movimento. É isso aí.

 

Você está completamente por fora se acha que o piro de Charlie Sheen é um problema de drogas. Claro, elas desempenham um papel, mas não estão no centro dos acontecimentos – nem explicam por que o piro de Sheen é tão fascinante. Conheço viciados funcionais. Eles não são nem tão raros nem tão interessantes assim. O piro diz respeito só a Charlie Sheen. Diz respeito a uma merecida crise de meia-idade alardeada na CNN, e não no escritório de um assessor de imagem de Hollywood.

A crise dos 40 é o momento na vida de um homem em que ele se dá conta de que não consegue (ou não quer) manter a atitude que esperam dele. Tom Cruise sofreu um colapso semelhante no verão de 2005, mas o enfrentou de forma mais polida (e, claro, não consta que ele fosse viciado em drogas). Cruise teve seu colapso enquanto sorria. Ele sempre foi, basicamente, o bom rapaz incapaz de dizer “foda-se” como Sheen diz. Cruise ainda é o coroinha suburbano que acredita no glamour do Império – o que é também, em última análise, a sua limitação como ator e astro de cinema.

Com Charlie Sheen, uau, é outra coisa. Prisões. Overdoses. Temporadas meio que involuntárias em clínicas de reabilitação. A entrevista coletiva de Martin Sheen com os olhos rasos d’água. A maleta cheia de cocaína. O Mercedes rebocado do despenhadeiro. A agressão à terceira esposa, que também foi parar numa clínica de reabilitação. Sheen supostamente ameaçando decapitá-la, botar a cabeça numa caixa e enviá-la à mãe dela. Sheen acendendo um cigarro no outro no site do TMZ. As frases impagáveis. (Sobre os executivos da CBS: “Eles se deitam com suas mulheres feias diante de seus filhos feios e contemplam suas vidas fracassadas.”) As teorias conspiratórias sobre os atentados de 11 de Setembro. Atirar no braço de Kelly Preston. Transar com estrelas pornô. Comparado a Cruise, Sheen fez uma exibição sincera, fascinante e revigorante da crise da meia-idade. Ele é simplesmente, assim mesmo, um viciado – é pegar ou largar.

 

É eletrizante ver alguém se insurgir contra a pompa das entrevistas de celebridades, e Sheen desafia com estridência tal impostura. Ele é rude, lúcido e intenso: uma pessoa fascinante surfando o panorama cultural. (Não, pessoal, ele não é Colin Firth, nem David Fincher, nem Bruno Mars, nem Tiger Woods, esse epítome do Império.) Não estamos acostumados a esse tipo de entrevista. É quase uma performance artística, nunca vimos nada igual – porque ele não pede desculpas. É um espetáculo irresistível. Jamais vimos uma celebridade se abrir assim. Mesmo nas evasivas, há em Sheen uma verdade bem-humorada que faz a entrevista coletiva-confissão de Tiger Woods parecer falsa e manipulativa.

Qualquer um que tenha se sujeitado à condição de celebridade (ou teve problemas com drogas) tem agora uma alma gêmea. Eis a novidade: se você soca os paparazzi, é um perdedor fora de moda. Se não consegue aceitar que estamos no auge de uma cultura exibicionista, e que será pego de surpresa pelo TMZ ao sair cambaleante de uma boate às duas da matina, então você deveria ser um agente de viagens em vez de um astro do cinema.

 

Ser ridicularizado publicamente é parte do jogo, e você é um bobo se não joga. Não ir à cerimônia para receber o troféu de pior filme do ano? Mas isso é tão típico do Império! Por isso Charlie Sheen parece hoje mais saudável e engraçado do que qualquer outra celebridade. E também faz piadas mais engraçadas sobre si mesmo do que os colunistas sisudos e os comediantes de fim de noite.

Grande parte disso tudo é fanfarronice de moleque encrenqueiro – xingar para ver como as pessoas reagem, o que é bem pós-Império –, mas grande parte é transparência, e, nesse nível, Sheen está… vencendo.

O que as pessoas querem de Charlie Sheen? Não nego que ele tenha problemas com drogas e álcool – ou mesmo que possa estar enfrentando um distúrbio mental. Mas isso acontece com um monte de gente em Hollywood, que sabe se esconder melhor – ou com quem a imprensa de celebridades não se importa tanto. O que nos fascina é o seu hedonismo, que faz qualquer homem babar de inveja – se não houvesse sempre mulheres por perto para desmascarar as bravatas. (Sua suposta propensão à violência contra as mulheres tampouco prejudicou sua popularidade entre as fãs.)

Queremos realmente boas maneiras? Civilidade? A cortesia do Império do Entretenimento? Para o inferno com tudo isso. Queremos realidade, por mais doida que seja. E é isso que deixa o Império fora do prumo: Sheen não liga para o que pensam dele, e caçoa do conceito de relações públicas. “Ei, engravatados, estou cagando e andando.” Esse é seu único mandamento. Sheen explode o mito de que, se os homens se esforçarem, irão superar a busca adolescente do prazer e de uma vida sem regras ou responsabilidades.

Andamos bastante nas últimas semanas: Sheen é a nova realidade, cara, e quem estiver contra que se junte ao resto dos trolls no cemitério do Império. Ninguém sabia em 1986, mas desde o princípio Charlie Sheen era, na verdade, o cara que queria curtir a vida adoidado.

Bret Easton Ellis

Bret Easton Ellis, escritor americano, publicou O Psicopata Americano e Lunar Park, pela Rocco.

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