esquina

Da cor da pele

A sapatilha de uma bailarina brasileira chega ao museu

Camille Lichotti
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2020

No último dia 28 de setembro, a bailarina brasileira Ingrid Silva se deparou com uma imagem familiar nas redes sociais do Instituto Smithsonian, dos Estados Unidos: um par de suas antigas sapatilhas de ponta, com desgaste irregular na biqueira e duas fitas de cetim costuradas à mão nas laterais. Para sua surpresa, a instituição norte-americana havia incluído a peça no acervo do Museu Nacional de História e Cultura Afro-Americana, inaugurado em 2016, em Washington.

Não era uma sapatilha qualquer. Como não existiam calçados de balé para negros na época que ela chegou a Nova York, a bailarina cobriu a clássica cor rosa-bebê com uma base líquida marrom-escura. A sapatilha eleita pelo museu do Smithsonian era uma das que ela havia pintado com as próprias mãos, depois de passar doze anos aplicando maquiagem nos sapatos para fazê-los combinar com a cor de sua pele.

“As pessoas acham que as sapatilhas são rosa porque o balé é feminino e delicado, mas na realidade essa era a cor que mais se aproximava do tom de pele das bailarinas europeias”, disse Silva. A origem do balé remonta à Renascença, e as primeiras sapatilhas de ponta datam do século XIX. Mas só nos anos 1970 um corpo de baile negro usou sapatilhas e meias-calças da cor de suas peles. Isso ocorreu em espetáculos do Dance Theatre of Harlem, fundado em 1969 por Arthur Mitchell, primeiro bailarino negro a ingressar na New York City Ballet, uma das mais importantes companhias do mundo, na qual chegou ao posto de dançarino principal.

Ingrid Silva, 31 anos, tem a fala articulada e pronuncia as palavras com um chiado inconfundível, que logo denuncia sua origem carioca. Ela cresceu em Benfica, no Centro do Rio de Janeiro, e deu seus primeiros passos de balé aos 8 anos, na Vila Olímpica da Mangueira. Em 1997, sua mãe, Maureny Oliveira, soube por meio de um vizinho que o projeto social Dançando Para Não Dançar abrira audições para jovens talentos de comunidades. “Eu passei nos testes, mas, sinceramente, nem sabia o que estava fazendo”, contou a bailarina, rindo. “Mas acho que sempre tive talento para a coisa.”



O balé tornou-se parte fundamental de sua vida. Ao lado dos estudos, Silva mantinha uma rotina pesada de treinos e apresentações, às vezes em mais de uma escola de dança. Saía de casa às sete da manhã e voltava às dez da noite, todos os dias. A mãe precisou largar o trabalho de empregada doméstica para acompanhar Silva e seu irmão, Bruno, às atividades de balé.

Aos 18 anos, quando estava no seu último ano do projeto Dançando Para Não Dançar, Silva chamou a atenção de Bethania Gomes, bailarina do Dance Theatre of Harlem que havia sido convidada para assistir a uma aula na Mangueira. Gomes convenceu a jovem carioca a enviar um vídeo para as audições da companhia – e Silva foi chamada para um teste presencial nos Estados Unidos. Largou o curso de dança que fazia na UniverCidade e embarcou definitivamente para Nova York em janeiro de 2008, sem saber uma palavra de inglês.

Depois de passar três meses no programa de treinamento, um dos diretores do Dance Theatre of Harlem decidiu que ela já estava preparada para entrar no balé jovem. O diretor era o lendário Arthur Mitchell, então com 74 anos. “Ele foi uma pessoa extremamente importante no mundo da dança e na minha vida também”, disse Silva.

Mitchell treinou Silva pessoalmente, recorrendo mais à linguagem da dança que ao inglês, que a brasileira ainda não entendia bem. O diretor usava sua bengala para batucar ritmos brasileiros durante a aula, fazia piadas e corrigia com rigidez qualquer passo em falso. “Ele sempre dizia que, quando um bailarino dança no Dance Theatre of Harlem, está representando algo muito maior.” Foi nessa companhia que ela entendeu a importância de usar acessórios que combinassem com a cor da sua pele.

 

A pintura das sapatilhas continha para ela um simbolismo. Era um modo de Ingrid Silva se incluir inteiramente no mundo da dança profissional. Servia também de terapia, mas com o passar do tempo a tarefa acabou aborrecendo-a. Não que fosse enfadonha: ela se chateava por não poder ser como qualquer outra bailarina, que simplesmente coloca a sapatilha disponível e vai para o palco. Mesmo assim, em 2016, Silva postou um vídeo ensinando a sua técnica de pintura – e ganhou uma súbita fama na internet pela atitude desafiadora.

Demorou para que uma marca anunciasse a primeira sapatilha de ponta produzida na cor marrom, o que ocorreu em 2017. Mas apenas dois anos depois Silva conseguiu que sua marca preferida fizesse uma que harmonizava perfeitamente com a sua pele. “Eu não quero, porém, que as sapatilhas estejam disponíveis só pra mim, quero que estejam no mercado”, afirmou. “E as marcas não estão totalmente engajadas nesse trabalho.”

Antes disso, Silva já havia quebrado outra barreira do mundo da dança, quando decidira parar de alisar os cabelos. “Eu achava que o cabelo liso ajudava a fazer o coque de bailarina, mas isso não tem nada a ver”, disse. “Ao cortar meu cabelo todo, eu me descobri. Foi a primeira vez que vi meu cabelo natural, e eu nem sabia como cuidar dele direito. Passar por isso não é tão fácil como as pessoas acham. Seu cabelo é sua representatividade, é quem você é, sua coroa, sua cara.”

Hoje, Silva ocupa o posto mais alto do Dance Theatre of Harlem, como primeira-bailarina. Mas a dança não é o seu único objetivo de vida. Ela também está engajada no ativismo político dentro do movimento negro. Há dois anos, fundou o EmpowHer New York, uma rede de empoderamento e visibilidade para mulheres. Em 2017, participou da série brasileira Afronta! (lançada em outubro deste ano na Netflix), que reúne uma série de depoimentos de personalidades negras.

Volta e meia, Silva compartilha, nas redes sociais, vídeos de jovens bailarinas negras que também passaram a pintar as sapatilhas. Para ela, essa é a verdadeira potência do calçado tingido que chegou ao museu do Smithsonian: irradiar uma mudança de atitude e sintetizar uma postura política. “Essa sapatilha não é só um objeto que está lá, é um marco na história da dança”, ela disse, sem falsa modéstia.

Camille Lichotti

Estagiária de jornalismo na piauí

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