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Day after

O que significa voltar à normalidade no Brasil atual

Fernando de Barros e Silva
O Homo bolsonarus: se o fascismo traz a sociedade para dentro do Estado, o bolsonarismo opera no sentido contrário, devolvendo a sociedade ao estado de natureza –
O Homo bolsonarus: se o fascismo traz a sociedade para dentro do Estado, o bolsonarismo opera no sentido contrário, devolvendo a sociedade ao estado de natureza – CREDITO: KLEBER SALES_2020

O país está destroçado e o presidente da República conta com a aprovação de 40% dos brasileiros. É nessa situação paradoxal que nós nos encontramos, depois de sete meses de pandemia, quase 150 mil mortes e uma depressão econômica sem precedentes. Com o perdão de Carlos Drummond de Andrade, que confusão de coisas ao crepúsculo!

À luz dos traumas acumulados nos últimos meses, refazemos todos os dias os cálculos do tamanho do estrago causado por esse desastre histórico. As contas indicam invariavelmente uma tendência de alta, para falar na língua do mercado, sócio investidor do cataclismo civilizacional em curso no Brasil.

Trata-se mesmo de uma regressão pesada – social, moral, cognitiva –, com consequências que se estenderão além do fim do ciclo político dominado por Bolsonaro, não importa quanto ele durar. A eventual reeleição de Donald Trump no mês que vem seria o bilhete para o abismo. Mas, com ou sem Trump, algumas consequências da catástrofe bolsonariana serão provavelmente irreversíveis – é o caso da devastação ambiental.

Também devem durar muitos anos, talvez décadas, os efeitos da expansão das armas de fogo na vida civil, do ódio às universidades e do descaso pela ciência, do desmonte generalizado dos órgãos da cultura, da deslaicização do Estado, da militarização e do rebaixamento do ensino, do retrocesso na legislação de trânsito, dos esforços para aparelhar a Polícia Federal e criar – com a Abin, com a inteligência militar, com o rapaz que é ministro da Justiça, com tudo – uma polícia política. O leitor se lembrará de outros itens dessa cruzada obscurantista sem paralelo.



O que pode significar, nessas condições, a tão esperada volta à normalidade pós-pandemia? Que sociedade é essa que vai sendo forjada nos escombros do Pacto pela Democratização encarnado na Constituição de 1988? Que aspirações ainda poderemos ter como nação, se e quando sairmos desse pântano de estupidez e truculência?

São questões óbvias e urgentes, mas que não parecem tirar o sono de quem deveria se preocupar. O fato é que Bolsonaro foi digerido pelas instituições democráticas, não obstante seu empenho em acabar com elas. Ele engoliu o establishment político e econômico. E pagou bem barato por isso: bastou dar de comer ao Centrão, distribuindo ração fisiológica aos piores do Congresso. À civilização, não foi preciso fazer nenhuma concessão. Pelo contrário. A maneira como o presidente lidou com a pandemia bastaria para que fosse destituído dez vezes do cargo e julgado criminalmente. Mas não. Enquanto o mundo nos olha com um misto de perplexidade e pena – somos hoje uma excrescência internacional –, internamente a tônica está na acomodação.

O topo da pirâmide segue entretido com reformas (tributária, administrativa, qualquer uma), farejando brechas por onde continuar faturando. Entre as massas, o auxílio emergencial apaziguou por ora o desespero, e os “sem-tudo” agradecem ao presidente pela iniciativa que na verdade foi do Congresso. Líderes de oposição não se comportam à altura da hora histórica, com uma ou outra exceção. Agem como se o pêndulo da política ainda funcionasse no eixo democrático e pudéssemos aguardar tranquilos pela alternância de poder em 2022. Salvo engano, isso se tornou mais do que duvidoso.

Feitas as contas, quem melhor enfrentou Bolsonaro foi a ema do Palácio da Alvorada. Ali não tem conversa, não tem cooptação, não tem cloroquina. Não deixa de ser sintomático que o legado de Voltaire e Diderot esteja sendo defendido entre nós à base de bicadas por uma espécie que lembra um galináceo gigante e desengonçado de olhos esbugalhados.

 

Parte expressiva da sociedade se identifica profundamente com Bolsonaro, ainda que ele não tenha o apoio da maioria da população. Se tivesse, podemos imaginar o que aconteceria. Tome-se como exemplo o episódio envolvendo o desembargador Eduardo Siqueira, conhecido de todos. Lá vem ele, com o peito estufadinho, fazendo a sua caminhada dominical pela orla de Santos. A máscara o incomoda, por isso ele a dispensa – a lei que se foda. Ao ser abordado pelo guarda municipal, o magistrado não precisaria alardear sua falsa intimidade com o secretário da Segurança Pública da cidade para se safar. Ele levantaria a camiseta, sacaria da cintura uma arma de fogo e resolveria o caso na bala.

Parece um delírio (é um delírio), mas no mundo idealizado por Bolsonaro as coisas seriam exatamente assim. Foi, pelo menos, o que o presidente pregou na famigerada reunião ministerial. O povo armado seria “a garantia de que não vai aparecer um filho da puta e impor uma ditadura aqui”. Ele se referia, naquele contexto, às medidas restritivas adotadas por prefeitos e governadores para evitar a propagação do vírus.

Estamos, pois, frente a frente com o Homo bolsonarus. É esse o título do ensaio que o cientista político Renato Lessa, professor da PUC do Rio, publicou no número mais recente da revista Serrote. Repleto de boas reflexões, o texto se originou do debate em que Lessa e Paulo Arantes, da USP, foram convidados a responder se o Brasil caminha ou não para uma forma de fascismo. Não é bem disso que se trata, defenderam ambos os professores, o que não torna a coisa menos tenebrosa. Do que se trata, afinal? Ao contrário do fascismo histórico, “marcado pela obsessão de trazer a sociedade para dentro do Estado”, o poder bolsonarista opera no sentido de devolver a sociedade ao estado de natureza. Tal movimento significa “fazer das assimetrias ‘naturais’ de poder o elemento de configuração básica e espontânea da sociabilidade”.

O bolsonarismo seria essa máquina de naturalização do que nos torna intoleráveis como país, um otimizador da violência, da destituição de direitos, da desigualdade que nos define desde sempre. Ele é, na expressão de Lessa, “o ponto de coagulação” capaz de garantir tanto a continuidade de práticas tradicionais quanto a dissolução dos mecanismos de contenção e a inscrição das energias espontâneas em um projeto político.

A retórica libertária invocada pelo presidente e seus adeptos se confunde com a legitimação inédita da barbárie brasileira. Basta de eufemismos. Isso é para os fracos. Tenhamos coragem de jogar fora a criança junto com a água do banho. Quem é que ainda precisa de civilização? Chegou a hora de eliminar todos os constrangimentos e mediações do estado de direito, de desregular tudo, dar vazão aos instintos mais primitivos, deixar passar a boiada, como recomendou o douto Ricardo Salles. É um projeto de predação escancarada. Não há como negar que vem sendo executado com grande êxito.

Fernando de Barros e Silva

Repórter da piauí e apresentador do Foro de Teresina. Foi diretor de redação da revista entre 2011 e 2020

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