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De Batatais para o mundo

A criadora do escorredor de arroz tem a inovação no DNA

Camila Régis
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL

Os ufanistas de plantão se esquecem de vangloriar a compatriota responsável por um invento que povoa as cozinhas do Brasil e de Navarra: o escorredor de arroz. Sim, o mundo deve à mente engenhosa de uma paulista de Batatais a criação desse utensílio comezinho que revolucionou o preparo do cereal mais consumido pela humanidade. Em tempos de centrífugas, multiprocessadores e grelhas elétricas batizadas por celebridades, o artefato anda meio esquecido, e isso talvez explique a imperdoável omissão. Mas é hora de prestar tributo ao gênio criativo de Therezinha Beatriz Zorowich.

O Brasil acabara de conquistar seu primeiro mundial de futebol quando essa cirurgiã-dentista teve, no frescor de seus 28 anos, a ideia que viria a marcar sua vida. Uma trivial pia entupida foi a fagulha que despertou o fogo de seu espírito inovador. Beatriz – ela prefere usar o segundo nome – notou que, ao derramar pela peneira a água onde lavara o arroz, vários grãos se perdiam pelo ralo. A mecânica da operação era canhestra – numa mão, a bacia, na outra, a peneira. Numa dessas, veio o estalo: por que não criar um único utensílio capaz de dar conta dos dois processos? Não estivesse tão desvalorizada pela inflação do uso, seria o caso de empregar aqui a palavra epifania. Era espantoso que ninguém tivesse pensado nisso antes.

Aos 79 anos, a dentista se lembrou com satisfação do lampejo que teve há mais de cinquenta anos. Para transformar aquela ideia num artefato, contou, seria preciso fabricar uma espécie de bacia conjugada, de dupla função. A forma lembraria as conchas abertas de um marisco, sólida a primeira e vazada a segunda. Na de lá, o arroz seria lavado; na de cá, a água suja escorreria. Para dar estabilidade ao objeto em suas duas funções, as duas conchas se encontrariam no meio, em ângulo aberto, superior a 90 graus. Quando uma estivesse em operação, a outra se manteria no ar, um pouco como a tampa aberta de um invólucro de Big Mac. O conceito era simples e o resultado, brilhante.

O marido engenheiro ajudou Zorowich a construir um protótipo em papel-alumínio reforçado. Restava mostrá-lo ao mundo. Um primo que trabalhava na Federação das Indústrias apresentou a dentista ao dono da Trol, empresa que produzia brinquedos e utensílios domésticos de plástico. Capitalista visionário, Joaquim Ferreira vislumbrou o potencial vanguardista daquele estranho objeto. As donas de casa precisavam daquele utensílio e não sabiam. As cozinhas nunca mais seriam as mesmas. Sua intuição se confirmou em 1962, quando o invento foi a grande estrela da Feira de Utilidades Domésticas promovida em São Paulo. Era a consagração do lavarroz, como Zorowich gosta de se referir à sua cria.

Para a invenção correr o mundo, foi um pulo. Em viagens pela Europa, a irmã da inventora viu escorredores em uso na França e na Itália. A própria Beatriz ouviu de um angolano numa conferência no exterior que ele tinha um exemplar em casa – e ela sorriu com orgulho indissimulável. “É difícil encontrar uma invenção que seja tão mundial e que ainda tenha presença no mercado cinquenta anos depois.”

A produção dos escorredores de plástico de arroz aconteceu em grande escala. Zorowich chegou a faturar 10% de cada unidade vendida. O dinheiro a ajudou a comprar sua casa e a educar os filhos, quatro médicos e uma advogada. No entanto, Zorowich só recolheu royalties de seu invento até 1978, quando a patente de nº 71 404 expirou. O escorredor de arroz foi se juntar à escumadeira, ao ralador de queijo e ao esfregão, glórias do engenho humano cujos direitos de exploração já pertenceram a alguém e hoje vicejam no domínio público.

Engana-se quem julga que Beatriz Zorowich seja mulher de um invento só. Ainda na seara doméstica, ela se orgulha de uma jarra que promete facilitar o preparo de sucos. A tampa do recipiente foi dotada de uma reentrância onde se encaixa com discrição uma colher. “Assim não fica aquele colherão sobrando dentro da geladeira”, justificou. Apesar de sua praticidade, a invenção não despertou o interesse da classe empresarial brasileira, cujo fôlego empreendedor muito se apequenou desde os tempos heroicos da Trol.

Zorowich também exercitou seu espírito criativo no domínio da odontologia – e foi justamente nesse campo que ela conheceu seu maior revés como inventora. Nos anos 70, ela desenhou uma escova de dentes capaz de chegar a recantos bucais nunca dantes alcançados. Mas viu seu pedido de patente negado pelo Instituto Nacional da Propriedade Intelectual, o INPI, porque uma grande empresa americana do ramo já registrara um pedido semelhante. Zorowich não esconde sua frustração. “Minha escova de dentes era em forma de trapézio. A deles tinha uma canaleta no meio. Tenho certeza de que era diferente. Mas sou ninguém perto deles”, lamentou.

Ao que tudo indica, a inovação está no DNA da família. Celso Zorowich, um dos filhos de Beatriz, inventou um massageador cardíaco e está desenvolvendo um “novo tipo de palheta para violão”. É provável que João Gilberto já esteja excitado. O marido também tem seus surtos inventivos e chegou a pedir o registro de patente para uma criação de nome inspirado: o “temporizador para cargas elétricas de aparelhos elétricos em geral”.

As autoridades deveriam dar ouvidos à matriarca, que se queixa da falta de espírito inovador do empresariado brasileiro. Se registrar uma patente já é complicado, reclama, encontrar uma empresa disposta a bancar a ideia pode ser um verdadeiro calvário. Mas Beatriz Zorowich não se deixa abalar pelos óbices impostos por um ambiente institucional pouco afeito à inovação.

Sua última investida promete facilitar a secagem de superfícies planas. Conhecedora do traquejo e coordenação exigidos pela tarefa de limpar o chão da cozinha, a inventora bolou um pano de chão que se acopla ao rodo e cuja extremidade, em franjas, aumenta a eficácia da faxina. Desta vez, convenceu uma empresa conhecida do ramo da limpeza doméstica. O Limpex Rodo já está disponível no varejo (o rodo é vendido separadamente). Convicta de que pode desencadear mais uma revolução nas cozinhas, Beatriz convida: “Se puder, apareça no supermercado e dê uma olhada.”

Camila Régis

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