esquina

De chuteira e laço

Nati é craque entre os meninos

Maurício Frighetto
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2019

O time sub-10 do Avaí perdia por 1 a 0 para o Grêmio/MZ na estreia do torneio de Futebol 7 quando Nati – como é conhecida – entrou em campo. A garota sofreu uma falta já no primeiro lance. “Bando de covardes, batendo em mulher!”, provocou um pequeno torcedor. Única menina na partida, ela não reclamou. Levantou rápido e, no lance seguinte, chutou para o gol. Só não marcou porque um adversário tirou a bola com a mão. Pênalti. Um colega cobrou e empatou o jogo naquele domingo quente e abafado, dia 14 de abril.

A bola sempre foi o brinquedo preferido de Natália Pereira, 10 anos, de Florianópolis (SC). Quando tinha entre 3 e 4 anos, seu pai, o jornalista Fabiano Linhares, comentou que o chute da menina era “forte, diferente”. “Ah, tá bom!”, ironizou a mãe, Karyna Pereira, empresária do ramo da comunicação. “Ela nem sabe andar direito ainda!” Com experiência em jornalismo esportivo, Fabiano sabia do que estava falando.

Nati começou a jogar bola com o irmão Vinícius, dois anos mais velho. Aos 5, já frequentava escolinha de futebol. Mas ela queria ir além e competir. Em 2018, disputou a Liga Metropolitana de Futsal – era a única jogadora entre cerca de novecentos garotos. Uma fratura no pé, no entanto, a tirou das quadras. Em janeiro, passou em uma peneira no Avaí e se tornou a primeira menina a integrar as categorias de base de um clube da série A do Campeonato Brasileiro jogando com os meninos.

Os treinos iniciaram em meados de março, quatro tardes por semana. Todo mês, Nati ainda passa uma semana no Centro Olímpico de Treinamento e Pesquisa (COTP), em São Paulo, um dos poucos lugares onde meninas da idade dela têm chance de fazer uma boa formação em futebol. “Às vezes falam que somos malucos”, disse a mãe. “O futebol já é um ambiente difícil para os meninos, imagina para as meninas! Sabemos que não é fácil, mas é o sonho da vida dela.”

Nati estuda no 5º ano e, para compensar o período em São Paulo, tem aula com professores particulares. O tempo livre é dedicado ao futebol. Quando ela convida um amiguinho para brincar em casa é sempre para jogar bola.

 

Em 13 de abril, Nati participou do primeiro torneio com o Avaí e levantou o troféu em uma competição de futsal com quatro equipes. No dia seguinte, atuou em um campeonato de Futebol 7 em São José (SC), na Grande Florianópolis, com oito times divididos em duas chaves.

Os jogos ocorreram no Complexo RM Soccer, onde Nati chegou com os avós por volta das oito da manhã. Assim como os colegas, ela vestia roupas largas, acima do seu tamanho. Com 1,34 metro, está na média de altura dos meninos. Naquele domingo, usava nos cabelos um laço azul, da mesma cor da camisa do Avaí. “Quando comecei a jogar, minha mãe não conseguia me ver em campo”, explicou a garota. “Daí ela disse: ‘Nati, vamos colocar um laço.’ Eu não queria, mas usei. Com o tempo, passei a gostar.” Hoje ela tem uma coleção com mais de cem laços e sempre usa um deles nos jogos.

No vestiário, junto com os garotos, ouviu atentamente a preleção do treinador João Gabriel Stavnetchei. Nati iniciou a partida na reserva. Ao entrar, aos seis minutos (cada tempo tinha dez minutos), sofreu a falta e participou do lance do pênalti. Mas seria um dia difícil para ela e para o Avaí. Logo em seguida, o juiz marcou outra penalidade, agora contra sua equipe. A garota levantou os braços e abanou a cabeça dizendo: “Não fui eu.” O Grêmio/MZ, de São José (SC), marcou e venceu. Apesar da derrota, ainda havia duas partidas para buscar a classificação.

No segundo jogo, Nati iniciou novamente na reserva. Entrou na segunda etapa, mas não atuou todo o tempo. Nos minutos finais, com o Avaí precisando fazer o gol de empate – o Balança Rede, de São José, vencia por 1 a 0 –, ela gesticulava e incentivava os companheiros do banco de reservas. Quando o árbitro apitou o fim da partida, colocou as mãos na cabeça e escondeu o rosto. No vestiário, fazia contas pensando em como se classificar. E voltou a brincar.

 

A maioria dos garotos não vê diferença entre jogar contra uma menina e contra um menino: “Normal”; “Não muda nada”; “Estamos acostumados.” Esparramado em uma cama elástica após uma partida, Bernardo Hermes, 9 anos, comentou ser “um pouco diferente”. “Mas não sei explicar por quê”, disse. A mãe dele, Lidiane Hermes, o acudiu: “No início, eles acham um pouco estranho. Depois que entram em campo, enxergam as meninas como um rival qualquer. E querem ganhar.”

Para Nati chegar às categorias de base do Avaí várias barreiras tiveram que ser quebradas. Em 1941, no governo Getúlio Vargas, um decreto determinou que “às mulheres não se permitirá a prática de desportos incompatíveis com as condições de sua natureza”. Em 1965, na ditadura militar, uma deliberação listou os esportes proibidos para mulheres, entre eles o futebol. Só em 1979 as normas foram revogadas.

Desde então, houve um crescimento do futebol feminino no Brasil. Marta se tornou seis vezes a melhor jogadora do mundo e muitas brasileiras passaram a atuar na Europa. Neste ano, todos os clubes da série A são obrigados a manter um time de base e um feminino, mas as diferenças deste para o masculino ainda são grandes. Nati e sua geração têm muitas barreiras a enfrentar.

Uma delas é a que impede que mulheres sejam aceitas em competições masculinas. Segundo o Avaí, garotas podem jogar com garotos até os 13 anos. A questão, porém, gera divergência. Em 2016, Laura Pigatin foi impedida de atuar no Campeonato Paulista de Futebol Sub-13 por ser menina. Neste ano, Maria Clara Balby só pôde participar do Campeonato Maranhense de Futebol 7 Sub-11 após sua história viralizar nas redes sociais e a federação daquele estado ser pressionada.

O Avaí acabou desclassificado antes da última partida. Quando soube que não avançaria às semifinais, Nati foi para o colo da mãe, que havia chegado um pouco mais tarde. Quando recebia um carinho, foi chamada por outros jogadores e técnicos para posar para fotos. Ela se tornou celebridade no meio – e prepara-se para participar, em julho, de torneios na França e na Suécia, onde jogará a convite de equipes femininas daqueles países.

No terceiro jogo, o Avaí venceu o Grêmio Fronteira, de Araranguá (SC), por 2 a 1. Nati entrou novamente no decorrer da partida e não marcou gol. Mas correu, suou, se esforçou, driblou, dividiu a bola com intensidade. Nem os meninos pegaram leve com ela, nem ela com os meninos. Jogou como uma garota.

Maurício Frighetto

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