esquina

De quimono no samba

Uma gueixa no Carnaval carioca

Nathália Cariatti
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2015

Sob o aguaceiro que desabou logo na primeira noite do desfile da Sapucaí, no domingo de Carnaval, Sayuki aguardava o momento de subir no carro alegórico. Em sua estreia na avenida, ela era destaque na Unidos do Viradouro. A tempestade murchou as plumas de sua fantasia, mas seu ânimo permaneceu intacto. Deslumbrada com as arquibancadas lotadas e o som da bateria, ela não arredou pé da concentração até ser informada, no último minuto, de que não poderia desfilar por falhas na alegoria: não havia mastros o bastante para sustentar os foliões instalados acima do solo.

Decepcionada e tingida de verde – os penachos que envergava se descoloriram –, ela e outra estrangeira igualmente preterida foram atrás de um táxi para retornar a seus hotéis. A frustração inicial, porém, não a fez desistir da festa. Resolveu que os dois dias seguintes seriam destinados àquilo que os gringos se propõem, com resultados em geral pífios: aprender a sambar. Antropóloga social com PhD em Oxford, disse não estar “apenas interessada em passeios turísticos”, mas desejava “participar como os locais”.

Branca, com cabelos castanhos e olhos verdes, a australiana Fiona Graham causa estranhamento ao se apresentar como Sayuki, seu nome de gueixa. Ela é a primeira ocidental em 400 anos a assumir como profissão a tradicional arte performática japonesa.

 

Fiona viajou ao Japão pela primeira vez ainda no colégio, para um intercâmbio estudantil. Depois voltou a viver no país durante a faculdade e foi a primeira caucasiana a se formar na Universidade Keio, onde hoje é docente.

Ao trabalhar num documentário sobre gueixas, a antropóloga se dispôs a mergulhar na pesquisa de campo e se mudou para uma casa dessas profissionais. Apaixonou-se pelo universo e decidiu abraçar o métier, entretendo clientes em casas de chá e propondo algumas inovações, nem sempre bem-vistas por seus pares.

A principal atividade de uma gueixa consiste em se apresentar em jantares e cerimônias do chá para um público misto. Ainda que a imagem dessas mulheres tenha sido associada às cortesãs, elas são acima de tudo artistas – fazer sexo com clientes não é atributo da função, mas uma deliberação pessoal e íntima de cada uma. Embora não possam se casar, é permitido namorar e ter filhos.

O ritual da preparação demanda em média duas horas. Primeiro, é preciso cuidar da vestimenta: são três quimonos sobrepostos, amarrados com um obi, aquela faixa larga na altura da cintura. Em seguida vem a maquiagem branca, que transforma o rosto numa máscara. E então é a vez do cabelo, que pode ser o da própria pessoa ou uma peruca. As jovens aprendizes, chamadas maikos, ainda devem estudar instrumentos variados, como o yokobue, uma flauta de bambu, e o shamisen, instrumento semelhante ao banjo. Dança, desenvoltura no trato e a arte de servir bem também integram a grade curricular.

Tornar-se gueixa exige uma dedicação de pelo menos um ano. O conhecimento profundo da cultura local e sua fluência em japonês foram fundamentais para a conversão de Fiona. Seu amor pela flauta japonesa contou. “Tocava yokobue em restaurantes, quando ainda estava no colégio, para ganhar algum dinheiro. Gostava muito, mas nunca considerei seguir carreira.”

Sayuki mantém sua própria casa de gueixas em Tóquio, onde recebe aprendizes. Não pode se filiar à Associação de Gueixas de Asakusa, distrito onde essas profissionais são numerosas, pois para tanto é imprescindível ser japonesa. São essas agremiações que tradicionalmente fazem o meio de campo entre os clientes e as casas de chá. A internet facilitou as coisas para a ocidental, e por meio de um endereço eletrônico ela consegue operar de forma independente e contatar clientes dentro e fora do Japão, como o australiano que a contratou para passar o Carnaval no Rio. Os estrangeiros no exterior ainda são um nicho pouco explorado pela categoria, uma vez que quase todas as gueixas falam apenas japonês.

 

O número de gueixas no Japão tem diminuído progressivamente. Na década de 20, eram 80 mil; hoje são cerca de 2 mil. As meninas não costumam ser incentivadas pelos pais, que preferem uma formação mais convencional. Sayuki teme o extermínio da carreira e tem experimentado inovações para atrair e estimular novatas. Começou por oferecer aos turistas a possibilidade de assistir a aulas de dança e música, que em geral são caras e pagas pelas próprias maikos. Ela inverteu o jogo: os espectadores é que arcam com o ônus das lições.

A antropóloga costuma pedir a aprovação de gueixas mais velhas antes de pôr em prática suas ideias, para não ser acusada de ferir as tradições – embora muitas vezes os próprios clientes não as respeitem. “É comum as pessoas levarem um aparelho de karaokê a um jantar em que nos apresentamos. É uma atitude muito desrespeitosa.” Procurando se adequar aos novos tempos, Sayuki aprendeu músicas populares, salvando as letras num iPad que carrega consigo.

 

Ao caminhar pela praia do Leme, no Rio, Sayuki analisava o samba no pé dos foliões de um bloco de rua. Dias antes, ela havia precisado recorrer ao YouTube para assimilar algum gingado antes de se apresentar ao barracão da Viradouro, no ensaio final que precedeu o fatídico desfile. “Quero voltar ao Brasil o ano que vem e sair numa escola”, contou animada.

Sayuki estava contente por poder levar para casa a fantasia da Viradouro. “Há um desfile de Carnaval em Asakusa, bem diferente deste, mas posso aproveitar a roupa.” Ao ser questionada por que não vestia a indumentária num bloco de rua no Rio, a australiana disse que estava um pouco acima do peso – e, afinal, o traje não passava de um biquíni e muitas penas. “Mas tenho corrido pelas manhãs para recuperar a forma.” Como um eventual bronzeado não seria adequado à profissão, ela se exercitava de pantalona e camiseta de manga comprida. E parecia disposta a também enfrentar o calor das ruas cariocas com outra fantasia. “Amanhã os blocos ainda vão sair? Gostaria de ir de gueixa.”

Nathália Cariatti

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