chegada

Depois do Minotauro

A crise europeia e as ideias do ministro das Finanças grego, Yanis Varoufakis

Rafael Cariello
Varoufakis quer ser ouvido pelo <i>mainstream</i> econômico, mas admite temer a sedução exercida pelos círculos de poder e do dinheiro
Varoufakis quer ser ouvido pelo mainstream econômico, mas admite temer a sedução exercida pelos círculos de poder e do dinheiro ILUSTRAÇÃO: STEFANOS PAPADATOS_ESTEBANNED.WIX.COM/PORTFOLIO

O principal diário de negócios do mundo, o britânico Financial Times, o comparou ao ator Bruce Willis, por seu cabelo cortado a máquina, quase raspado, o amplo maxilar de linhas retas e o hábito de envergar jaquetas de couro, mesmo em ocasiões solenes. Também não deixou de notar sua chegada “heterodoxa” à primeira reunião de governo, montado numa Yamaha de 1 300 cilindradas.

Yanis Varoufakis, ministro das Finanças da Grécia, ganhou os holofotes no final de janeiro. Os eleitores gregos, cansados de cinco anos de um regime de austeridade que fez a economia do país encolher e o desemprego passar dos 25%, deram o controle do governo ao Syriza – sigla para Coligação da Esquerda Radical. Eleito para o Parlamento, o economista, que completa 54 anos neste mês, foi encarregado de negociar com a União Europeia novas condições para o ajuste imposto à Grécia. Mal tomou posse, iniciou um périplo pelos principais centros de poder do continente.

Em Londres, a falta de gravata e o casacão preto que ia até quase os joelhos, em contraste com o comportado terno cinza de seu colega britânico, chamaram a atenção da imprensa. Uma comentarista de moda do jornal The Guardian disse que, naqueles trajes, o político grego fazia lembrar um traficante de drogas – ou um segurança de boate. “Não mexam comigo”, “Não quero fazer parte do clube”, era o que ele queria dizer com a escolha de roupas, segundo a interpretação de outro colunista, no mesmo jornal.

Dias depois, em Berlim, não houve dúvidas sobre o que ele queria dizer. Varoufakis comparou a atual situação da Grécia à da Alemanha depois da Primeira Guerra Mundial e ao contexto econômico que levou à ascensão do nazismo. “Ninguém melhor do que as pessoas deste país entende o modo como uma economia em recessão, combinada com a humilhação ritual de uma nação e desesperança sem fim podem chocar o ovo da serpente”, declarou, ao lado do sisudo ministro das Finanças alemão, Wolfgang Schäuble.

 

Os problemas gregos, de toda forma, haviam começado lá atrás. O poder público daquele país já gastava mais do que arrecadava mesmo antes de sua entrada, na virada do milênio, para a zona do euro – a moeda única adotada pela maioria dos países da União Europeia. Na década passada, o problema se manteve. O dinheiro barato no mundo todo, que nos Estados Unidos impulsionava a bolha imobiliária e a criação de instrumentos financeiros temerários, também ampliava o crédito para a periferia da Europa. Em particular, a diminuição das taxas de juros cobradas dos países que passaram a integrar a zona do euro, considerados então financeiramente mais estáveis, facilitou o trabalho da Grécia de tomar dinheiro emprestado para continuar a financiar seus recorrentes déficits públicos.

Então, em 2008, a bolha estourou – e a banda, o crédito fácil que alimentou anos de exuberância irracional, parou de tocar. Paulo Nogueira Batista, representante do Brasil e de mais dez países no Fundo Monetário Internacional, lembra que a Grécia logo se revelou o país mais vulnerável da área do euro. “Do lado comercial, ela foi afetada pela recessão nos seus principais parceiros comerciais”, ele disse. “Pelo lado financeiro, pela abrupta redução da disponibilidade de capitais para financiar déficits externos e déficits públicos.” Já em 2009, ficou claro que as estatísticas do país não eram confiáveis. O problema era pior do que se imaginava. “Quando veio à tona que os déficits eram muito maiores do que vinham sendo contabilizados, houve uma crise de confiança”, explicou Nogueira Batista, ressaltando que falava a título pessoal, e não como diretor do Fundo Monetário. “Perto do que os gregos vinham fazendo, mesmo as coisas que aconteceram na América Latina pareciam inocentes. A distorção dos números era gigantesca.”

Com a obrigação de pagar os juros das dívidas que já tinha feito, e sem poder recorrer novamente ao mercado, a Grécia teve que pedir ajuda a organismos internacionais. Entrou em cena a famigerada troica: o FMI, a Comissão Europeia e o Banco Central Europeu. Em troca do socorro financeiro, exigiram do país um forte ajuste econômico. Os déficits públicos tiveram que ser rapidamente reduzidos, com o objetivo de que a Grécia passasse a gastar menos do que arrecadava a partir de 2014. Muita gente foi demitida; benefícios, cortados. O desempenho da economia, já ruim pelos efeitos da crise no mundo e na Europa, piorou com a contenção dos gastos do Estado. Mas isso ainda não era tudo.

“Os europeus impuseram um programa de reformas estruturais muito ambicioso, muito detalhado”, disse Nogueira Batista. “Foi quase, eu diria, uma tentativa de governar o país de fora pra dentro, tal a extensão do programa de ajuste, de reforma estrutural. Na verdade, a troica estabeleceu uma espécie de protetorado sobre a Grécia. Era difícil achar uma área do governo que não estivesse sujeita ao seu monitoramento.”

 

Apesar de considerar compreensível o cansaço do povo grego com as medidas de austeridade, Samuel Pessôa, pesquisador da Fundação Getulio Vargas, argumenta que o duro ajuste econômico a que a Grécia foi submetida era, de alguma forma, inevitável.

Nos anos de bonança, explicou Pessôa, com o custo do dinheiro baixo, os países da periferia do euro – Grécia, Portugal, Espanha – fizeram dívida e passaram a consumir mais do que produziam. O maior aumento da demanda do que da oferta fazia com que os preços dos serviços e os salários, nesses países, aumentassem. A Grécia e os produtos que ela vendia se tornaram caros.

Sem a gasolina do crédito, que cessou, a Grécia, de uma maneira ou de outra, tem que ficar mais barata, afirma Pessôa. Seus caros produtos não são competitivos, dentro e fora do país. Uma solução relativamente simples para conseguir aumentar a competitividade e impulsionar a economia, se o país tivesse sua própria moeda, seria desvalorizar o câmbio, e assim baratear o que vende ao resto do mundo – encarecendo, também, o que vem de fora. Atados ao euro, os gregos não têm essa opção. Outro caminho é um duro ajuste de custos. A economia entra em crise, pessoas são demitidas – e o alto índice de desemprego força os salários para baixo. Como os salários são um dos principais custos de produção, aos poucos os bens e serviços gregos vão ficando mais baratos – e a economia, mais competitiva, capaz de voltar a crescer.

Para fazer o ajuste sem mexer no câmbio, os gregos tiveram que ver seus salários diminuírem. Com desemprego e recessão. Era o preço de ter uma moeda forte, e de continuar parte da zona do euro. “O problema é que essa estratégia de desvalorização é muito custosa socialmente”, afirmou o pesquisador da FGV. “Os caras estão quase lá. Fizeram muita coisa. Mas o povo cansou. O custo da Grécia foi alto demais. Eu entendo. É trágico.”

 

Numa palestra em 2013, Varoufakis se disse um “marxista errático”, explicando à plateia a importância das ideias de Karl Marx para a sua formação. Ali mesmo, no entanto, ele afirmou que suas recomendações de política econômica não podiam ser descritas como marxistas. O poder estabelecido, ele disse, não se deixa afetar por teorias que partem de premissas não ortodoxas. Seu objetivo era ter influência e provocar mudanças. Ele preferia, assim, falar a língua do mainstream econômico para, partindo de suas premissas, “expor suas contradições internas”.

Na mesma palestra, o economista contou que essa concessão ao status quo trazia riscos. Convidado a falar para investidores, anos antes, ele precisou tomar um avião. Ao se encaminhar para o embarque, de posse de um bilhete de primeira classe pago pela instituição que o contratara, notou a fila de passageiros da classe econômica. Percebeu então, “com horror”, o quanto era fácil ser cooptado. O quanto era fácil se sentir diferente do hoi polloi – o “povão”, em grego. Talvez isso ajude a entender a sua atual recusa a usar gravatas e o gosto pelas jaquetas de couro.

Dois anos antes dessa palestra, Varoufakis havia lançado um livro sobre a crise de 2008 e seus efeitos no resto do mundo, The Global Minotaur [O Minotauro Global]. Versado nas narrativas fantásticas da Antiguidade, o economista grego lançou mão de um mito helênico para explicar o arranjo da economia internacional – uma espécie de desequilíbrio estável – nos anos que antecederam a quebra do Lehman Brothers e a encrenca em que seu país e a União Europeia se meteram.

Segundo ele, o apetite da economia americana, desde os anos 80, se assemelhava ao da criatura monstruosa, metade homem, metade touro, que devorava levas de carne humana em seu labirinto. Conta o mito que Minos, rei de Creta, conseguia alimento para o Minotauro exigindo de cidades-Estados mais fracas, como Atenas, a remessa regular de rapazes e moças para os seus domínios.

A economia americana, por sua vez, também esfomeada, praticou recorrentes déficits fiscais e comerciais, importando mais do que exportava, por mais de três décadas, escreve Varoufakis. Enquanto os Estados Unidos consumiam o que não tinham (o setor público, mais do que recolhia em impostos; e muitas famílias, mais do que seus salários permitiriam, fazendo dívida), outros países se apresentavam como os grandes poupadores do sistema global, exportando mais do que importavam. Esse papel foi exercido, a partir do final dos anos 90, sobretudo pela China.

O que ligava poupadores e o grande gastador, tornando o desequilíbrio relativamente estável, era o sistema financeiro. A China, por exemplo, fazia dinheiro exportando seus produtos para os Estados Unidos. Depois reinvestia parte desses recursos em papéis americanos. O dinheiro que entrava, em grande quantidade, ajudava a manter baixas as taxas de juros de longo prazo dos Estados Unidos – o que por sua vez voltava a estimular o consumo, a fomentar a compra de casas e a bolha do mercado imobiliário naquele país.

O incessante fluxo de recursos e a crescente importância do setor financeiro na economia americana, segundo o hoje ministro grego, também serviram para estimular a criação de tipos novos e complexos de investimento, atrativos num mundo de juros baixos. “Sem o Minotauro global garantindo uma torrente constante de capital para os Estados Unidos, essas práticas nunca teriam se tornado sistêmicas – nem mesmo em Wall Street”, escreve Varoufakis, numa análise não muito divergente de algumas das principais explicações para a crise.

 

Longos períodos de desequilíbrios comerciais e de transferências de capital, à maneira do que aconteceu nos Estados Unidos e na Europa na década passada, são comuns, escreve Varoufakis em seu livro. Quando acontecem dentro de um determinado país, desequilíbrios econômicos podem ser compensados pela ação do Estado, capaz de gastar em regiões pobres mais do que elas contribuem em impostos – recolhendo os recursos necessários nas áreas mais ricas. Um mecanismo desse tipo pode funcionar também nas relações econômicas entre diferentes nações, argumenta o economista grego.

Um caso que ele destaca é o das trocas entre os Estados Unidos, a Europa e o Japão por quase três décadas depois do fim da Segunda Guerra. Varoufakis lembra que os americanos saíram do conflito como a grande nação superavitária, exportando bens e capital para os países europeus e o Extremo Oriente. Em contrapartida, ele diz, os Estados Unidos foram capazes de “reciclar os seus superávits”, realizando gigantescos programas de ajuda e investimentos diretos nessas duas regiões do globo. Investimentos que foram responsáveis, segundo ele, por reconstruir aquelas economias e garantir mercado para os produtos norte-americanos.

“O melhor momento do capitalismo global aconteceu quando os líderes da mais poderosa união política no planeta decidiram exercer um papel hegemônico – um papel que envolvia não apenas o exercício da supremacia política e militar, mas também o tipo de gigantesca redistribuição de superávits pelo globo que os mecanismos de mercado são em última instância incapazes de realizar de maneira eficaz”, ele escreve.

O argumento todo é montado para que o verdadeiro vilão do livro apareça. E ele não é a pátria do Minotauro, os Estados Unidos, que chegam até a parecer astutos e razoáveis na prosa desse professor de esquerda, mas uma criatura segundo ele aparentemente pior: a Alemanha, chamada por Varoufakis de “simulacro de Minotauro”. O país mais rico da zona do euro, beneficiado por um constante superávit comercial com o resto da região, se mostrou incapaz, segundo o economista grego, de abrir mão de parte de seus ganhos a fim de dar maior estabilidade à Europa. “A grande diferença entre a hegemonia americana no mundo e o domínio alemão na União Europeia foi que os Estados Unidos entenderam bem a importância de reciclar superávits”, ele diz.

 

“O euro foi um passo maior do que a perna”, disse-me Samuel Pessôa, numa conversa por telefone, em fevereiro. Tanto ele quanto Paulo Nogueira Batista afirmam que falhas no arranjo institucional da União Europeia complicaram os problemas econômicos da região depois da crise de 2008, em particular na sua periferia. Nogueira Batista ressalva, de toda forma, que não é razoável atribuir apenas à Alemanha as falhas da zona do euro. “A Alemanha é primus inter pares, mas não resolve sozinha.”

Para que uma união monetária funcione bem, dizem os economistas, é preciso que os países que adotam a moeda única disponham de características econômicas específicas e de alguns instrumentos políticos – características e instrumentos que faltam à Europa. Uma delas é uma mobilidade maior de trabalhadores – a facilidade de deslocar pessoas que procuram emprego de uma região a outra da área de união monetária. Isso permitiria equilibrar um pouco mais as diferenças salariais e as taxas de desemprego em todo o continente.

Quando os salários subissem numa determinada região, trabalhadores seriam atraídos para lá – e a enxurrada de gente seguraria os aumentos, atenuando os custos para as empresas. Por outro lado, quando a crise atingisse de maneira mais forte um determinado país, muita gente se mudaria para outras áreas, mais prósperas. Isso já acontece, em alguma medida, mas não da maneira como seria desejável. “A mobilidade do trabalhador é maior dentro dos Estados Unidos, dentro do Brasil, do que na Europa”, disse Nogueira Batista. “A Europa é muito mais heterogênea, até linguisticamente, e isso cria barreiras naturais à mobilidade. É muito mais difícil para um europeu se deslocar.”

Assim, uma política monetária razoável para manter baixa a inflação em uma região com menor desemprego, como a Alemanha, pode se revelar dura demais e prejudicial à atividade econômica para países em crise, como Portugal, Espanha e Grécia.

Outro problema, segundo Samuel Pessôa, é a falta de instrumentos fiscais – ou seja, de algum mecanismo de recolhimento centralizado de impostos e redistribuição desses recursos para toda a Europa. “Vamos pensar por exemplo no caso de Portugal. O país está com uma situação fiscal e econômica difícil. Aí um português emigra para a Alemanha. Ele vai deixar de contribuir para a previdência portuguesa. Você teria que ter alguma regra para transferir a tributação sobre o salário dessa pessoa para o país de origem. Senão, quanto mais migração tem – que seria, a princípio, uma forma de resolver desequilíbrios –, mais você agrava o problema fiscal.”

O mesmo vale para o seguro-desemprego. O país que já está com problemas fiscais terá que arcar, sozinho, com o custo desse benefício social, tornando ainda pior a situação precária de suas contas.

“Ninguém percebeu que fazer parte de uma união monetária era muito mais complicado do que a gente imaginava”, disse Pessôa. “Os políticos da região quiseram pegar um atalho, acharam que não ia dar problema. Deu.”

Rafael Cariello

Editor da piauí. Foi editorialista da Folha de S.Paulo e correspondente do jornal em Nova York

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