esquina

Deputado não resiste a oncinha

Das artes de influir nos destinos da nação

Carol Pires
ILUSTRAÇÃO_ANDRÉS SANDOVAL_2009

Janileny Vieira bebeu o café com calma, tomou banho e penteou com vagar os cabelos pretos. Escolheu uma calça jeans com lycra, sandália de salto e frente-única vermelha. Passou sombra nos olhos e realçou os lábios carnudos com batom. Olhando-se no espelho, pareceu gostar do que viu. A roupa ornava bem sua silhueta de 1,59 metro. Era 22 de abril, primeiro dia útil depois do feriado de Tiradentes. Como os deputados federais ainda estavam chegando a Brasília, Janileny se deu ao luxo de ir à Câmara de jeans.

Jani tem 28 anos e há nove trabalha como coletora de assinaturas. Natural de Fortaleza, deixou pai, mãe e irmã para ir em busca de emprego na capital. Com a ajuda de um deputado (hoje senador) cujo nome não revela, conseguiu logo um bico: convencer 171 deputados a assinar um requerimento de Proposta de Emenda à Constituição (PEC). “Convencer” é modo de falar. De requerimento na mão, ela apenas perguntava ao deputado que estivesse passando pela frente se ele não podia dar uma assinadinha rápida. A maioria assentia sem pensar duas vezes.

Nem tudo foram flores no primeiro dia. Um parlamentar se irritou por ela não saber com quem estava falando: “Você olhe para mim e aprenda meu nome, meu estado, meu partido e o número do meu gabinete!”, vituperou, o dedo espetado no ar. Naquele dia mesmo, Jani imprimiu uma lista com foto e identificação dos 513 deputados. Memorizou tudo, e em pouco tempo virou um Google ambulante para questões onomásticas relativas à Câmara. “Leonardo Quintão, PMDB de Minas Gerais, gabinete 914”, diz, apontando o deputado que se aproxima. Olha para o outro lado e carimba: “George Hilton, PP de Minas, 843.” Ao avistar o paulista José Aníbal: “PSDB, gabinete 832.” Hoje ela não precisa procurar serviço: “Os assessores vêm até mim com trabalho”, conta.

Ter coletores profissionais de assinatura circulando pelos corredores é uma das muitas peculiaridades do combalido Legislativo nacional. Digamos que em determinado dia o nobre deputado Fulano de Tal seja acometido por uma idéia. Diligente que é, no mesmo instante arregaçará as mangas para produzir uma bela peça legislativa. Mas haverá um entrave: espantosamente original, sua proposta exigirá mudanças na Constituição. Ora, uma mexida constitucional não pode nem ser aventada se no mínimo 171 colegas não endossarem o projeto para apresentá-lo à mesa diretora. É aí que entram profissionais como Janileny. Visto que deputados estão sempre ocupados demais para ir atrás dos colegas, delega-se a função.

Ela não é funcionária da Câmara. Nem concursada, nem comissionada, nem terceirizada, nada. Sequer é parente de José Sarney. Jani entra no prédio graças a um crachá vermelho emitido pela diretoria administrativa da Casa. Nele está escrito: “Autorizado.” Cada deputado tem direito a um só crachá e pode dá-lo a quem quiser. Janileny só usa o dela para passar pela portaria: “Depois guardo na bolsa. Não combina com a minha roupa.”

 

No dia 23 de abril, quinta-feira, Jani optou por sair em campo com uma indumentária mais estratégica do que um jeans colante. Vestiu um terninho rosa e sandália de salto alto, realçados por sombra brilhante e batom Rosa Grape, marca Boticário: “Tem outras dez pessoas aqui pedindo para deputado assinar projeto. Como eu ando colorida, eles sempre se lembram de mim.” Na semana seguinte, ela se faria notar com várias outras cores: vermelho, azul-anil, verde-limão, amarelo-ovo e amarelo-escuro.

Só que nenhum colorido é mais rentável do que o seu terninho de oncinha: “Menina, não é possível! Ontem eu fui numa vidente e ela me disse que eu teria dois filhos e que a mãe deles seria uma onça!”, disse-lhe um deputado outro dia mesmo. A assinatura foi colhida sem maiores esforços.

Um coletor sem oncinha leva em média três dias para reunir as 171 assinaturas de uma PEC, enquanto Jani liquida em menos de dois.

Resplandecente, Janileny se posta no corredor que dá acesso aos anexos II, III e IV da Câmara. Ela quase sempre conhece o teor da proposta que tem em mãos, mas raramente precisa explicar. Ao ver um deputado, apenas diz: “Deputado, assina aqui para mim.” A maioria assina sem titubear, em geral sem saber do que se trata. “Só um ou outro xarope pede explicação”, diz. Vez por outra, voltam para reclamar: “Poxa, Jani, era para CPI…”, protestam, depois de terem inadvertidamente apoiado a instalação de uma.

Sim, os líderes costumam orientar a bancada sobre como proceder acerca de um projeto. “Eles dizem para os deputados: ‘Não assina a PEC tal que está no corredor.’ Mas daí”, explica Jani, “se ele me diz que não pode assinar porque o líder mandou, eu digo: ‘Ah, mas o senhor está tão lindo hoje.’ A maioria acaba cedendo.”

Se há uma regra de ouro nesse ramo, é a imparcialidade. Jani defende qualquer parlamentar com unhas e dentes. Edmar Moreira, por exemplo, o do castelo, “está sendo vítima de armação”. De Roberto Jefferson ela só guarda boas recordações: “Chorei muito por ele.” Só sobre José Sarney ela se fecha em copas: “Morro de medo desse homem. Não tenho nada a declarar.”

Permite-se apenas uma leve crítica ao deputado Fábio Faria, em cujas asas, turbinadas pelo contribuinte, voou a namorada Adriane Galisteu:  “Pagar passagem para ela já é demais…” Depois de uma pausa, completou: “E ele não assina comigo.”

Como se sabe, Fábio Faria e os demais deputados com alma de Marco Pólo saíram impunes da crise por decisão de Michel Temer, presidente da Câmara. “Esta foi a melhor notícia dos últimos tempos”, alegra-se Jani. “Não pelo Fábio Faria, mas porque não vai prejudicar os deputados que ajudaram tantas pessoas a viajar”, diz, a sério.

 

No início da carreira Janileny cobrava 1 real por canetada. Hoje, experiente no ramo, adota uma tabela própria. Recurso é o mais barato: 100 reais. “Só precisa de 60 assinaturas, então cobro o piso.” Em seguida, PEC: 400 reais. Quase todos assinam porque é difícil de ser aprovada – logo, assinar só traz benefícios. Criação de frente parlamentar, 198 assinaturas, 600 reais: “Depois de assinar eles precisam participar das reuniões, então é mais chato.” CPIs ficam no topo: 800 reais. “São 171 assinaturas também, mas com CPI ninguém quer se comprometer.”

Os proventos de Janileny estão entre 2 mil e 5 mil reais por mês. As vacas mais gordas lhe deram o ar da graça em 2006, quando o Congresso votou alterações na legislação tributária. Ela conseguiu completar 29 requerimentos e fechou o mês com 17 mil reais. Quem lhe paga é sempre um assessor do autor do projeto. Jani só trabalha mediante pagamento em dinheiro vivo, sem nota fiscal.

Ela não tem planos de trocar a Câmara pelo Senado. Pela boa razão de que “encontrar senador no corredor é mais difícil do que ver orelha de freira”. Onde está, Jani contribuiu com alguns dos capítulos mais emocionantes da vida nacional. Já colheu assinaturas para a cpi dos Correios, para a dos Sanguessugas e para a pec que beneficia o Brasil com a dádiva de mais 8 mil vereadores

Carol Pires

É jornalista, roteirista, colaboradora do New York Times e colunista da Época online. Foi repórter da piauí de 2012 a 2016

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