esquina

Desopilando o fígado

Rir é o melhor remédio, segundo a terapia do riso

Clara Becker
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL

Paula Duarte, uma jovem magra, baixa, com cabelos curtos, rebeldes e músculos torneados pela ioga, andava com passo apertado devido ao atraso de quase uma hora. Era uma tarde de quinta-feira e ela se demorara no almoço. Funcionária do Instituto Trevo, ela acompanha as visitas dos agentes de saúde às escolas do Rio de Janeiro para fazer a prevenção da dengue. Naquele dia, percorria os colégios da Gávea. Quando finalmente chegou ao endereço procurado, a escola Ciranda Cirandinha, o porteiro informou que as diretoras tinham acabado de sair para o almoço. Ela estranhou e verificou sua agenda. Constatou que havia se enganado de escola: teria que refazer o caminho que acabara de percorrer e chegaria ainda mais atrasada. Paula Duarte caiu na gargalhada. O porteiro deu um sorriso amarelo e fechou a porta.

“Hoje, se alguma coisa dá errado, avião cancelado, trânsito insuportável, eu dou risada. Antigamente, teria me descabelado com o atraso”, disse. Aos 20 anos, Paula era seríssima. Trabalhava com merchandising na Rede Globo, tinha carro, noivo, amidalite, cistite, gastrite e sofria de ansiedade. Para desespero da mãe, decidiu mudar de vida e virar professora de ioga. Deu-se bem na nova profissão e chegou a dar cinco aulas por dia. Mas acabou deprimida com a austeridade da ioga. “A vida era só ‘inspira, expira’, e eu não aguentava mais olhar para o meu tapetinho.”

Deu então uma segunda guinada na vida. Vendeu o carro, foi para a Europa e se matriculou na Escuela Salud Inteligente, em Barcelona, onde se formou terapeuta do riso. Segundo Paula, nove minutos ininterruptos de gargalhada diários aliviam todos os sintomas do estresse.

Desde que foi criada, em 1995, em Mumbai, pelo guru indiano Madan Kataria, a terapia do riso se alastrou pelos cinco continentes e estima-se que 250 mil pessoas a pratiquem em 66 países. Como os números são impossíveis de serem conferidos, o guru sugere que se ria deles. Kataria chegou à conclusão de que não se pode esperar pelos momentos engraçados na vida para rir, e a risada deve ser forçada até que se torne verdadeira. O corpo não sabe diferenciar a risada falsa da verdadeira. Uma vez aprendida a técnica, uma pessoa pode ter crises de riso até em funerais.

A terapia é vendida como uma panaceia. Relatos ao redor do mundo garantem que ela beneficia pacientes com asma, esclerose múltipla, Alzheimer, Parkinson e aumenta as chances de sobrevivência de pacientes com câncer. Dizem ainda que cura mazelas da contemporaneidade como depressão, ansiedade, angústia, transtornos gerais, famílias desestruturadas e limitações físicas ou mentais. O riso também é tiro e queda para pessoas tímidas, ou que tiveram uma educação rígida e se sentem travadas. Os defensores da terapia alegam que o riso produz endorfina e estimula o sistema imunológico. A risoterapia tornaria a vida mais fácil, humana e divertida. Rá! Rá! Rá!

Paula é um pouco mais realista: “Não dá para transformar o mundo num lugar onde todo mundo sorri. Isso não existe. Mas para mim fez muito bem, sou mais feliz assim. Quando acordo triste, forço uma gargalhada e o meu humor melhora.” O sonho dela é conseguir se sustentar sendo apenas terapeuta do riso. Ganharia a vida dando risada. “Mas as pessoas têm muita resistência e acham que essa terapia é perda de tempo”, disse, lastimando o preconceito do carioca. “Em Barcelona, a terapia do riso é uma profissão reconhecida, praticada em hospitais, asilos, empresas e escolas.” No Rio, Paula montou o Zen Gravata, que leva a terapia do riso para empresas com o intuito de melhorar as relações de trabalho. “É uma experiência libertadora, traz muita cumplicidade. Você pode dividir uma sala com a mesma pessoa durante quatro anos e não se lembrar dela, mas é impossível esquecer alguém com quem você tenha tido uma crise de riso”, afirmou.

 

No mês passado, Paula ministrou seu primeiro curso que, num trocadilho bárbaro, chama de “Workchaplin Acorda palhaço”. Eram nove e meia da manhã de um sábado e a professora pedia desculpas aos 22 inscritos, algo sonolentos, sentados em círculo: “Se eu soubesse que ia fazer um dia tão bonito, teria cancelado o curso para ninguém perder a praia.” Feitas as apresentações, onde cada um teve que gritar o próprio nome com raiva, todos iniciaram uma série de posturas suaves de hatha yoga para exercitar a respiração e liberar o diafragma. Em seguida, algumas dinâmicas de grupo para criar uma atmosfera sem julgamentos (como dançar enlouquecidamente) e brincadeiras para ajudar a “resgatar a criança interior” e produzir um riso mais sincero. Os adultos, de fato, passaram a se comportar como crianças.

No jogo da floresta, por exemplo, os participantes foram vendados e divididos em pares de animais. Após serem separados, deviam se reencontrar por meio de seus ruídos. Latidos, miados, cacarejos, rugidos, uivos, berros, coaxos e piu-pius tomaram conta da sala. Enquanto os participantes imitando quadrúpedes penavam para achar seus pares, com medo de bater nas paredes ou nos colegas, Paula morria de rir. “Mas a hora do encontro traz memórias afetivas muito bonitas”, disse, justificando a brincadeira.

Depois do encontro, os parceiros trocaram massagens usando os cotovelos. Paula advertiu que as escápulas e as panturrilhas são lugares propícios para desencadearem risadas. Criado o ambiente leve, era a hora de os participantes partirem para o riso forçado que traz benefícios tão miraculosos. A técnica consiste em se deitar com a barriga para cima e os joelhos dobrados. Deve-se forçar uma tosse para trabalhar a musculatura do riso e bater levemente com a bacia para cima e para baixo. Ao cabo de cinco minutos, as tosses se transformam em risos forçados e risos forçados dão lugar a gargalhadas, com direito a tremeliques e corpos se retorcendo. Mas nem todos têm êxito. Houve quem apenas tossisse como um tuberculoso, sem conseguir rir.



Clara Becker

Clara Becker é jornalista e vive no Irã. É coautora dos livros The Football Crónicas e Los Malos

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