carta de Havana

Detetive particular

Um autor de romances policiais navega pela realidade menos visível de Cuba

Jon Lee Anderson
Por dinheiro, cubanas posam com uma noiva em Havana. Herói da ficção de Leonardo Padura, Mario Conde vive numa cidade que é o inverso de um paraíso de trabalhadores, e se considera “o merdinha de um detetive particular num país onde não existem detetives nem pessoas particulares”
Por dinheiro, cubanas posam com uma noiva em Havana. Herói da ficção de Leonardo Padura, Mario Conde vive numa cidade que é o inverso de um paraíso de trabalhadores, e se considera “o merdinha de um detetive particular num país onde não existem detetives nem pessoas particulares” FOTO: DMITRI MARKINE_WWW.DMITRIMARKINE.COM

Poucos meses atrás, a Embaixada da Espanha em Havana organizou uma festa em homenagem à literatura cubana. O evento, que teve lugar no Palácio Velasco Sarrá, um prédio neocolonial nos limites da Cidade Velha, constituiu um verdadeiro tratado sobre a cautela. Fidel Castro havia fechado o centro cultural da embaixada espanhola em 2003, por medo de que cultivasse a subversão, e a sede começava a reativar sua programação. O embaixador descreveu a noite como parte da “atividade diplomática de que precisamos para nossa adaptação à realidade cubana”.

O momento alto da noite era uma palestra de Leonardo Padura Fuentes, um homem baixo, moreno, de compleição sólida, com a barba embranquecida e a expressão impenetrável de um experiente pároco de aldeia. Padura é uma figura incomum na Cuba de hoje: um romancista, jornalista e crítico da sociedade que sempre driblou a censura do Partido Comunista. Mais conhecido como autor de meia dúzia de romances policiais que conquistaram uma apaixonada legião de seguidores, tanto na ilha como fora dela, Padura não é um dissidente à moda de Soljenítsin, tampouco é um mero autor comercial. Para os intelectuais cubanos e a classe dos profissionais bem informados do país, mais que um romance, cada novo livro de Padura constitui um documento, um modo de entender a realidade cubana. Embora em público fale com cuidado, em particular o escritor admite: “As pessoas pensam que o que eu digo serve de baliza para o que pode ou não pode ser dito em Cuba.” Ano passado, ele recebeu o Prêmio Nacional de Literatura de Cuba, um reconhecimento tanto de sua obra literária quanto de sua destreza política.

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Jon Lee Anderson

Jon Lee Anderson é jornalista americano, repórter da revista The New Yorker, na qual esta reportagem foi originalmente publicada. É autor de Che Guevara: Uma Biografia e A Queda de Bagdá,pela Objetiva.

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