despedida

Dez parágrafos que não dizem nada

Como escrever um obituário à altura do Quino?

Gregorio Duvivier
Quino, em desenho publicado em 1985: a internet lhe fez bem
Quino, em desenho publicado em 1985: a internet lhe fez bem CREDITO: JOAQUÍN SALVADOR LAVADO (QUINO)_QUINOTERAPIA_LIVRARIA MARTINS FONTES

1 Queria uma despedida que fosse como uma tira do Quino: curta, lacônica, impecável. Uma despedida que não fosse uma elegia, mas um epitáfio. Tarde demais. Mal começou, e a despedida já tem muito mais palavras do que ele gostaria.

 

2 “Sem comparação”, dizia o Dadá Maravilha, “que comparação só gera polêmica.” Impossível não comparar. Filho de espanhóis – como o Millôr, cujo pai era espanhol –, perdeu pai e mãe muito novo – como o Millôr. Começou a trabalhar muito cedo – como o Millôr – e alcançou o grau máximo de sofisticação do humor gráfico – como o Millôr, o Steinberg e o Sempé (minha Santíssima Trindade). Nenhum deles, no entanto, chegou ao seu nível de popularidade global, entre tantas gerações e em tantas línguas. Mafalda fez no humor o que os Beatles fizeram na música. “A massa ainda comerá o biscoito fino que fabrico”, dizia o Oswald, que morreu sem ver o sonho se tornar realidade. Quino viu seu biscoito fino entrar para a dieta dos quatro cantos do planeta – e não precisou adicionar conservantes nem gordura vegetal hidrogenada.

 

3 “O que eu penso da Mafalda não importa. O que importa é o que a Mafalda pensa de mim”, disse o Cortázar. Parafraseava, poucos lembram, a própria Mafalda: Todos acreditamos no país, o que não se sabe é se o país ainda acredita na gente.

 

4 Seu tamanho fica muito claro quando se veem as homenagens que recebeu tão logo morreu, em 30 de setembro. Não pela quantidade delas (foram infinitas). O que dá a dimensão do Quino é a distância que o separa da maioria das homenagens que fizeram a ele. Muitas são parecidas: Mafalda chora enquanto Quino parte, alado, em direção aos céus – a legenda diz “Adeus, pai”. A crença na eternidade da alma, a ideia de que seus personagens dependem dele pra viver, a metáfora da paternidade. Nada mais distante de uma tira do Quino.



 

5 Muitas tiras do Quino, sobretudo as pós-1973, são um mistério indecifrável, ao menos pra mim. Quino não punha legendas. Quem pegar pegou. Muitas são impegáveis. Pra mim, são as melhores.  Aquela em que um homem solitário dança com uma mulher imaginária até que leva um soco de um homem invisível. Aquela em que todos se comunicam por quadrados até que o protagonista angustiado compra, num beco sombrio, um compasso. Aquela em que um astronauta encontra, na escuridão do espaço sideral, o buraco de uma fechadura.

 

6 Ao lado de uma imagem de Mafalda e Manolito, o romancista espanhol Fernando Aramburu lamentou: “Eles ficaram órfãos.” Quino não teve filhos e detestava a alcunha de pai dos seus personagens. “Já dei um pai a Mafalda, ela não precisa de dois.” Não teve filhos talvez porque amasse tanto as crianças que não queria jogá-las neste mundo louco. Quando perguntavam a ele o que é que teria acontecido com Mafalda caso ela fosse de carne e osso, talvez esperassem uma resposta mais cândida, algo como “tornou-se livre” ou “virou presidente”, mas Quino era taxativo: “Estaria morta.” Após o espanto, explicava que ela decerto seria uma das desaparecidas da ditadura militar argentina.

 

7 “Eu sou espanhol, sempre falei que sou espanhol”, dizia Quino, e me doeu ler isso, porque poucos latino-americanos chegaram tão longe e de uma maneira tão latino-americana. Vejo, em cada tira, nossa condição traduzida: a ideia de que tudo está de cabeça pra baixo por causa da nossa posição no globo, o apego aos tiranos de coturno, a violência policial, a figura do pai amargurado com as prestações do carro, a mãe invisibilizada pelo trabalho doméstico –  “Mamãe, o que você gostaria de ser se tivesse uma vida?”

 

8 Os humoristas costumam lamentar a efemeridade de sua profissão. Uma piada difere do poema, que pode envelhecer como o vinho e ter uma vida mais longa que o poeta. A piada apodrece rápido: envelhece como um abacate, cuja vida útil é de poucas horas. As anedotas da nossa infância estragaram. Tive que descartar meus livros de piada porque fui reler e quase todas eram racistas, classistas, machistas ou homofóbicas, quando não eram tudo isso junto. Quase tudo o que me fazia rir na infância hoje me constrange. Uma piada reflete o mundo em que ela foi criada, e o mundo muda. As piadas também. Os humoristas, fabricantes de piada, costumam cair no esquecimento. Belmonte, pros cariocas, é apenas um bar, e não o criador do outrora popularíssimo Juca Pato. Péricles já não é o nome do criador do Amigo da Onça, mas do ex-vocalista do Exaltasamba. Difícil prever o que acontecerá no futuro – se houver – com o Quino, mas acho difícil que perca seu posto. Sua obra, publicada em trinta idiomas, faz sucesso até na China. A internet fez muito bem ao Quino. O perfil @mafaldadigital, no Instagram, tem quase 600 mil seguidores. Sim, Mafalda se tornou, à revelia, uma influencer.

 

9 “Não me lembro de ter rido nenhuma vez lendo a Mafalda.” A afirmação me chocou no meio de um canavial de elogios superlativos e homenagens lacrimogêneas que sucederam à morte do Quino. Veio de Alberto Montt, desenhista que nasceu no Equador e mora no Chile. A frase ressoou em mim porque eu tinha essa impressão, mas não a admitia. Quino não foi o mais engraçado dos cartunistas. Mas não é pelas risadas que se mede um humorista? O riso não está para o cartunista como o gol está para o jogador de futebol?

 

10 Montt garante que Quino nunca pensou assim. “Ele não esperava que você risse do que fazia. O que Quino propôs foi um cavalo de troia de ideias.” Gostei muito dessa imagem – essa, sim, tão próxima do humor do Quino. Para ele, o humor não passava de um presente de grego, dentro do qual escondia sua visão cáustica sobre o mundo. Talvez por isso vá durar tanto. “Fazer rir é a forma mais baixa de comédia”, disse algum humorista. O humor do Quino não busca tanto a risada quanto a poesia. Pelo olhar de uma criança, dá a ver o que não conseguíamos. Quino atravessou fronteiras espaciais e temporais porque falava, como Chaplin e Chapolin, da experiência humana na Terra. Falava de nós, essa espécie condenada à velhice, à morte e à sopa. Humana, demasiado humana, Mafalda cumpriu como ninguém a função do humor, que vai muito além de fazer rir. Quino nos lembrava, a cada tira, que não estamos sozinhos. O mundo está cheio de gente que odeia sopa e o capitalismo. Mafaldas do mundo inteiro, uni-vos!

Gregorio Duvivier

Gregorio Duvivier é humorista, ator, escritor, poeta e um dos criadores do canal Porta dos Fundos

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